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Sem Censo do IBGE, índices de educação do ES podem sofrer apagão

Especialistas em Educação alertam que a medida pode provocar um apagão na gestão e definição de políticas públicas e sociais voltadas ao ambiente escolar brasileiro

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 29/04/2021 às 11h19
Profissionais serão contratados para o Censo 2020 (Lícia Rubinstein/Agência IBGE Notícias)
O Censo 2021 foi suspenso pelo governo federal . Crédito: Lícia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

Alegando falta de recursos financeiros, o governo federal suspendeu a realização do Censo Demográfico 2021, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Especialistas em Educação alertam que a medida pode provocar um apagão na gestão e definição de políticas públicas e sociais voltadas ao ambiente escolar brasileiro.

O Censo é uma pesquisa realizada a cada 10 anos pelo IBGE. O levantamento faz uma ampla coleta de dados sobre a população brasileira e permite traçar um perfil socioeconômico do país. Sem a pesquisa e os dados revelados pelo levantamento, a educação do Espírito Santo pode ficar estagnada por uma década.

Conforme explicou Waldery Rodrigues, entãosecretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, durante entrevista coletiva nesta terça-feira (28), não há previsão orçamentária para o Censo.

Waldery Rodrigues

Secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia

"Portanto, ele não se realizará em 2021. As consequências e gestão para um novo Censo serão comunicadas ao longo deste ano, em particular, a partir das decisões tomadas na junta de decisões orçamentárias"

Na avaliação do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, o Censo é uma ferramenta que oferece uma radiografia da realidade brasileira. Ele acredita que, sem as informações disponibilizadas a partir do levantamento, prejudicam o órgão estadual na tomada de decisões orientadas por evidências atualizadas sobre o cenário local e nacional.

“Embora seja de 10 em 10 anos, o Censo é bastante profundo e detalhado. Se ele é simplesmente cancelado, sem previsão de acontecer, nos deixa numa situação de incerteza. Teríamos aí um país sem previsão de ter um estudo detalhado com informações fidedignas sobre a sociedade, do ponto de vista de qualquer política pública”, avalia Vitor.

IMPASSE

O assunto já é motivo de impasse entre os poderes constituídos. Na tarde desta quarta-feira (28), o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o governo federal tome as providências necessárias para realizar o Censo. A corte atendeu ao pedido formulado pelo governo estadual de Maranhão.

Os recursos para a pesquisa, que inicialmente eram de R$ 2 bilhões, foram reduzidos para cerca de R$ 50 milhões. Esse é o valor que sobrou para o IBGE realizar estudos e preparar a pesquisa.

Marco Aurélio, porém, afirmou que a União e o IBGE, "ao deixarem de realizar o estudo no corrente ano, em razão de corte de verbas, descumpriram o dever específico de organizar e manter os serviços oficiais de estatística e geografia de alcance nacional".

Ele complementou dizendo que "no caso, cabe ao Supremo, presentes o acesso ao Judiciário, a aplicabilidade imediata dos direitos fundamentais e a omissão dos réus, impor a adoção de providências a viabilizarem a pesquisa demográfica".

Ministro do STF Marco Aurélio Mello
Ministro Marco Aurélio, do STF, determinou que governo faça o Censo Demográfico. Crédito: Felipe Sampaio/SCO/STF

PREJUÍZOS

A falta dos dados que seriam revelados pelo Censo pode prejudicar a distribuição dos recursos financeiros destinados à educação dos estados e municípios brasileiros, além de afetar a definição de políticas públicas e sociais capazes de atingir o público mais afetado pelas desigualdades que assombram a população brasileira.

Eliza Bartolozzi Ferreira

Pós-doutora em Educação

"Vivemos um apagão. É uma falta de responsabilidade enorme de um governo que não tem estratégias adequadas de realizar a gestão de um país que é baseada no planejamento. Como vou distribuir recursos financeiros, como vou estabelecer políticas públicas, políticas educacionais se eu não tenho um diagnóstico da realidade educacional do país?"

A avaliação é da pós-doutora e professora do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Eliza Bartolozzi Ferreira. Para ela, as características da pesquisa garantiriam que uma parcela significativa da população seria ouvida, diferente das pesquisas por base amostral, com uma parcela da população.

  • Uma função do Censo é mapear os índices de analfabetismo, indicando quantas pessoas não sabem ler em cada bairro, cidade ou estado, por exemplo.

  • É capaz de apresentar dados sobre escolaridade e mostrar, por idade, o número de pessoas que não concluíram os estudos.

  • Além disso, poderia apontar a evasão escolar ou o número de crianças fora da escola, indicando a demanda de vagas por creches.

“Ainda não temos dados concretos, mas sobretudo agora com a pandemia, recebemos informações de que cerca de 30% a 40% dos jovens que estavam estudando no ensino médio abandonaram a escola. Tanto no cenário nacional quanto no Espírito Santo. Não sabemos ainda na etapa da educação básica”, revelou.

ALTERNATIVA PARA OBTENÇÃO DE DADOS

Se confirmada a não realização do Censo Demográfico 2021, uma alternativa seria adequação da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), do IBGE, no campo da Educação. A sugestão é da professora da Ufes e doutora em Educação, Cleonara Maria Schwartz.

Ela defende que, mesmo sendo amostral e realizada em um intervalo inferior a 10 anos, com a adoção de metodologias compostas a partir das amostras, os dados observados na PNAD podem auxiliar na tomada de decisões.

"A partir do Censo é possível termos um panorama ampliado das condições de vida  - sociais, econômicas, educacionais - da população. É importante, no campo da educação, ter acesso a informações como quantos domicílios possuem determinada infraestrutura, com relação à tecnologia, quantos são alfabetizados ou quantos estão estudando. Sem ele, há prejuízo".

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