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No ES, 36 pessoas já disputaram mais de cinco eleições e nunca ganharam

Um dos que mais se candidatou – sem sucesso – já pensa em concorrer a nona eleição em outubro. Outro capixaba já teve o nome na urna 12 vezes seguidas. Levantamento feito por A Gazeta é desde o pleito de 1998

Publicado em 13/01/2020 às 08h26
Atualizado em 13/01/2020 às 14h01
Edson Alves de Freitas já se candidatou oito vezes, mas nunca se elegeu. Crédito: Carlos Alberto Silva
Edson Alves de Freitas já se candidatou oito vezes, mas nunca se elegeu. Crédito: Carlos Alberto Silva

"Por tudo que passei e aprendi, hoje eu sou o cara mais preparado." Foi com essa frase que o analista judiciário Edson Alves de Freitas encerrou a entrevista, feita cerca de nove meses antes do que pode ser a nona eleição dele. Desde 2004, o servidor se alterna, a cada dois anos, na disputa pelos cargos de vereador de Vitória e deputado estadual no Espírito Santo.

Em situação semelhante à dele há, pelo menos, outros 36 capixabas que já disputaram – e perderam – mais de cinco eleições, de acordo com um levantamento feito por A Gazeta, com a ajuda do Tribunal Regional Eleitoral do Estado (TRE-ES), considerando todas as eleições realizadas a partir de 1998.

Apesar de nunca ter conseguido se eleger, Edson continua acreditando na possibilidade de assumir um cargo após o pleito deste ano – principalmente por causa da mudança que extinguiu as coligações partidárias para eleições proporcionais. "Nem sempre quem tinha mais votos ganhava. Por isso, tenho certeza que todos estão com novas expectativas", disse.

Em 2018, no entanto, Edson obteve um total de 124 votos, passando longe do atual deputado estadual Emílio Mameri (PSDB), que foi o parlamentar local menos votado nas últimas eleições, contando com o apoio de quase 11.500 pessoas, conforme divulgado no site oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Dançando conforme a música, Edson também já integrou seis siglas partidárias: PTB, PMN, PHS, PPL, PSDB e DEM. "Todo candidato precisa de um partido, mas eu fiz a minha campanha na cara e na coragem. O que importa é o nosso caráter e o nosso conhecimento", defendeu ele, que já afirmou ter recebido dois convites para as eleições de 2020.

MAS POR QUE TANTA INSISTÊNCIA?

Nascido na Vila Rubim, Edson contou que o interesse pela política surgiu por causa do pai – que nunca se aventurou no meio. "Como ele foi oficial de polícia e depois treinador de futebol, ele era uma pessoa muito conhecida e os políticos procuravam ele para tentar se eleger. Queria ver o que de bom eu poderia fazer se fosse eleito", revelou.

No início do milênio, ele sofreu a primeira das nove derrotas nas urnas. "Por incrível que pareça, nunca pensei em desistir. Ao longo dessa caminhada, foram aparecendo pessoas que iam me motivando, que viam em mim um potencial. Em cada eleição, eu encontrava uma motivação para levantar uma bandeira", garantiu.

Católico, Edson tem um projeto que envolve a colocação da cruz da Praça do Papa no Morro do Papagaio. Crédito: Carlos Alberto Silva
Católico, Edson tem um projeto que envolve a colocação da cruz da Praça do Papa no Morro do Papagaio. Crédito: Carlos Alberto Silva

Com propostas ligadas à segurança, saúde e turismo, Edson arriscou fazer um resumo do que defende para a Capital. "A construção de um grande centro especializado em problemas de respiração por causa do ar com minério de ferro, a construção de uma capela ecológica em homenagem ao Santo João Paulo II e a reestruturação da segurança pública", elencou.

ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE

Quem segue caminho semelhante ao de Edson é o auditor fiscal aposentado Nazareno Camargo Fonte Boa, de 79 anos, natural de São José do Calçado, no Sul do Estado. Desde 1996, ele também se alterna entre as candidaturas de vereador de Vitória e de deputado estadual do Espírito Santo – sem sucesso.

"Eu sempre pensei diferente dos outros políticos e isso que me incentivou. Em algumas eleições, consegui ficar como primeiro suplente, mas acho que nunca fui eleito por causa da minha sinceridade", comentou. "Não descarto me candidatar nessas eleições de novo, mas ainda não há nada definido", completou ele que já disputou 12 pleitos.

Além deles, há também as figuras do agricultor Marcos Antônio Mendes e do médico Humberto Simões Gonçalves que já têm dez eleições no currículo, sem nenhuma vitória. Outros dois candidatos somam nove disputas "fracassadas"; e mais cinco, tentaram se eleger sete vezes. Fechando a lista dos que somam mais de cinco pleitos no Espírito Santo, aparecem 25 nomes.

O QUE HÁ POR TRÁS DOS "CANDIDATOS ETERNOS"

Para explicar esse fenômeno, A Gazeta consultou o cientista político João Gualberto Vasconcellos, que elencou três principais motivações que levam as pessoas a se candidataram tantas vezes a vereador e deputado estadual, apesar das consecutivas derrotas acumuladas nas urnas.

  1. 01

    Vaidade

    "O primeiro tipo é o candidato que chamo de ‘sem noção’. No Brasil, o favor é a intermediação universal do voto. Por isso, surge o cara da farmácia, da ambulância... Por serem conhecidos no local onde eles moram, eles às vezes chegam até a gastar dinheiro com a campanha, na ilusão de que vão se eleger. Não acho que sejam a maioria, mas eles costumam ser populares e ter mais visibilidade. Vez ou outra, eles até conseguem ganhar, como foi o caso do Jair Lixeiro, antigo vereador de Vitória, por exemplo."

  2. 02

    Licença remunerada

    "O segundo tipo acontece quando o candidato é funcionário público, porque, neste caso, eles têm direito a uma licença de meses, durante a qual eles continuam a receber os respectivos salários normalmente. Se, por acaso, conseguirem se eleger, eles podem conquistar um maior prestígio ou um cargo melhor. O ganho dessas pessoas, a princípio, no entanto, é não trabalhar."

  3. 03

    Capital político

    "O terceiro e último tipo é o que julgo ser mais comum. É o caso das pessoas que se candidatam para fechar a porta do curral eleitoral que administram. Ao juntar 100 votos, por exemplo, elas podem conseguir um cargo comissionado na prefeitura ou virar o assessor de algum deputado."

Por fim, Gualberto também ressalta uma condição do sistema político brasileiro que faz com que os partidos procurem pessoas para completar a chapa e, assim, terem mais chance de eleger os principais candidatos, por meio da somatória dos votos dados à legenda partidária, no caso de vereadores e deputados.

"Vamos supor que o partido precise de 8 mil votos para eleger um vereador por meio da legenda. A diretoria dele, então, chama diversos candidatos medianos para ajudar a angariar votos e, com isso, contribuírem para a eleição dos mais fortes. Dessa forma, também acabam contribuindo para o surgimento dessas candidaturas eternas", explicou.

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