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Registro raro

Capixaba viraliza ao fotografar lobo-guará 'simpático' no ES

Flagrante feito pelo biólogo e fotógrafo Gabriel Bonfa surpreendeu até especialistas e reacendeu debate sobre mudanças ambientais no Espírito Santo

Publicado em 11 de Fevereiro de 2026 às 12:14

Nicoly Reis

Publicado em 

11 fev 2026 às 12:14
Lobo Guará
A foto do lobo-guará sorridente foi tirada no início de dezembro de 2025 Crédito: Gabriel Bonfa
O encontro inesperado com um dos animais mais emblemáticos da fauna brasileira transformou um dia comum de trabalho em um fenômeno nas redes sociais. O biólogo, fotógrafo de natureza e guia de observação de aves Gabriel Bonfa, morador de Linhares, no Norte do Espírito Santo, viralizou ao publicar imagens de um lobo-guará feitas dentro da Reserva Natural Vale, na mesma região capixaba. As fotos chamaram atenção não apenas pela raridade do animal no local, mas, principalmente, pelo semblante carismático e pelas expressões curiosas captadas pelas lentes.
O registro foi feito no início de dezembro de 2025, durante uma atividade de campo com clientes. Bonfa relata que o grupo retornava por um trecho aberto da reserva quando avistou, a distância, um mamífero de grande porte. A princípio, pensou se tratar de uma onça-parda, animal que já havia observado em outras ocasiões na região. A confirmação só veio após o uso do binóculo. “Quando coloquei o binóculo, eu não acreditei: era um lobo-guará”, afirmou.

Um encontro improvável no ‘quintal de casa’

Apesar de atuar há anos em áreas naturais do Espírito Santo, o fotógrafo explica que jamais esperava encontrar um lobo-guará naquele ambiente. A espécie é típica do Cerrado e raramente associada a regiões de Mata Atlântica. Segundo ele, já havia viajado para outros Estados justamente com a expectativa de observar o animal em seu habitat natural, sem sucesso. O fato de encontrá-lo em uma área que frequenta há mais de uma década tornou o episódio ainda mais marcante.
Bonfa destaca que já existiam registros pontuais do lobo-guará no Espírito Santo, inclusive, por meio de armadilhas fotográficas e monitoramentos ambientais, mas o encontro direto continua sendo considerado raro. Ele explica que o animal tem sido visto com mais frequência em regiões próximas e até em áreas urbanas, o que indica uma ampliação de território ao longo dos anos.
Mesmo diante da surpresa, o fotógrafo manteve os cuidados necessários para não interferir no comportamento do animal. As imagens foram feitas rapidamente, sem aproximação, e o grupo seguiu o percurso logo em seguida.
No momento do clique, Bonfa não imaginava que aquelas imagens teriam grande alcance. Ele conta que só percebeu o potencial das fotos depois, ao transferi-las para o computador e observar com mais atenção as expressões captadas. Algumas imagens, inclusive, foram separadas, inicialmente, por serem consideradas curiosas e expressivas, com a ideia de que pudessem virar figurinhas no grupo de amigos.
O incentivo para a publicação veio de forma espontânea. Após ver as fotos, a namorada do fotógrafo sugeriu que ele interrompesse o cronograma de postagens e compartilhasse imediatamente o registro. A decisão resultou em uma repercussão rápida e crescente.
Bonfa afirma que não esperava tamanha visibilidade. Segundo ele, inicialmente surgiram pedidos comuns de compartilhamento, mas, com o passar do tempo, o conteúdo começou a ser replicado por perfis maiores e veículos de comunicação. O ponto alto, para ele, foi quando recebeu contato de um canal de documentários. “Quando o Discovery (Channel) entrou em contato, foi surreal”, contou.

Fotografia, ciência e conservação

Para além do impacto nas redes sociais, o registro levantou discussões importantes sobre conservação ambiental. O lobo-guará é uma espécie ameaçada de extinção e sofre diretamente com a perda de habitat. Gabriel explica que o avanço do desmatamento no Cerrado, aliado às mudanças climáticas, tem forçado o animal a expandir seu território para outras regiões.
Segundo ele, esse deslocamento não ocorre sem consequências. A presença de uma espécie fora de seu habitat típico pode interferir em toda a cadeia ecológica, já que o lobo-guará não é um animal característico de áreas florestais densas. Registros cada vez mais frequentes no Espírito Santo reforçam esse cenário de transição ambiental.
O fotógrafo ressalta que a observação de aves — atividade que o levou ao encontro com o lobo-guará — tem papel relevante na produção de dados ambientais. Ele explica que registros feitos ao longo do tempo ajudam a acompanhar mudanças na fauna, no clima e na dinâmica da floresta. “Muita gente acha que é só sair para fotografar bicho, mas esses registros ajudam a entender como o ambiente está mudando”, destacou.

Uma trajetória construída desde a infância

A relação de Gabriel com a fotografia começou ainda na infância, quando utilizava uma câmera simples para registrar momentos do cotidiano. O interesse pela natureza foi se consolidando ao longo dos anos, influenciado por documentários e pelas visitas frequentes ao sítio da família.
Aos nove anos, ganhou a primeira câmera digital e passou a fotografar aves, hábito que mais tarde influenciaria a escolha pela Biologia e pela especialização em ornitologia — estudo das aves. Desde 2018, atua como guia de observação de aves no Espírito Santo, conciliando o trabalho com a fotografia e a divulgação científica.
Para ele, encontros como o do lobo-guará reforçam uma lição constante do trabalho em campo. “A gente sempre tem que esperar pelo inesperado”, resume. Segundo Bonfa, a repercussão das imagens também pode contribuir para despertar o interesse do público pela biodiversidade e pela preservação ambiental, ao transformar um registro em ponto de reflexão sobre os caminhos da fauna.

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