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Após esposa questionar ação da PM, Justiça libera motoboy preso em Vitória

Após esposa questionar ação da PM, Justiça libera motoboy preso em Vitória

Na noite da última terça-feira (1), o entregador Isaque Rezende Araújo foi perseguido na Rodovia Serafim Derenzi por policiais por suspeita de ter assaltado duas mulheres. Familiares, amigos e o advogado negam o assalto e alegam abuso por parte dos militares

Publicado em 3 de dezembro de 2020 às 15:08

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Vitória
Isaque tem uma lanchonete e trabalha como entregador dos lanches que produz. (Arquivo pessoal)

A Justiça concedeu, nesta quinta-feira (3), liberdade ao entregador de lanches Isaque Rezende Araújo, preso por suspeita de assalto. Isaque passou por uma audiência de custódia e ganhou liberdade provisória. A família e os amigos estão revoltados com a versão dada pela polícia para a prisão do motoboy, ocorrida na noite da última terça-feira (1), na Rodovia Serafim Derenzi, no bairro São Pedro, em Vitória.

Segundo a Polícia Militar, por volta das 22h, policiais viram duas mulheres conversando com um motociclista, que estava com uma mochila de entrega de comida por aplicativo. De repente, uma delas correu até a viatura gritando e dizendo estar sendo assaltada pelo motociclista. Além disso, de acordo com a PM, o motoboy estaria armado.

Ainda na versão narrada na ocorrência, na sequência o motociclista teria fugido em alta velocidade e teve início a perseguição. O suspeito teria saído da rodovia e entrado pelas ruas do bairro Nova Palestina. Segundo a polícia, o homem atirou nos agentes, que revidaram, atingindo Isaque em uma das pernas. Na altura da Rua Padre Gabriel, o suspeito perdeu o controle da moto e caiu, segundo a versão da polícia.

Revoltada com a injustiça sofrida pelo marido, Rayna Silva, que está grávida de seis meses e administra com Isaque uma lanchonete, a versão contada pelos policiais não se sustenta. No Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE), o antigo São Lucas, na Capital, ela conversou com o companheiro antes dele ser detido e ouviu a versão dele para o caso.

"Recuso tudo (versão da polícia) e quero que eles provem a arma. Se tinha quatro PMs na viatura, por que eles não deram conta da arma? Não tinha como quatro policiais perderem a arma. A filmagem mostra ele passando em uma rua estreita. Ele (o motoboy) iria jogar a arma onde? Ele parou a moto em um local movimentado, pois vai saber o que poderiam fazer com meu marido", contou a jovem.

Além de Rayna, familiares e amigos do motoboy também postaram nas redes sociais pedidos por justiça. Eles também querem que os fatos sejam esclarecidos.

MAL-ENTENDIDO

A mulher contou que o marido havia saído do estabelecimento deles para fazer quatro entregas. Após cerca de uma hora, ela estranhou o fato de Isaque não ter retornado. Pouco depois, ela foi até uma unidade de saúde do bairro e no local soube que o esposo havia sido baleado e preso. Isaque contou a esposa que houve um mal-entendido, que acabou gerando a perseguição. Rayna disse que o marido não assaltou as mulheres, como na versão dada pela polícia.

"Ele me falou que parou para pedir uma informação e as moças pensaram que ele estava assaltando elas. Depois ele ligou a moto e saiu, mas logo em seguida passou uma viatura, foi quando começaram a ir atrás dele. Não deram ordem de parada, não ligaram a sirene e começaram a atirar. Foi aí que ele parou a moto, começou a apanhar dos policiais e os moradores se revoltaram", contou Rayna.

FALTA DE PROVAS

A moto usada por Isaque no trabalho já foi devolvida à família. Na versão da PM, Isaque teria caído com a motocicleta, mas segundo a esposa do entregador, a Honda Biz não apresenta marcas de quedas, como arranhões. O que há, segundo ela, são marcas de tiro, na carenagem dianteira, além de sangue do próprio motoboy.

Vitória
Isaque é casado com Rayna, que está grávida de seis meses. (Arquivo pessoal)

O advogado Siderson Vitor, que representa Isaque Rezende Araújo, pediu relaxamento da prisão do motoboy e representou na Corregedoria contra os policiais militares que participaram da ocorrência.

"A polícia alega que houve troca de tiros. Não é verdade porque não existe uma arma do crime. Não é verdade porque não foi pedido, na Polícia Civil, um exame de pólvora na mão do meu cliente. Segundo, se houve um assalto, não estão presentes as vítimas nem as coisas que teriam sido roubadas. Então não houve assalto seguido de perseguição, o que ocorreu foi a polícia atirando para cima de um trabalhador. Atiraram primeiro e perguntaram depois", conta o advogado.

Precisando tocar sozinha o negócio que mantém com o marido, Rayna espera que tudo seja esclarecido. Ela ainda contou que Isaque nunca teve passagem pela polícia.

"Eu poderia ter perdido meu marido e estar agora velando o corpo dele por uma imprudência da polícia por falta de comunicação na abordagem. Eles poderiam ter parado e revistado meu marido. Não teve roubo, não teve nada. Só quero justiça", enfatizou.

A Polícia Militar informou à TV Gazeta que abrirá um procedimento apuratório para investigar a denúncia e também a conduta dos policiais envolvidos na ocorrência envolvendo o entregador.

JUSTIÇA HOMOLOGA PRISÃO EM FLAGRANTE, MAS CONCEDE LIBERDADE

O juiz Roberto Luiz Ferreira Santos, que presidiu a audiência de custódia, homologou a prisão em flagrante porque, segundo o magistrado, "não existem vícios formais ou materiais" na ação. No entanto, o juiz concedeu liberdade provisória ao entregador, sem pagamento de fiança, por entender que a soltura dele "não oferece risco à ordem econômica, à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal, considerando que possui residência fixa e ocupação lícita".

Assim, o juiz substituiu a prisão preventiva por outras medidas cautelares, como a proibição de sair de casa entre 20h e 6h e de deixar a Grande Vitória sem autorização prévia da Justiça.

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Com informações de Aurélio de Freitas, da TV Gazeta

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