Publicado em 4 de março de 2026 às 14:00
PEQUIM - O Irã parece disposto a priorizar a sobrevivência do regime aiatolás acima das perdas econômicas decorrentes da interrupção do fluxo de petróleo, mantendo o Estreito de Ormuz fechado pelo tempo que o conflito armado durar.>
Analistas ouvidos pela Folha afirmam que a morte do aiatolá Ali Khamenei empurra a liderança iraniana a demonstrar coesão e resistência frente às pressões externas, uma prioridade que pode se sobrepor à necessidade de receita.>
Philip Andrews-Speed, pesquisador sênior no Instituto de Energia da Universidade de Oxford (Reino Unido), afirma que a perda de receita não será uma preocupação central no curto prazo.>
"A elite do regime se preocupa apenas com a sobrevivência do próprio regime. É provável que esteja disposta a manter o Estreito de Ormuz fechado enquanto o conflito armado continuar", diz.>
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A Guarda Revolucionária do Irã anunciou o fechamento na última segunda-feira (2), ameaçando incendiar qualquer navio que tentasse cruzar a região.>
O fechamento de Ormuz já se refletiu nos preços do petróleo, que começaram a subir desde o ataque e tiveram nova alta na manhã desta quarta-feira (4). O preço do barril do Brent, referência global da commodity, era negociado acima de US$ 81, configurando alta. Na sexta-feira (27), às vésperas do ataque, o custo era de US$ 72,48.>
Zha Daojiong, professor de política econômica internacional na Universidade de Pequim (China), pondera que os mercados de combustíveis fósseis já haviam precificado a possibilidade de interrupções deliberadas mesmo antes da rodada atual de conflitos — o que pode segurar disparadas ainda mais acentuadas.>
"Com os EUA declarando interesse em mudança de regime, mas não em reconstrução nacional do Irã, e, mais profundamente, com o Irã já seriamente enfraquecido antes da recente rodada de ataques, as perspectivas de interrupções significativas nos fluxos comerciais que entram e saem dessas águas são baixas.">
Entre os principais países afetados está a China, destino de 5,4 milhões de barris que atravessam o estreito por dia, segundo dados do primeiro trimestre de 2025 reunidos pela EIA (Administração de Informação de Energia dos EUA).>
O movimento cria risco, ainda que distante neste momento, ao abastecimento energético chinês, uma vez que o bloqueio pode impactar diretamente o fornecimento. Pequim mantém hoje estoques da commodity em quantidade suficiente, segundo Andrews-Speed, para que não haja preocupação com o suprimento por "muitas semanas".>
De forma geral, os países asiáticos serão os mais prejudicados, uma vez que o trecho integra a rota do petróleo proveniente do Irã, dos Emirados Árabes, da Arábia Saudita e do Iraque.>
Analistas, porém, preveem cautela na ação de qualquer um desses atores, uma vez que ainda não é possível prever a duração da guerra ou mesmo qual será o impacto real no fluxo comercial na região.>
Agora, as perdas econômicas pelo fechamento do trecho se somam à bagagem de Teerã, marcada por sanções financeiras severas, alta inflação e preços proibitivos, além dos cofres drenados para responder, no ano passado, à ofensiva de Israel e ao ataque americano ao seu programa nuclear — episódio batizado de Guerra dos 12 Dias.>
Para Michal Meidan, chefe do programa de pesquisa em energia chinesa do Instituto de Estudos de Energia da Universidade de Oxford, não será fácil manter o estreito fechado.>
"É certamente desafiador, mas este é um regime que agora quer infligir o máximo de sofrimento aos seus vizinhos e aos Estados Unidos, e isso se dá por meio dos preços do petróleo.">
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