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Publicado em 2 de novembro de 2021 às 08:11
A pandemia causada pela Covid-19 trouxe mudanças, em maior ou menor medida, na vida de toda a sociedade, que aos poucos começa a retomada da vida social e dos reencontros com pessoas queridas. Mas, para milhares de pessoas, as marcas dessas transformações impostas há quase dois anos serão ainda mais difíceis de curar. São familiares e amigos dos 12.922 mortos pela doença no Espírito Santo, que relatam a dor e a saudade por tantas perdas, sentidas ainda mais nesse 2 de novembro, Dia de Finados. >
É o caso da Débora Pereira dos Santos, de 45 anos, que sente a dor pela morte da mãe Almiracy Pereira, de 64 anos. Ela relembra, com saudade, que a mãe era uma mulher alegre, gostava de viajar e de reunir a família em volta da churrasqueira e da piscina, preparadas especialmente na casa para receber seus três filhos e seis netos, sempre em clima de festa e muito amor.>
Débora Pereira dos Santos
Filha de uma das 12.919 vítimas da Covid-19
Mas a dor da família não para por aí, pois eles sentem ainda a morte do primo, Cristiano Vilaça, de 41 anos, que morreu devido às complicações pela Covid-19 apenas quinze dias antes da morte de Almiracy, em 21 de março. Ele era caminhoneiro, casado e pai amoroso de dois filhos, deixando ainda só saudades para a pequena netinha Kiara, de dois anos. Foram duas perdas seguidas para a família, que vai passar o primeiro Dia de Finados após as mortes de Almiracy e Cristiano.>
Outra família transformada para sempre pela pandemia é a da Valéria Lima de Araújo, que perdeu o marido no dia 28 de junho do ano passado. O mecânico industrial Luiz Moreira, 62 anos, deixou nove filhos, sendo seis do primeiro casamento e três com Valéria: o jovem Vanderson, de 25 anos, e os gêmeos Lorenzo e Evellyn, de 13 anos.>
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Valéria Lima de Araújo
Perdeu o marido vítima de Covid-19Os gêmeos tiveram atendimento de psicólogos, que os ajudaram a terem forças para lidar com a morte repentina e prematura do pai, além de buscarem amparo na religião. Hoje os dois têm menos medo de saírem de casa, algo que não faziam antes.>
“Evitávamos ver notícias sobre mortes de Covid, para não lembrarmos da própria perda que tivemos. Mas tudo lembrava ao Luiz, que montou toda a casa, cada tijolo. Ele era uma pessoa maravilhosa, que só deixou boas lembranças. Sempre pensamos em como Luiz gostaria que ficássemos bem, é o que nos dá força”, diz Valéria, que vai com os gêmeos visitar o túmulo do marido nesta terça. >
Além da saudade, Valéria tem ainda a sensação de que o marido foi antes da hora. “Tinha muito ainda o que viver. Teve a vida interrompida por esta doença”, lamenta.>
Para o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, é também lamentável o número de mortos em decorrência da Covid-19 no Espírito Santo, mas destacou que a doença jamais foi subestimada ou tratada como algo menor por ele e sua equipe, e que sempre prevaleceu o temor de que famílias perdessem seus entes queridos. >
“No período antes da vacina, montamos uma estratégia de distanciamento para mitigar o alastramento da doença. Infelizmente não conseguimos envolver todas as camadas da sociedade, mas conseguimos reduzir e muito os impactos, pois poderíamos ter chegado a 25 a 30 mil mortos. Nada, no entanto, vai tirar a dor e o abalo dos familiares das 12.922 pessoas que morreram. Essas perdas não podem ser naturalizadas”, ressaltou Nésio.>
Ele frisou ainda que garantir a imunização beneficia a coletividade. “Às pessoas que não se beneficiaram da vacina ou não ficaram protegidas suficientemente a ponto de evoluírem a óbito, nossa homenagem é que possamos nos vacinar e tomar as medidas necessárias de cuidados na pandemia.">
Durante a entrevista, Nésio Fernandes se emocionou ao lembrar dos momentos mais difíceis da pandemia. “Lembro e fico consternado quando chegamos a perder até 80 pessoas por dia. É triste, como seres humanos, como profissionais da saúde que somos, em especial neste Dia de Finados, quando lembramos das almas dessas pessoas. Que seja também um momento para refletirmos e lembrarmos que, mesmo com a retomada, em memória de todos eles, possamos aprender e não cometer os mesmos erros no futuro", finalizou o secretário. >
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