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PIX deve mudar vendas no débito, mas afetar pouco o cartão de crédito

Empresa especializada de maquininhas de cartão não vê o novo sistema de transações instantâneas como concorrente direto e acredita que ele vai melhorar o mercado de pagamentos e ampliar as transações digitais

Publicado em 27/09/2020 às 12h11
Pedro Coutinho, CEO da GetNet
Pedro Coutinho, CEO da GetNet. Crédito: Getnet/Divulgação

Uma verdadeira revolução nos modos de pagamento começará a partir da próxima segunda (5), data em que se inicia o cadastro para o PIX, novo sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central e que permitirá concluir transações em segundos, em qualquer horário ou dia da semana. A novidade deve impactar os tradicionais meios de pagamento, no entanto, não tem sido vista como uma ameaça para o setor.

Uma das principais formas de pagamento no Brasil hoje, o cartão de crédito, por exemplo, não deve ser afetado e tende a seguir em crescimento mesmo com a nova facilidade. A avaliação é do especialista em mercado financeiro Pedro Coutinho, que é CEO da GetNet, empresa de tecnologia em meios de pagamento do grupo Santander que detém cerca de 14% do mercado de maquininhas de cartão do país. 

Para ele, o PIX vai ser uma "revolução para o consumidor final" que vai trazer mais eficiência e rapidez e, inegavelmente, mudar a forma do brasileiro se relacionar com o dinheiro, deixando muitos hábitos para trás. Um exemplo são as transações realizadas com dinheiro vivo e e até pelo cartão de débito, que, na visão do executivo, tendem a ser reduzidas.

"Hoje, 40% dos gastos de dinheiro de uma família são por cartões, 40% em dinheiro e 20% pagando boletos e contas. O volume de moeda andando na economia é muito grande ainda e isso é ruim. O Banco Central, por exemplo, tem uma grande despesa para repor dinheiro na economia. Então o PIX deve reduzir esse uso de moeda e receber transações de pagamento de boletos. Já para as empresas de pagamento, o que pode ser afetado são os cartões de débito", afirmou.

Em conversa com A Gazeta, Coutinho explicou que tudo vai depender da experiência do cliente. "Essa mudança virá de acordo com a experiência que os clientes podem ter e que eles querem ter. Na Espanha, por exemplo, para o cliente é muito mais simples encostar o celular ou cartão para pagar do que abrir um celular, ler o QR Code ou passar o cartão e digitar a senha. A depender da aderência que tivermos, parte do [transacionado no] débito deve acabar migrando para o PIX".

A demanda por cartão de crédito não deve ser afetada por um motivo simples: "As pessoas precisam de crédito", diz. "Isso não deve migrar em nada para o PIX, porque lá não vai oferecer essa opção. Hoje, 65% do que é transacionado por meios digitais são por cartões de crédito. Isso não deve se alterar".

Com isso, ele avalia que as empresas de pagamentos não tendem a ser muito afetadas ou ter concorrência com o novo meio. Se por um lado as transações nos cartões de débito podem diminuir, por outro também abre-se uma janela de oportunidades para o segmento, que já se movimenta para receber transações via PIX pelas maquininhas e nas lojas virtuais.

Pedro Coutinho

CEO da GetNet

"Não vai [ser um concorrente]. Ele vem para melhorar o serviço. Temos vários estudos feitos por consultorias que mostram que o PIX deve trazer um crescimento importante nas transações digitais. E as empresas já estão se preparando para isso, para poder aceitar o PIX nas maquininhas, no e-commerce"

Apesar do PIX e de outras novas tecnologias de pagamentos que vêm ganhando força no país, como carteiras digitais e pagamentos pelo celular, o CEO da Getnet avalia que nem o dinheiro vivo nem os cartões irão deixar de existir.

"Não acredito que o cartão [vá cair em desuso]. Vai continuar existindo, assim como o dinheiro. O e-commerce tem crescido muito e vai crescer ainda mais, por exemplo, e a maioria das compras digitais é por cartão. Então, não vai ser uma coisa nem outra, vai existir um conjunto de opções que o cliente vai escolher dependendo da experiência dele".

CONCORRÊNCIA NO SETOR DE PAGAMENTOS REDUZIU CUSTOS

A guerra entre empresas de pagamento vista nos últimos anos no país vem fazendo o custo das maquininhas, em geral, cair no país desde 2010, segundo Pedro Coutinho. "Preço era problema há 30 anos. Hoje, não é mais. Para boa parte dos perfis de clientes, atualmente, esse custo não é mais o grande problema como foi no passado. Aqui na Getnet, por exemplo, para os pequenos e médios clientes temos o modelo 2/2, que é uma taxa única de 2% e você recebe em dois dias", disse.

De três anos para cá, segundo ele, o setor se transformou, sobretudo do ponto de vista de custos. "Mudou muito pela concorrência em primeiro lugar. Mas também pela eficiência maior que as empresas passaram a ter, e também pelo regulador, que sempre estimula a concorrência fazendo as empresas serem mais eficientes."

TERMÔMETRO DE RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA

Um dos termômetros para medir a atividade econômica, o volume de vendas em máquinas de cartão no varejo já demonstra reação no país, passada a fase mais aguda do isolamento social diante da pandemia do coronavírus. Segundo Coutinho, o Índice do Departamento Econômico do Santander (IGet), que é medido a partir de vendas nas maquininhas da Getnet, teve crescimento mensal de 28,2% em agosto no país, com o varejo já operando em níveis pré-crise. 

No Espírito Santo, o crescimento das vendas foi de 21,2% no mês passado, sendo a terceira maior alta entre os Estados do país, também segundo os dados do IGet. Para Coutinho, até o final do ano a economia vai seguir se recuperando aos poucos, mas 2021 preocupa.

"A gente já está voltando aos números pré-pandemia. Isso não significa que todos os segmentos voltaram. Olhando para frente, ainda temos o pagamento do auxílio emergencial até dezembro, por exemplo, que está injetando muito dinheiro na economia. Então, até o final do ano a economia vai girar bem, mas temos que ver como vai ficar o primeiro trimestre do ano que vem. Precisamos de uma agenda de sair do auxílio e entrar nas reformas, para que não haja aumento do desemprego", analisou.

Trabalho de economista além de análises de mercado
Números de compras com cartões já começam a melhorar. Crédito: Pixabay

A avaliação do executivo é que, na pandemia, o setor deu sua parcela de contribuição com soluções para reduzir o custo para empreendedores. O impacto causado pela crise de saúde no segmento também foi menor do que se esperava. 

"A gente acreditava que a indústria de meios de pagamentos iria crescer 3% neste ano, o que é bem menos do que em anos anteriores, que vinhamos crescendo dois dígitos ao ano. Mas estamos recuperando e devemos fechar o ano com crescimento de 6%, nos levando a ser uma indústria de quase R$ 2 trilhões no Brasil".

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