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Covid-19: Grande Vitória tem RT abaixo de 1 e especialistas apontam controle

A taxa mede a velocidade que o vírus se espalha na população; a notícia é boa, mas não é momento para relaxar, pelo contrário, segundo especialistas  é preciso manter os cuidados para garantir uma redução efetiva de contaminados

Publicado em 17/07/2020 às 17h59
Atualizado em 17/07/2020 às 20h04
Imagem do coronavírus no ambiente
Imagem do coronavírus no ambiente. Crédito: Freepik

Apesar de não ser momento de comemorar e “partir para o abraço”, especialistas do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (Niee) no Estado já apontam que a Grande Vitória atingiu a fase de estabilização da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. De acordo com os estudiosos, o indicador chamado de taxa de transmissão (cálculo que mede a velocidade em que o vírus se dissemina na população) vem caindo e, embora seja divulgado com algum atraso, já aponta número menor que 1 para a semana dos dias 3 a 10 de julho. Isso significa que um grupo de 10 pessoas contaminadas pode potencialmente infectar, em média, menos de 10 pessoas. 

A pós-doutora em Epidemiologia, professora da Ufes e consultora da Organização Mundial de Saúde (OMS), Ethel Maciel,  explica que "A taxa de contaminação do vírus é a taxa que mede um número de novas pessoas contaminadas por cada pessoa infectada. Quando você tem uma pessoa infectada, para quantas pessoas ela transmite. Se você tem uma taxa de contaminação, como era no início, de aproximadamente 3, uma pessoa transmitia para 3, que transmitia para 9 e assim vai crescendo exponencialmente. Para ficar mais fácil, a gente coloca de 10 em 10. 10 pessoas transmitiam para 30, que transmitiam para 90, exponencialmente, ou seja, crescia muito rápido. Então fizemos distanciamento, máscara, uso do álcool em gel, fechamento de escolas, para diminuir essa taxa, essa velocidade. Agora estamos abaixo de 1, que é como se uma pessoa transmitisse para outra, 10 para 10, vai multiplicando por um, desacelerando a contaminação".

Segundo Etereldes Gonçalves Junior, professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e Membro do Niee, do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), a taxa de transmissão até o dia 3 de julho, embora ligeiramente superior, estava muito próxima de 1. “A taxa de 3 de julho está bem próxima de 1,02 e as avaliações de 3 a 10 de julho já estão bem abaixo de 1. Mas como ainda deve sofrer alteração para cima, sabemos que ficará em torno de 0,9 ou 0,8. A gente sabe que estamos na fase de recuperação, com o indicador abaixo de 1 na Região Metropolitana, só não podemos cravar ainda o valor”, afirmou.

No mesmo sentido, o estudioso explicou que esta taxa indica a velocidade de crescimento dos casos confirmados. “Quando ela está em 1 significa que a curva de casos aumenta linearmente e não exponencialmente, o que aconteceria se fosse maior que 1. Todos os países que já passaram pela fase mais aguda da doença passaram pela taxa que estamos agora. Então, por exemplo, a Alemanha é um destes casos e eles monitoram bem de perto esta taxa”.

“TEMOS MAIS RECUPERADOS QUE CASOS ATIVOS”, DIZ ESPECIALISTA

Já o Diretor Presidente do IJSN, Pablo Lira, em entrevista ao programa Bom Dia ES, da TV Gazeta, nesta sexta-feira (17), explicou que são considerados os dados das pessoas que se encontram no período ativo da doença para monitorar a pandemia. “Este período vai do primeiro sintoma que a pessoa que foi diagnosticada pelo exame PCR teve e se estende a uma janela de 14 dias, a chamada janela de transmissão. A esses 14 dias, de forma conservadora, acrescentam-se mais 4 dias, ou seja, 18 dias em que a pessoa pode potencialmente transmitir o vírus. 68% das pessoas contaminadas já se recuperaram da doença, ou seja, temos mais recuperados do que ativos”.

Pablo Lira

Diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves

"As pessoas que se recuperaram têm alguma imunidade, bloqueando a transmissão da doença na população. No início da pandemia, a proporção de ativos era superior aos recuperados. Por conta das medidas adotadas, como suspensão das aulas, restrição de atividades e uso de máscaras, contribuímos para desacelerar o crescimento de casos ativos"

PICO DE CASOS CONFIRMADOS DA COVID-19 NO DIA 10 DE JUNHO NA GRANDE VITÓRIA

Também de acordo com Lira, na Grande Vitória o pico de casos da Covid-19 foi atingido no dia 10 de junho e desde então, a partir do dia 11, vem caindo. “No interior, no entanto, ainda estamos com crescimento dos casos ativos, mas está desacelerando. Estes dados demonstram que devemos continuar o trabalho que vem sendo feito, para que a gente alcance a estabilização e redução no interior e para que de fato o número de casos ativos no Espírito Santo comece a reduzir, como aconteceu na região metropolitana”, frisou.

Segundo o pesquisador, a taxa consolidada mais atualizada de contágio, que corresponde até o dia 3 de julho, está pouco acima de 1, em que, naquele momento, cada 10 indivíduos poderiam transmitir o vírus para uma média de 11 pessoas. “Na Grande Vitória este número era ainda menor até 3 de julho, o que significa dizer que aqui alcançamos a estabilização e a redução da taxa de transmissão. É importante observar se vai permanecer assim pelas próximas três semanas. Olhando o conjunto de indicadores, a tendência é que se confirme a redução. No interior a taxa estava 1,3, mas a tendência nas próximas semanas é que passe a estabilizar e reduza, como na Grande Vitória. Destacamos a importância do engajamento na responsabilidade compartilhada, com distanciamento social”.

CONJUNTO DE INDICADORES

Para Etereldes Gonçalves Junior, além da taxa de transmissão da doença, há outros indicadores a serem analisados. “Este não é o único indicador que a gente utiliza para fazer a inferência e saber se estamos na fase de recuperação. Olhamos também a média móvel de óbitos, os casos ativos da região metropolitana e a pressão por leitos, que são outros indicadores importantes para saber se está caindo ou não os casos ativos. Olhamos para vários indicadores e, quando todos convergem para uma mesma informação, então a gente acredita que essa informação já consolida o fato”, comentou.

Na Grande Vitória, o pesquisador explica que de fato há convergência entre os indicadores, em especial nos quatro maiores municípios. “Para exemplificar a importância da pressão por leitos, às vezes os casos aumentam, mas isso não impacta na internação. Um município como Vitória fez ‘drive thru’ de testagem, o que vai elevar o número de casos, mas não vai impactar no sistema de saúde. Por vezes, olhar um indicador só, pode falsear a informação”, acrescentou.

O MOMENTO AINDA NÃO PERMITE AGLOMERAÇÕES

De acordo com Ethel Maciel, a sociedade capixaba caminha para o controle do número de casos da Covid-19. “Estamos caminhando, não podemos dizer que a doença está controlada, até porque também há o interior. Temos dois momentos diferentes da pandemia. E qualquer movimento que façamos agora, ampliando a aglomeração, pode fazer com que percamos isso, ainda temos muitos casos e mortes. Estamos estabilizando ainda com muitos casos e muitas mortes”, destacou.

Para ela, o índice de ocupação de leitos, que foi registrado em patamar inferior aos 80%, é também uma notícia boa. “Fazia um tempo que não abaixava dos 80%. São indicativos de que estamos caminhando para a diminuição dos casos, mas não podemos perder a cautela. Não é momento para relaxar, devemos manter as medidas, o distanciamento, a máscara. E nós vamos acompanhar semanalmente, ainda é muito incerto. Ainda há muita gente, pelos dados do inquérito, que pode se contaminar, podemos ter novas ondas de pessoas infectadas. É importante manter as medidas até termos uma redução efetiva de contaminados”, relatou.

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