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Janeiro violento

Presença de facção faz número de assassinatos disparar em Cariacica

Segundo investigações da polícia, presença de uma facção criminosa está por trás do aumento de assassinatos no município. Só em janeiro, foram 19 mortes violentas

Publicado em 31 de Janeiro de 2021 às 20:35

Glacieri Carraretto

Publicado em 

31 jan 2021 às 20:35
Homem foi morto a tiros em Rio Marinho, Cariacica
Homem foi morto a tiros em Rio Marinho, Cariacica Crédito: Internauta | A Gazeta
A presença de uma facção criminosa, com base em Vitória, em bairros de Cariacica, está por trás do aumento de assassinatos no município. O mês de janeiro chega ao fim com um número de mortes violentas três vezes maior que a registrada no mesmo período do ano passado. 
Foram 19 assassinatos este mês em Cariacica contra 6 em janeiro de 2020. Em contrapartida, cidades como Serra e Vila Velha apresentaram uma redução considerável. Veja os números:  
Vale lembrar, ainda, que Cariacica foi uma das cinco cidades do país a receber o Projeto Em Frente Brasil, de agosto de 2019, contando com 80 militares da Força Nacional atuando no município e um investimento de R$ 200 milhões do Governo federal.  
Para a Polícia Civil, o crescimento abrupto de homicídios em Cariacica se explica, em boa parte, por guerras entre gangues de traficantes. Porém, algo se diferencia em três zonas de conflitos onde há a participação do Primeiro Comando da Vitória (PCV), facção criminosa que tem como base traficantes do Bairro da Penha, em Vitória, e adjacências. 
"Há três áreas conflagradas onde já ocorria o comércio de entorpecentes em Cariacica.  No entanto, em cada situação, agora, uma das partes envolvidas fez alianças com o PCV para tomar o território do rival", explicou Romualdo Gianordoli Neto, delegado-chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). 

 ARMAS E HOMENS

Uma das áreas de conflito apontada pela Polícia Civil é a região do Morro do Quiabo, parte alta do bairro Porto Novo, que está em  atrito com Flexal. 
"A rivalidade já existe. No entanto, a presença do grupo de Vitória em apoio aos traficantes de Flexal tem dado força, através de armas e pessoas, para tomar bocas de fumo da região de Morro do Quiabo. Geralmente, um traficante do local, quando expulso por algum motivo,  é quem pede ajuda ao PCV para tomar o bairro de onde foi expulso", conta o delegado. 
Em troca, o tráfico do local dominado com a ajuda do PCV precisa vender a droga fornecida pela facção e repassar lucros. "É como se fosse uma espécie de 'franquia' do tráfico de drogas", pontuou Romualdo Gianordoli. 
Procurado por homicídio em Cariacica, Vinicius Domingos Lopes, o Cara de Vaca
Vinicius Domingos Lopes, o Cara de Vaca Crédito: Divulgação da Polícia Civil
No Morro do Quiabo, a Polícia Civil  identificou Vinícius Domingos Lopes, o Cara de Vaca, como liderança criminosa rival do PCV. Ele já possui mandando de prisão em aberto por homicídio, inclusive por participação da chacina em uma ilha, em Vitória.  Já em Flexal, a liderança aliada ao PCV e com mandado de prisão em aberto é José Maria de Araújo, o Zé Maria. 

ÁREAS DE CONFLITO

Outro ponto que conta com a intervenção do PCV é Mucuri, onde criminosos estão em conflito com bandidos que controlam o tráfico no bairro Vila Independência. 
Conflitos em Cariacica com presença do PCV
Conflitos em Cariacica com presença do PCV Crédito: Geraldo Neto
E o terceiro ponto conflituoso é a região limite com Viana. Do lado de Cariacica estão os bairros Operário e Vale dos Reis, enquanto em Viana estão Marcílio de Noronha e Industrial.
"Neste caso há uma peculiaridade. Não há guerra entre eles, mas sim uma busca do PCV em tomar toda a região", observa o delegado-chefe da DHPP.  

VÍTIMAS

Entre as vidas perdidas nesses ataques há  muitos jovens e também adultos, quase sempre homens.  E como em toda guerra,  inocentes também são atingidos. Foi o que aconteceu no dia 2 de janeiro, quando o marido de uma faxineira, de 47 anos, foi morto a tiros. 
Ele foi uma das três vítimas fatais de um ataque que aconteceu no bairro Flexal. "Meu marido falava comigo ao telefone quando atiraram nele e nos meus filhos. Do outro lado da linha, eu ouvi os tiros e o telefone ficou mudo", conta a faxineira, que preferiu não se identificar. Além do marido, os dois filhos dela, de 18 e 12 anos que estavam junto, foram baleados. 
A família não morava no bairro Flexal. A faxineira havia ido visitar a irmã e o marido chegava para encontra-la quando foi morto.  
"Sabe aquela frase 'no lugar e na hora errada'? Foi isso que aconteceu com meu marido. Agora espero a justiça de Deus", lamentou a faxineira.
A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Cariacica identificou quatro suspeitos de envolvimento no crime. Um deles é Vinícius, citado  pela polícia como chefe do Morro do Quiabo,  que continua foragido. 
Delegado Romualdo Gianordoli. 17/08/2019
Delegado Romualdo Gianordoli Crédito: Aquivo/AG

INVESTIGAÇÕES

O delegado Romualdo Gianordoli Neto, chefe do DHPP, descreve que as apurações dos crimes na cidade estão adiantadas, mas que ainda não é possível divulgar os resultados.
 "Apesar desses levantamentos, ainda há homicídios que fogem do nosso radar, não tem muito como prever e evitar, como o que ocorre durante uma briga de bar. Estamos  reforçando a área com o serviço de inteligência e também com a escala operacional" descreveu o delegado. 
Ao ser questionado sobre o motivo do PCV avançar em três  regiões diferentes na mesma cidade, Gianordoli explica que seria uma estratégia da facção. 
Quem tiver informações que possa colaborar com a polícia, pode entrar em contato pelo Disque-denúncia 181. O anonimato é garantido.
Nem a presença da Força Nacional impediu que a violência explodisse em Cariacica
 Força Nacional está em Cariacica desde agosto de 2019 Crédito: Vitor Jubini

DESAFIO MUNICIPAL

O enfrentamento da violência em Cariacica também é uma preocupação para a nova gestão municipal. Empossado no início de janeiro como secretário de Defesa Social, o delegado Cláudio Vitor, que já comandou a DHPP, pretende executar projetos sociais e infra-estrutura nos bairros atingidos pela violência. 
"A prefeitura já assinou ordens de serviços para melhorias de várias escolas, melhorias também da sinalização,  limpeza e iluminação, tudo isso faz parte da prevenção de crimes", descreveu o delegado.
O município também deve contar, até o final do ano, com 250 novas câmeras de videomonitoramento. 
"Estamos trabalhando com a Sesp para a ampliação do número de câmeras para serem instaladas em locais de incidência e crime contra a vida, de tráfico e patrimonial. Outro plano que está sendo estudado é o cerco inteligente, que vai depender de estudos e análises, pois Cariacica é um município com muitas entradas e saídas, mas esperamos ter em funcionamento até o final do ano", pontuou.
Para Cláudio Vitor, mesmo estando há  mais de um ano no município, a Força Nacional fez diferença. "A Força Nacional é muito importante para o município, se ela não estivesse aqui os números seriam maiores do que são hoje. Estamos no início do ano, as demandas são diferentes. Precisamos fazer uma análise de como foi toda a gestão passada e tentar definir um modelo adequado ao momento", finalizou. 

POLÍCIA MILITAR 

Procurada pela reportagem para falar sobre o policiamento no município, a Polícia Militar enviou uma nota. Confira na íntegra: 
"A Polícia Militar, por meio do 7º Batalhão, informa que atua diuturnamente em todo o município de Cariacica. Quando há cenários de instabilidade em determinada região, ações de polícia ostensiva e de inteligência são intensificadas, com vistas ao retorno pleno da normalidade. No bairro Aparecida, por exemplo, na última sexta-feira (22) houve abordagem e apreensão de drogas, radiocomunicadores e uma pistola calibre .40. O cidadão detido e o material apreendido foram encaminhados à 4ª Delegacia Regional de Cariacica. Insta ressaltar a importância da participação das comunidades com denúncias e informações por meio dos telefones 190, em caso de crime em andamento e 181, o Disque Denúncia, com vistas ao enfrentamento qualificado às ações criminosas"

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