Publicado em 1 de junho de 2022 às 20:20
O biólogo Antônio F. Carvalho, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (Inma), em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo, realizou um estudo que desvendou uma rede on-line de tráfico de abelhas-sem-ferrão em todo o Brasil, com valores que variam de R$ 700 a R$ 5 mil. >
Em artigo publicado nesta quarta-feira (1º) na revista "Insect Conservation and Diversity", o pesquisador revelou que o comércio ilegal de ninhos de abelhas-sem-ferrão realizado na internet é uma das principais ameaças à conservação de espécies brasileiras.>
As abelhas-sem-ferrão são responsáveis por polinizar árvores em florestas tropicais e de plantas comerciais, sendo muito utilizadas no Brasil para a produção de mel, atividade conhecida como meliponicultura.>
Segundo o Inma, o tráfico dessas espécies para regiões em que não são nativas facilita a disseminação de parasitas e predadores, contribuindo para o desaparecimento das abelhas.>
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"Muitas discussões estão focadas nos efeitos do aquecimento global na biodiversidade, mas temos questões muito urgentes para tratar. Espécies sumirão da natureza devido ao tráfico muito antes que o clima consiga afetá-las negativamente”, esclarece o pesquisador.>
Entre as espécies mais cobiçadas para a venda ilegal estão a mandaguari (Scaptotrigona spp), e a uruçu-capixaba (Melipona capixaba) e a uruçu-nordestina (Melipona scutellaris), sendo que as duas últimas em perigo de extinção.>
A pesquisa localizou vendedores em 85 cidades brasileiras, sendo a maioria em regiões próximas da Mata Atlântica. Foram 308 anúncios de venda observados no estudo.>
As colônias são vendidas a preços que variam de R$ 700 a R$ 5 mil, e comercializadas em caixas de madeira de diversos modelos ou em iscas de garrafas pet. Os ninhos são retirados da natureza e as abelhas são levadas para longas distâncias, sobretudo para localidades fora das áreas de onde são nativas.>
Além das abelhas produtoras de mel, também são vendidas ilegalmente espécies sem potencial para a produção melífera, como a boca-de-sapo (Partamona helleri) e mombucão (Cephalotrigona capitata), cujo mel não apresenta sabor palatável.>
"Esses dados revelam um preocupante mercado de criadores e de colecionadores ávidos pelos mais diferentes grupos, independente do potencial produtivo da espécie em alguns casos”, analisou o pesquisador>
De acordo com Antônio, o Brasil é o maior produtor de mel do mundo e, apesar de a atividade ser o desejo de quem comercializa de forma ilegal as abelhas, não pode ser colocada como culpada.>
"A meliponicultura não é a vilã dessa história. A atividade pode, ao contrário, contribuir para a conservação das abelhas, evitando a ação dos meleiros, pessoas que exterminam colônias somente para retirar o mel. Ninhos manejados por meliponicultores podem produzir mel e ser multiplicados por muitos anos", explicou.>
O aparecimento dessas abelhas em áreas urbanas com poucos recursos naturais pode ser o principal fator para a extinção de algumas espécies.>
"Parasitas podem ser levados ‘na carona’ com essas colônias, afetando populações de abelhas nativas e manejadas, e as condições climáticas nas novas localidades podem não ser adequadas para as espécies, o que também colabora com o alto potencial de perda de colônias”, destacou Antônio.>
O estudo realizado pelo Inma traz como prováveis soluções para o tráfico das espécies a educação de meliponicultores e o cumprimento de leis ambientes, com aplicação de sanções para os crimes ambientais cometidos por vendedores que comercializam grandes quantidades de ninhos de forma clandestina.>
“É preciso que os meliponicultores — os principais prejudicados por doenças e pragas de abelhas — entendam que ao comprar ninhos de outras áreas de forma ilegal estão colocando suas abelhas nativas em perigo. Levar abelhas da Amazônia para a Mata Atlântica, por exemplo, é uma das medidas que mais contribuem para o desaparecimento de populações desses insetos, uma realidade que ocorre sem punições e, infelizmente, está às nossas vistas — à distância de um clique”, concluiu o biólogo.>
Para realizar as vendas das espécies de forma legal, criadores devem estar cadastrados no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ou em um órgão de fiscalização estadual, e são obrigados a emitir uma Guia de Trânsito Animal (GTA) para cada colônia comercializada.>
A reportagem do g1ES demandou a Polícia Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para informar sobre investigações relacionadas a tráfico de abelhas, considerando a descoberta informada no estudo. Assim que houver retorno, este texto será atualizado.>
*Com informações do g1ES>
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