Publicado em 4 de março de 2026 às 12:08
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (4/3) a terceira fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes ao sistema financeiro nacional supostamente praticadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. >
Mas se as duas fases anteriores da operação focaram no funcionamento das alegadas fraudes praticadas pelo banqueiro, a fase deflagrada nesta quarta-feira teve como um dos seus focos principais o desmantelamento de um suposto grupo liderado por Vorcaro para monitorar e ameaçar adversários empresariais, ex-funcionários e jornalistas.>
Vorcaro voltou a dizer nesta quarta que nega todas as acusações.>
Para a PF, o grupo atuaria como uma "milícia privada" a serviço do banqueiro.>
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A operação de hoje foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e determinou a prisão de Vorcaro e mais três pessoas: todas supostamente envolvidas no funcionamento deste grupo, que tinha um apelido interno: "Turma".>
Além de Vorcaro, foram alvo de mandados de prisão: seu cunhado, o advogado, empresário e pastor evangélico Fabiano Campos Zettel, o policial federal Marilson Roseno e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão.>
Mensagens extraídas de aparelhos de telefone celular analisadas pela PF apontam que Vorcaro teria montado um grupo para monitorar adversários, empresários concorrentes, autoridades e jornalistas.>
Esse grupo ficaria responsável por levantar informações, monitorar e até mesmo ameaçar pessoas de interesse de Vorcaro.>
Em um dos casos, Vorcaro chega a autorizar uma ação contra um jornalista e diz desejar "quebrar todos os dentes" do profissional, de acordo com as mensagens.>
Segundo as investigações, o grupo funcionava como uma estrutura de vigilância e coerção privada. De acordo com a decisão que autorizou a operação, o núcleo era destinado à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação de críticos do conglomerado liderado pelo banqueiro. >
A defesa de Vorcaro enviou nota negando as adusações contidas na decisão que autorizou a operação. >
"A defesa de Daniel Vorcaro informa que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça. A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta", diz um trecho da nota. >
As defesas de Zettel, Roseno e Mourão não foram localizadas. >
Segundo a PF, Daniel Vorcaro usava a "Turma" para obter informações sobre seus adversários e diminuir sua exposição negativa na mídia.>
Nas mensagens obtidas pela PF, ele aparece indicando possíveis alvos para monitoramento.>
Ainda de acordo com a PF, a estrutura da "Turma" era liderada operacionalmente por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido nas mensagens interceptadas como "Felipe Mourão" e por um apelido: "Sicário".>
As mensagens analisadas pela PF apontam que Mourão mantinha relação direta com Vorcaro.>
A PF apontou que Mourão usaria credenciais de terceiros para acessar indevidamente bases de dados do próprio órgão, do Ministério Público Federal (MPF) e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol.>
Zettel, por sua vez, seria o responsável por realizar os pagamentos para o funcionamento do grupo.>
As investigações revelaram que o custo mensal dessa estrutura poderia chegar de R$ 1 milhão.>
Em uma conversa por WhatsApp obtida pela PF, Mourão cobra Vorcaro pelo atraso no pagamento:>
"Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando. Dá uma olhada com ele por favor. Obrigado".>
Além de Mourão, segundo a decisão, o grupo contava com Marilson Roseno da Silva, um policial federal aposentado.>
Roseno, de acordo com a investigação, utilizava sua experiência e contatos na corporação para obter dados sensíveis, ajudar no e realizar vigilância de alvos definidos pela organização.>
"Sua participação era voltada à coleta e compartilhamento de informações que pudessem antecipar ou neutralizar riscos decorrentes de investigações oficiais ou da atuação de jornalistas, ex-funcionários e outros indivíduos considerados críticos às atividades do grupo", diz um trecho da decisão.>
As mensagens reproduzidas pela PF e presentes na decisão apontam que as ordens de monitoramento dadas por Vorcaro eram diretas. Além de jornalistas e concorrentes, ele teria chegado a mandar monitorar um ex-chefe de cozinha que havia trabalhado para ele.>
Na decisão, as investigações apontam que o grupo citava o uso de violência em suas atividades. A PF caracterizou a ação do grupo como "rápida, premeditada e violenta, com o uso reiterado de coação e grave ameaça por uma espécie de milícia privada".>
A PF cita um episódio no qual Vorcaro teria pedido Mourão agisse contra uma empregada que o teria ameaçado.>
"Tem que moer essa vagabunda. Puxa endereço tudo", diz uma mensagem atribuída a Vorcaro pela PF e endereçada a Mourão.>
Mourão pediu orientação.>
"O que é pra fazer?", diz mensagem atribuída a ele para Vorcaro.>
"Puxa endereço tudo", teria respondido Vorcaro.>
A suposta dinâmica violenta do grupo aparece, também, em uma troca de mensagens relacionada a um jornalista.>
Seu nome aparece tarjado, mas uma busca simples no documento aponta que o nome tarjado é "Lauro", uma provável citação ao colunista do jornal O Globo Lauro Jardim.>
Na decisão, Mendonça afirma que haveria indícios de que Vorcaro teria ordenado a simulação de um assalto para agredir o jornalista.>
"A partir de todos esses diálogos verifica-se a presença de fortes indícios de que Vorcaro determinou a Mourão que forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para prejudicar violentamente o jornalista em questão e, a partir do episódio, calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados">
Em uma mensagem atribuída a Vorcaro para Mourão, o banqueiro diz querer "dar um pau" no jornalista.>
"Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto", diz a mensagem.>
Em resposta, Mourão teria respondido. "Pode? Vou olhar isso…">
Vorcaro, então, segundo a PF, responde. "Sim".>
A ação não foi realizada, segundo relato de Lauro Jardim à rádio CBN, na manhã desta quarta-feira. >
O jornal 'O Globo' divulgou uma nota comentando a operação e citando Jardim como implicado: "Os envolvidos nessa trama criminosa devem ser investigados e punidos com o rigor da lei. O Globo e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público".>
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