Repórter de Economia / [email protected]
Publicado em 9 de setembro de 2021 às 15:54
Apontado como uma das principais "cabeças" por trás das paralisações de caminhoneiros realizadas desde o dia 7 em 14 Estados do país, inclusive no Espírito Santo, o caminhoneiro bolsonarista Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, foi localizado pela Polícia Federal escondido em um hotel no México e deve ser preso ainda nesta quinta-feira (9) para então ser transportado de volta ao Brasil.>
Ele está foragido há seis dias. A informação foi confirmada por ele mesmo, em um vídeo postado no TikTok no início da tarde desta quinta em que Zé Trovão promete se entregar.>
“Em alguns momentos eu devo ser preso. Eu não vou mais fugir, chega, eu estou cansado disso. Para quem não sabe, eu estou no México e a embaixada brasileira acaba de entrar em contato com o hotel que eu estou. Então, em alguns momentos, provavelmente a polícia vem aqui me recolher e vai me levar preso. Eu não cometi nenhum crime, eu estou indo para o Brasil, provavelmente preso, preso politicamente, por crime de opinião”, disse.>
Minutos depois, o caminhoneiro postou uma segunda gravação, convocando os caminhoneiros a manterem as paralisações nas estradas e dizendo que os atos não são motivados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e sim em defesa da liberdade. Ainda assim, disse que a categoria não cumprirá ordem que não tenham vindo do chefe do Planalto.>
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“Nós não vamos cumprir ordem que não venha do presidente da República. Não vamos. Nós estamos aqui para lutar por uma bandeira que é verde, amarela, azul e branca. A nossa pauta é o impeachment dos ministros (do Supremo Tribunal Federal). Se vira. Eu não sei o que vai ter que acontecer aí não, mas o pau vai continuar torando (sic) porque nós estamos fazendo tudo democraticamente, dentro da ordem, dentro da justiça. Vamos para cima, gente, não desistam. Povo brasileiro, vamos pra cima das pistas.”>
O caminhoneiro Zé Trovão é dono do canal no Youtube "Zé Trovão a voz das estradas", que tem mais de 40 mil inscritos. Em seus vídeos e postagens nas redes sociais, chamava a população para ir a Brasília e exigia a "exoneração dos 11 ministros do STF".>
Em outros vídeos, fez ataques à CPI da Covid, no Senado, além de ter participado de "motociatas" em favor de Bolsonaro. No último dia 29, o caminhoneiro se tornou um dos alvos da investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR). >
Os investigadores da Polícia Federal vinham rastreando o paradeiro de Zé Trovão desde a semana passada, quando a PGR solicitou e o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou sua prisão após incitar atos antidemocráticos em 7 de setembro.>
Mesmo sendo procurado, o caminhoneiro continuou gravando vídeos e incentivando as manifestações, além de ter ido às redes sociais incitar outros caminhoneiros a bloquearem rodovias e a "fecharem tudo". >
Os protestos, que se espalham pelo país há dois dias, chegaram a tomar 14 Estados brasileiros, inclusive o Espírito Santo, onde somente na manhã desta quinta (9) foram contidos. >
Embora o fluxo nas rodovias federais estivesse liberado para carros, ônibus e outros veículos, os caminhões que chegavam nesses pontos ficavam impedidos de seguir viagem, o que ocasionou, entre outros transtornos, escassez de combustível em municípios do interior do Estado.>
Diferente do que ocorreu em 2018, desta vez, as manifestações não foram comandadas por tradicionais entidades e lideranças de caminhoneiros, que repudiaram o movimento. A paralisação vinha sendo organizada, sobretudo, em grupos de WhatsApp, por autônomos que são membros da ala radical do bolsonarismo. >
Em vídeos divulgados nas redes sociais, caminhoneiros autônomos disseram apoiar pautas de Bolsonaro e atribuíram o aumento dos combustíveis aos governadores, além de fazerem ataques ao STF.>
Na visão do economista Felipe Storch Damasceno, um dos motivos para que a paralisação não tenha se agravado, chegando a níveis semelhantes à greve observada há três anos, é justamente a ausência de uma demanda que una toda a categoria.>
“Uma paralisação mais duradoura arrasaria tudo novamente. O movimento dos caminhoneiros é descentralizado, não tem uma liderança única. Agora, não houve uma adesão tão grande por conta disso, dessas demandas divergentes. Mas é uma categoria muito forte, tem um peso grande.”>
Ele pondera que o governo demonstrou não querer bater de frente com o movimento, mas, à sua maneira, interviu para tentar não gerar um transtorno pior mais à frente, principalmente em um momento em que a economia já está amplamente fragilizada, com alta da inflação e das taxas de juros. >
Na noite desta quarta (8), o presidente Bolsonaro chegou a divulgar um áudio dizendo que bloqueios atrapalham economia e pedindo para que os caminhoneiros liberassem vias. A veracidade do áudio foi confirmada por dois ministros do governo, conforme apurou a Folha de S. Paulo. A ação desagradou aos caminhoneiros, que disseram querer respostas do presidente.>
“Isso foi feito, de algum jeito, e está acabando. Mas, houve ameaças de greves anteriores e se demorou a tentar conter (essa) porque era uma manifestação de apoio a Bolsonaro, não posso afirmar", refletiu Damasceno.>
Em boletim divulgado às 14h30 horas desta quinta (9), o Ministério da Infraestrutura, com base em informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), informou que são registrados pontos de concentração em rodovias federais de 13 estados, mas sem registros de interdições.>
Segundo apuração do Estadão, entidades que tradicionalmente representam esses trabalhadores como a Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL), a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) e a Associação Nacional de Transporte do Brasil (ANTB) informaram que não apoiaram o movimento e que não participaram dos atos.>
A Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) repudiou os atos, e declarou, por meio de nota, que “trata-se de movimento de natureza política e dissociado até mesmo das bandeiras e reivindicações da própria categoria, tanto que não tem o apoio da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos.”>
A entidade reforçou que a ação poderia causar sérios transtornos à atividade de transporte realizada pelas empresas, com graves consequências para o abastecimento de estabelecimentos de produção e comércio, atingindo diretamente o consumidor final, de produtos de todas as naturezas inclusive os de primeira necessidade da população como alimentos, medicamentos, combustíveis, entre outros.>
A preocupação, afinal, é fundamentada. Em maio de 2018, caminhoneiros de todo o país paralisaram as atividades por vários dias, trazendo um prejuízo incalculável, com morte de animais por falta de comida, impedimento à chegada de insumos, que deixou diversos produtos em falta, inclusive no Estado. Viagens foram canceladas por falta de combustível e até as atividades de alguns portos foram paralisadas após caminhoneiros bloquearem as estradas de acesso.>
Na ocasião, os caminhoneiros fizeram manifestações em 22 estados e no Distrito Federal, em protesto contra a disparada do preço do diesel, que faz parte da política de preços da Petrobras, em vigor desde julho de 2017.>
À Folha de S. Paulo, Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública do governo de Michel Temer (MDB), que lidou de perto com a greve de 2018, afirmou que, agora, "o líder é o presidente da República", apontando para o fato de que foi Jair Bolsonaro quem convocou a categoria a integrar os atos golpistas em favor de seu governo no feriado do 7 de Setembro.>
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