Com o encolhimento da renda das famílias e a alta generalizada de preços, é natural procurar por produtos com um valor mais em conta. Isso acontece de forma ainda mais intensificada na área da alimentação, com cada vez mais pessoas buscando comprar em maior volume para poder pagar menos. Em meio a este cenário, o Espírito Santo passa hoje por um “boom” de atacarejos.
A palavra atacarejo surgiu da junção das palavras atacado e varejo, sendo este um resumo bastante preciso do que se encontra nesses estabelecimentos. Lá, o consumidor consegue adquirir unidades de produtos, mas também são vendidos fardos ou caixas de determinados itens, como acontece nos atacados.
Por conta dessas variações, geralmente há dois tipos de preço: um para um item único, e outro para acima de determinada quantidade de produtos, que tende a ser mais barato e, portanto, mais atrativo a quem busca economizar.
Virou febre - entenda por que o ES vive um boom de atacarejos
A ideia não é inteiramente nova e vem se popularizando no Brasil há, pelo menos, cinco anos. Contudo, diante da rápida escalada da inflação, em meio a uma grave crise econômica e social, a tendência é de que cada vez mais negócios com esse molde continuem a surgir.
NOVOS NEGÓCIOS
No Estado, não são poucos os atacarejos previstos ou criados nos últimos meses. Novas unidades estão surgindo com chegada de novas empresas e até mesmo a venda ou fusão de negócios já existentes em território capixaba.
No final do ano passado, o Grupo Coutinho, controlador das redes Extrabom, Atacado Vem e Extraplus, anunciou a aquisição de três novos atacarejos que pertenciam à rede Oba na Grande Vitória, sendo dois na Serra e um em Cariacica.
O grupo prevê ainda a abertura da sétime unidade do Atacado Vem no segundo semestre deste ano. A nova operação ficará localizada no bairro Jacaraípe, em Serra, e contará com mais de 3 mil m² de área de vendas, além de mais de 8 mil tipos de produtos.
Outra rede que está investindo neste formato de estabelecimento é o Carone, que prevê inaugurar duas novas unidades do Sempre Tem no final do primeiro semestre deste ano, conforme explicou o diretor-presidente do grupo, Willian Carone Júnior.
"Começamos a partir para o atacarejo há alguns anos. Não abandonamos os supermercados, o Carone está funcionando e vai crescer, mas achamos que o atacarejo é uma tendência não só a nível nacional, mas mundial. Em 2018, inauguramos o primeiro na Serra. A partir daí inauguramos em Guarapari, Linhares e Teixeira de Freitas (BA). E agora estamos com duas unidades em construção, uma em Jardim Camburi (Vitória) e outra em Campo Grande, no Trevo de Alto Lage, em Cariacica."
Além destas, o grupo prevê ainda uma nova unidade na Serra, que, segundo Carone, apenas depende da autorização da prefeitura para que as obras sejam iniciadas.
Outra edificação passando por obras é o prédio onde funcionava o antigo Walmart, em Vitória, que foi fechado em janeiro do ano passado e, em 2022, será ocupado pela marca Maxxi Atacado, empresa do Grupo Big, que recentemente foi comprado pelo Carrefour. As contratações para trabalhar no atacarejo, inclusive, já foram iniciadas.
O grupo mineiro DMA, que detém as marcas Epa Supermercados e Mineirão Atacarejo, por sua vez, anunciou, no final de 2021, a fusão com a rede de supermercados OK, criada no Espírito Santo. Com a incorporação, as unidades passaram a trabalhar em conjunto, como um único grupo.
Ainda neste cenário, a Assaí Atacadista, gigante do setor, anunciou a abertura de sua primeira unidade em Vitória em 2022. A expectativa é que sejam criados 500 empregos diretos e indiretos para trabalhar no atacarejo.
FATURAMENTO MAIOR E NOVOS HÁBITOS DE CONSUMO IMPULSIONOU ATACAREJOS
O superintendente da Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), Hélio Schneider, observa que esse movimento de crescimento dos atacarejos já era esperado diante do enfraquecimento da economia do país.
“Não só aqui no Espírito Santo, mas no Brasil de um modo geral, os atacarejos vêm se proliferando com uma velocidade bastante expressiva. Quando a economia do consumo está mais forte, mais pujante, o consumidor prefere pagar um pouco mais caro por uma gama de serviços mais ampla, grande variedade de produtos. Mas quando a economia está defasada, o consumidor compra pelo preço.”
Schneider observa que trata-se de um novo formato que, todavia, não é o único que vêm se popularizando conforme mudam os hábitos do consumidor. Lojas de conveniência e lojas de bairro em sistema express também têm ganhado espaço.
"O supermercadista, de um modo geral, procura estudar muito o comportamento do consumidor e quando percebe que o público está aderindo a determinado tipo de negócio, ele entra [nesse ramo]. Mas isso não quer dizer que esse movimento será revertido amanhã ou depois
"
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Lino Sepulcri, reforça que os atacarejos beneficiam ainda não apenas o consumidor comum, como pequenas mercearias e negócios similares, que abastecem suas prateleiras com produtos muitas vezes comprados nestes locais.
“É o tipo de negócio que vêm se fortalecendo. O atacarejo foi um descobrimento dos próprios supermercadistas de uma forma de fazer ofertas para venda em volume, que despertou a atenção não somente do consumidor, mas também de mercearias e supermercados menores de bairros mais pobres, e com a pandemia, houve um impulso maior.”
Sepulcri lembra que as vendas do varejo, segmento que congrega a grande maioria dos supermercados, foram alavancadas durante o período de isolamento social, em que as famílias passaram a cozinhar e consumir mais. Com isto, o faturamento dos supermercados também cresceu, o que tem permitido que mais grupos invistam na expansão de suas redes e na abertura desses novos empreendimentos.
“Há grandes redes fazendo expansão, comprando lojas menores, abrindo novas lojas. E também vão surgindo novas mercearias. E tudo isso beneficia o consumidor, que passa a ter cada vez mais opções.”