Caos no SML de Colatina: pai ajuda na liberação do corpo do próprio filho

"Eu nunca pensei que ia ter que passar pela situação de tocar no corpo do meu filho em cima de um balcão, isso tudo para poder dar um velório e um enterro digno para ele", disse Gessé, o pai

Publicado em 17/02/2020 às 19h39
Atualizado em 18/02/2020 às 00h14
Serviço Médico Legal (SML) de Colatina . Crédito: Heriklis Douglas
Serviço Médico Legal (SML) de Colatina . Crédito: Heriklis Douglas

Perder um parente, um amigo, é um momento de dor para qualquer um. Imagine ter que esperar por horas para liberação do corpo antes do sepultamento. É o que aconteceu com algumas famílias no Serviço Médico Legal (SML) de Colatina, no Noroeste do Estado. Nesta segunda-feira (17), o local ficou sem água e ainda não tinha alguns funcionários, atrasando a liberação dos corpos. Parentes e amigos de alguns mortos precisaram colaborar com os trabalhos de liberação dos cadáveres para agilizar o processo.

Muitas famílias estavam esperando a liberação dos corpos na porta do SML, inclusive os parentes das quatro vítimas de um acidente em Pancas, no final da tarde deste domingo (16). Abalados eles não quiseram dar entrevista. 

O agente penitenciário Gessé Barcelos esperou por horas a liberação do corpo do filho. Cansado da demora, ele tomou uma atitude extrema, vestiu um uniforme do SML e resolveu ajudar no trabalho de liberação dos corpos. Emocionado, ele lamentou a situação de ter que passar por isso depois da dor de perder o seu filho mais novo.

Gessé

Pai que perdeu o filho e teve que ajudar no SML

"A gente não imagina perder um filho, a lei da vida é que os filhos enterrem os pais. Depois dessa dor ainda tenho que passar por isso, é preciso ser forte. Eu nunca pensei que ia ter que passar pela situação de tocar no corpo do meu filho em cima de um balcão, isso tudo para poder dar um velório e um enterro digno para ele"
Gessé Barcelos vestiu um uniforme do SML e resolveu ajudar na liberação dos corpos. Crédito: Heriklis Douglas
Gessé Barcelos vestiu um uniforme do SML e resolveu ajudar na liberação dos corpos. Crédito: Heriklis Douglas

Além de Gessé, o amigo de outro morto também estava ajudando nos trabalhos de liberação dos corpos  no SML de Colatina. Ele não quis dar entrevista, mas também lamentou a situação. 

O corpo do sobrinho da microempreendedora Elicassia Faria chegou ao SML na madrugada desta segunda-feira, e até o início da tarde ainda não tinha sido liberado.

Elicassia Faria

Microempreendedora

"Tem doze horas que nós estamos aguardando o corpo ser liberado, é uma situação muito dolorosa e angustiante que a família está enfrentando. Depois de tudo isso que nós passamos, como que vamos conseguir fazer um velório digno para ele ?"

A microempreendedora relatou ainda que a família conseguiu contato poucas vezes e não teve muitas informações sobre o motivo da demora ou previsões para a liberação do corpo.

Amigo de um morto ajuda na liberação de corpos no SML de Colatina. Crédito: Heriklis Douglas
Amigo de um morto ajuda na liberação de corpos no SML de Colatina. Crédito: Heriklis Douglas

Os problemas causados pela falta de funcionários são antigos. Em outubro e dezembro de 2019, o colunista Leonel Ximenes de A Gazeta mostrou que o SML do município, e de outras cidades do Estado, estava sem médico legista para atender a população.

O QUE DIZ A POLÍCIA CIVIL 

A polícia não informou quantos corpos estavam no SML aguardando para serem liberados nesta segunda-feira. Questionada sobre a  demora para liberação, a Polícia Civil informou que tem trabalhado conjuntamente com a Secretaria de Estado de Segurança Pública, no desenvolvimento de um projeto que vai padronizar os Serviços Regionais de Polícia, o que inclui o SML, dessa forma a Polícia Civil dará respostas mais rápidas à população do interior.

Sobre a falta de funcionários no SML, a Polícia Civil informou que está previsto um concurso com 173 vagas ofertadas, incluindo vagas para médico-legista e para auxiliar de perícia médico-legal.

Sobre a falta de água no SML de Colatina, a Polícia Civil informou que o problema foi um rompimento no cano de água, mas que foi rapidamente consertado, e segundo a nota da polícia não causou prejuízos nos atendimentos à população e na liberação de corpos.

O Serviço Colatinense de Saneamento Ambiental (Sanear), responsável pelo abastecimento no município, informou que a falta de água no SML foi causada por um problema na instalação do próprio prédio e que não afetou outros imóveis. O Sanear afirmou também que apesar de ser um problema interno, enviou uma equipe para auxiliar na manutenção do local.

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