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Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 14:21
“O acesso ao conhecimento é uma das formas de combater o racismo.” A afirmação do professor Osvaldo Martins de Oliveira, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Espírito Santo (Neab/Ufes), traduz o objetivo do livro “Afro-brasileiros/as no ES: Memórias e Trajetórias Educacionais”, lançado em dezembro e disponibilizado gratuitamente ao público. >
A obra reúne as biografias de 11 personalidades negras que tiveram papel relevante na história do Espírito Santo, com atuações nas áreas do Direito, da educação, da política, da comunicação e da saúde. Mais do que narrar percursos individuais, o livro propõe uma leitura coletiva da luta antirracista no Estado, tendo a educação como eixo de enfrentamento às desigualdades históricas.>
Segundo Osvaldo, a escolha pelo formato biográfico não foi aleatória. “Entendemos que existem diferentes formas de combater o racismo, e o acesso ao conhecimento é uma delas”, afirma. Para o pesquisador, contar essas histórias é uma maneira de demonstrar que pessoas negras sempre construíram trajetórias acadêmicas e profissionais relevantes, apesar das barreiras impostas pelo preconceito racial.>
O professor ressalta que as trajetórias apresentadas no livro não devem ser vistas como conquistas isoladas. “Alguns dizem que essas histórias representam lutas individuais, mas não são. São lutas de famílias que investiram na educação de seus filhos como forma de enfrentar a exclusão social racista”, destaca.>
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Ao reunir diferentes percursos em uma mesma obra, o livro amplia a potência desse enfrentamento.>
Osvaldo Martins de Oliveira
Autor e professor da UfesA maioria dos biografados concluiu cursos universitários, alguns chegaram ao mestrado, e todos, de alguma forma, romperam ciclos de exclusão. Um dos destaques é o caso de Nilton Gomes, radialista e ex-deputado estadual, que não chegou à universidade, mas construiu uma trajetória de destaque por meio do rádio. “Isso não invalida sua história. Ele veio de uma família de baixa renda, começou como menor aprendiz e se destacou profissionalmente”, afirma o pesquisador.>
A construção das biografias envolveu um trabalho extenso de pesquisa documental e entrevistas. De acordo com Osvaldo, os pesquisadores recorreram a arquivos públicos, acervos da Assembleia Legislativa, recortes de jornais, fotografias, livros, músicas e documentos pessoais das famílias dos biografados.>
Além disso, entrevistas gravadas com filhos, sobrinhos, irmãos e amigos próximos foram fundamentais para reconstruir as histórias de vida. “Buscamos qualquer informação que ajudasse a compreender esses personagens: nomes de escolas, pontes, referências culturais. Tudo isso foi fonte de pesquisa”, explica.>
O trabalho contou com a participação de historiadores, cientistas sociais, antropólogos, jornalistas, artistas e pesquisadores de diferentes áreas, que se dedicaram à coleta e análise do material. Para Osvaldo, esse processo também gerou uma aproximação afetiva com as famílias. “Quando estudamos essas trajetórias, entramos nelas e passamos a fazer parte dessas memórias”, afirma.>
O livro é resultado de pesquisas desenvolvidas no âmbito do projeto Africanidades Transatlânticas, coordenado por Osvaldo, e reúne estudos realizados por estudantes ao longo dos anos. Muitos dos personagens já vinham sendo analisados em trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e pesquisas acadêmicas.>
“Esses estudos foram sendo reunidos em pequenos textos e artigos, que passaram a compor o livro”, explica o professor. O Volume I da obra foca especialmente nas trajetórias educacionais de afro-brasileiros no Espírito Santo, mas o projeto já contempla pesquisas sobre mestres de saberes tradicionais, comunidades quilombolas, grupos de jongo e comunidades de terreiro no Estado.>
Para Osvaldo, registrar essas trajetórias sob a perspectiva de pesquisadores negros também tem um significado simbólico. “Esses pesquisadores estavam estudando trajetórias de pessoas negras que vieram antes deles na universidade. Existe uma responsabilidade social em deixar um legado para as próximas gerações”, afirma.>
O livro, segundo ele, funciona como uma referência para estudantes negros que hoje ocupam os espaços acadêmicos. >
Osvaldo Martins de Oliveira
Autor e professor da UfesO livro integra a Coleção Canaã, linha editorial do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), e foi produzido em parceria com o projeto de pesquisa Africanidades Transatlânticas, e com o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Ufes. A organização é dos professores Osvaldo Martins de Oliveira, da Ufes, e Ademildo Gomes, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), além do diretor do Arquivo Público, Cilmar Franceschetto.>
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