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De remédio de piolho à cloroquina: a busca pela cura do coronavírus

Cientistas pelo mundo estão à procura da fórmula medicamentosa que possa curar as pessoas infectadas pelo Covid-19 e salvar vidas. Confira as apostas

Publicado em 21/04/2020 às 09h54
Atualizado em 21/04/2020 às 09h54
kit de diagnóstico para coronavírus
Kit de diagnóstico para coronavírus. Crédito: Bernardo Portella/Fiocruz

Detectado após as primeiras mortes na China, no final de 2019, o novo coronavírus vem assustando a população mundial, num ritmo acelerado de doentes e de mortes. Também começou  aí uma corrida de pesquisadores e cientistas das mais diversas áreas da saúde na tentativa de identificar um remédio que possa combater o vírus em uma pessoa infectada. Pelo planeta, diversas pesquisas têm sido testadas, como as que apontam remédio para piolho ou a famosa cloroquina.  Ainda entram nessa lista de estudos medicamentos para tratamento da AIDS e também plasma humano.

Coquetel para HIV e Ebola

Na Tailândia, pacientes apresentaram melhora 48 horas após serem tratados com uma combinação de medicamentos para HIV e altas doses do oseltamivir, usado no tratamento da gripe H1N1. O coquetel foi dado também a pacientes em estado grave, incluindo uma chinesa de 70 anos, da cidade de Wuhan, na China, epicentro do surto. Ela apresentou testes positivos para o vírus por dez dias e, 48 horas após o tratamento, o resultado deu negativo. Apesar da boa expectativa, médicos do Rajavithi Hospital, em Bangcoc, onde o tratamento foi feito, ainda não consideram a opção como cura e dizem ser preciso fazer mais estudos para definir se este é um tratamento-padrão.

Na capital Pequim, estão sendo feitos ensaios clínicos com remédio para ebola, Remdesivir. Um total de 892 pacientes infectados receberam alta após os testes, o tempo de permanência hospitalar variou de 5 a 20 dias. Pacientes só recebem alta depois que os sintomas desaparecem e após teste de ácido nucleico com resultado negativo duas vezes. Pacientes de Wuhan ainda permanecem no hospital de 10 a 12 dias após essas etapas. 

"É um novo vírus. Não há resposta terapêutica e algo tem de ser feito para não perder o doente. Quando vão fazer estudo clínico, pesquisadores comparam grupos que receberam o tratamento e os que não receberam. Essa situação (do coronavírus) é uma operação de guerra e as pessoas são obrigadas a fazer algo com o que têm nas mãos", explica Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto Emílio Ribas, de São Paulo.

Remédio contra piolho

Um remédio usado comumente contra parasitas, a ivermectina, poderia ser empregado com eficácia também no combate à Covid-19. Um estudo feito na Austrália, por pesquisadores da Universidade de Melbourne e do Hospital Royal Melbourne, in vitro mostrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus em 48 horas.

Cientistas estudam o novo coronavírus
Cientistas estudam medicamentos que podem combater o novo coronavírus. Crédito: Polina Tankilevitch/ Pexels

A ivermectina é usada tradicionalmente como um remédio contra parasitas, como piolhos, mas já foi testada também contra dengue, zika, e H1N1. "Nós descobrimos que uma única dose consegue, essencialmente, remover todo o RNA viral (da Covid-19) em 48 horas. Em 24 horas já há uma redução significativa", explicou Kylie Wagstaff, principal autora do estudo.

A especialista ressaltou, no entanto, que o estudo foi feito in vitro, com células. Testes em seres humanos ainda são necessários. "A ivermectina é um remédio muito usado e considerado seguro", disse. "Mas precisamos descobrir agora que dosagem seria mais eficaz em humanos. Este é o nosso próximo passo", completou.

Plasma

O Hemocentro do Rio (Hemorio) estuda o uso da técnica do chamado plasma convalescente no tratamento de pessoas com quadro grave de Covid-19. A ideia é usar o plasma (a parte do sangue que contém os anticorpos) de pacientes curados para transfusão aos doentes, estimulando o organismo a combater o vírus.

Essa técnica já foi usada nas epidemias de Ebola e H1N1 e surge como mais uma estratégia possível de tratamento para o novo coronavírus. O Hemorio já havia estudado a técnica em parceria com a Fiocruz e a Universidade de Pittsburgh, nos EUA, contra o vírus da dengue, obtendo resultados promissores.

exame de sangue
O Hemocentro do Rio (Hemorio) estuda o uso da técnica do chamado plasma convalescente. Crédito: Divulgação/ Ministério da Saúde

Cada bolsa de plasma coletada pode fornecer tratamento para até três pessoas. O plasma doado pelos pacientes curados ficará na unidade e será distribuído mediante solicitação dos hospitais que tratam casos graves do novo coronavírus, segundo o Hemorio. A expectativa é de que haja melhora da evolução da doença e redução da mortalidade nos pacientes que receberem a terapia, além de os riscos serem praticamente zero. 

Cloroquina ou Hidroxicloroquina

A cloroquina é um medicamento usado para tratar a malária e ganhou o noticiário brasileiro após ser citada pelo presidente Jair Bolsonaro como solução para tratar os pacientes infectados por coronavírus. Porém,  ainda não há dados concretos sobre o uso deste medicamento. 

"O amplo uso da hidroxicloroquina expõe alguns pacientes a danos raros, mas potencialmente fatais, incluindo reações adversas cutâneas graves, insuficiência hepática fulminante e arritmias ventriculares (principalmente quando prescritas com azitromicina)", afirma o artigo assinado pelo professor Robin Ferner, do Instituto de Ciências Clínicas da Universidade de Birmingham, e Jeffrey Aronson, do departamento de Ciências da Saúde da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

A publicação afirma que, apesar de protagonistas políticos como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defenderem que não há riscos na administração das substâncias, nenhuma droga medicamentosa pode ser considerada segura. O texto ainda destaca que casos de overdose pela cloroquina podem ser de difícil tratamento.

Cloroquina apresentou resultados promissores em dois estudos preliminares contra o coronavírus, mas ainda não há provas de sua eficácia
Cloroquina apresentou resultados promissores em dois estudos preliminares contra o coronavírus, mas ainda não há provas de sua eficácia. Crédito: Jukka Niittymaa/ Pixabay

"Mesmo medicamentos inicialmente apoiados por evidências de eficácia podem, mais tarde, se provar mais prejudiciais do que benéficos", afirmam os acadêmicos. "Precisamos de melhores ensaios clínicos controlados, randomizados e com alimentação adequada de cloroquina ou hidroxicloroquina", relata a publicação.

Segundo o artigo, atualmente há, pelo menos, 80 estudos sobre a administração da cloroquina, da hidroxicloroquina ou de ambos em andamento em todo o mundo, às vezes em combinação com outros medicamentos.

(Informações Agência Estado e  Folha Press)

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