Pelo menos para cantores, há muito deixaram de ser utilizados os epítetos, ou seja, apelidos ou expressões que os identificavam. Carmen Miranda era a pequena notável — ou The Brazilian Bombshell, nos Estados Unidos. Francisco Alves: o rei da voz. Angela Maria: a Sapoti. Marlene: a favorita da Marinha. A minha, a sua, a nossa favorita: Emilinha Borba. Orlando Silva era o cantor das multidões, o que levou um humorista a chamar Lúcio Alves, menos famoso, de cantor das multidinhas. Um dos mais recentes é o de Frank Aguiar, o cãozinho dos teclados, não sei se atribuído por um humorista.
Não creio que alguém tenha recebido mais epítetos do que Elizeth Cardoso (também se escreve Elizete ou Elisete), cujo centenário se completará na próxima quinta-feira, dia 16. O mais famoso é divina, mas há também enluarada, magnífica, preferida, mulata maior, lady do samba, noiva do samba-canção e até Machado de Assis do samba.
Ligar o nome da cantora apenas ao samba seria restringir muito o alcance da sua carreira, que durou até maio de 1990, dois meses antes de fazer 70 anos. Haja vista sua atuação em outras formas musicais, como choro, bossa nova e canções carnavalescas. Felizmente, há muitas gravações disso, disponíveis até hoje nos mais diversos formatos, desde os bolachões de vinil até as mídias digitais.
A primeira é de 1950: “Canção de amor”, de Chocolate e Elano de Paula. Nunca mais Elizeth deixou de cantar saudade, torrente de paixão, emoção diferente, que virou um prefixo de suas apresentações no rádio e televisão, onde ela também foi precursora, porque se apresentou no primeiro programa da TV Tupi do Rio de Janeiro, em 1951.
Mas aí ela já tinha a experiência adquirida muito cedo nos circos, clubes e cinemas, inclusive como crooner de orquestras. Outro sucesso de Elizeth como intérprete é uma composição do filho dela, Paulo Valdez, com Otávio de Moraes: “Meiga presença”. Essas e outras gravações estão na caixa de quatro CDs Elisete Cardoso, A Divina. Entre elas, “Naquela mesa”, que Sérgio Bittencourt compôs e gravou com ela em homenagem ao pai dele, amigo e incentivador dela, Jacob do Bandolim.
DO ERUDITO AO POPULAR
Rua Nascimento Silva, 107 / Você ensinando pra Elizete / As canções de Canção do Amor Demais – assim começa a canção “Carta ao Tom 74”, de Toquinho e Vinícius, fazendo referência ao álbum de 1958 que alguns consideram o marco inicial da bossa nova porque, além das canções de Tom e Vinícius na voz da cantora, traz a famosa batida de violão de João Gilberto.
Existem pelo menos três músicas dedicadas a ela: “Elizeth no chorinho”, de Pixinguinha; “Elisete”, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, e “Faxineira das canções”, de Joyce Moreno – essa é a mais recente, chegou a ser gravada pela homenageada e lhe acrescentou um epíteto. João Nogueira cantou ó meiga Elizeth / meu muito obrigado no samba “Wilson, Geraldo e Noel”, em agradecimento por ela ter gravado o seu “Corrente de aço”.
Elizeth trafegou do erudito ao popular com desenvoltura. Cantou nos teatros municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro as Bachianas brasileiras número 5, de Villa-Lobos, que ela gravou, mas fez sucesso popular com um samba politicamente incorreto, em apologia à bebida alcoólica: “Eu bebo sim” tem o verso “bebida não faz mal a ninguém”. São preciosas também as gravações dos seus duetos com Cyro Monteiro, alguns dos quais hoje também seriam considerados incorretos, e do show que ela fez em 1968 no Rio de Janeiro, com o Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e o Época de Ouro.
Há registros também de suas atuações na trilha sonora do filme “Orfeu do Carnaval”, de 1959, e como cantora em filmes nacionais.
Elizeth foi tema de um samba-enredo carioca em 1974 que juntou dois de seus epítetos (Mulata maior, a divina), de um musical em 2018 com o mais conhecido (Elizeth, a divina) e até inspiração para uma cerveja neste 2020, a Divina Elizeth.
Vários projetos para comemorar o centenário de Elizeth tiveram de ser adiados, só serão possíveis as festas e exposições virtuais. Mas sua voz pode ser ouvida nas muitas gravações disponíveis, por quem conhece ou não o seu trabalho, permitindo concordar ou não com os seus epítetos – ou talvez lhe atribuir outros. l