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Pacientes com Covid-19 ganham prontuário afetivo em UTI no ES

A ideia começou a ser implantada há cerca de duas semanas e tem auxiliado pacientes, familiares e profissionais de saúde no enfrentamento à doença

Publicado em 22/04/2021 às 11h41
Lizandra  Vasconcellos está há mais de 40 dias no hospital e ganhou um prontuário afetivo
Lizandra Vasconcellos está há mais de 40 dias no hospital e ganhou um prontuário afetivo. Crédito: Divulgação / Arquivo Pessoal

As informações estão pregadas na parede, em um papel colorido, escrito à mão. Lizandra tem 34 anos, gosta de pagode, cuida dos pais, é católica, esposa do Fernando e mãe do pequeno Heitor. O “prontuário afetivo” da analista administrativa traz as informações mais importantes sobre ela e ajuda a lembrar que estamos diante de uma pessoa, com história e gostos, para muito além de um diagnóstico de Covid-19.

Pelo menos outros 16 prontuários afetivos já foram espalhados pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI) destinada à Covid-19 no Hospital Santa Rita, em Vitória. A ideia começou a ser implantada há cerca de duas semanas e tem auxiliado pacientes, familiares e profissionais de saúde no combate à doença.

“Um prontuário, geralmente, é um documento no qual os profissionais de saúde registram as informações de saúde e do quadro clínico do paciente. O prontuário afetivo é uma proposta de trazer para o centro do cuidado a pessoa, não a doença. No prontuário afetivo, as informações são relacionadas à pessoa, seus gostos, seus hobbys e aquilo que é importante para ela”, explica a psicóloga Thamiris Moreno, de 27 anos.

Pacientes da UTI Covid do Hospital Santa Rita ganharam prontuário afetivo
Pacientes da UTI Covid do Hospital Santa Rita ganharam prontuário afetivo. Crédito: Divulgação / Hospital Santa Rita

De acordo com a psicóloga, o prontuário afetivo é construído com a ajuda do próprio paciente. Nos casos em que a pessoa se encontra intubada e sedada, as informações são fornecidas por familiares próximos.

“O prontuário se transformou em um instrumento de intervenção psicológica para nós. Durante o atendimento, além de conhecermos o paciente, também podemos identificar as angústias e questões em torno da internação e traçar um plano terapêutico. Tem sido uma experiência muito bacana”, avalia.

CONFORTO

Para Fernando Gripa de Bortoli, de 37 anos, que acompanha a esposa Lizandra no hospital há cerca de 40 dias, o prontuário afetivo trouxe conforto em meio à aflição provocada por um diagnóstico de Covid-19. Lizandra ficou mais de 30 dias na UTI. Quando foi transferida para a enfermaria, nesta semana, o papel azul com as suas informações mais importantes a acompanhou.

“O prontuário afetivo traz para a gente um pouco de tranquilidade, porque a gente vê que eles tratam o paciente não como mais um CPF, mas como se fosse uma pessoa deles. A gente percebe que eles se preocupam com os nossos entes queridos, que são apenas pacientes deles. Isso deixa a gente mais confortável”, opina Bortoli.

Thamiris Moreno

Psicóloga

"Essa experiência de falar de si funciona como um regaste daquilo que é importante para o paciente. Como o prontuário fica exposto, também funciona para que outros funcionários possam criar um vínculo, aumentando o sentimento de conforto e confiança"

A psicóloga explica que é comum, principalmente em internações prolongadas, que pacientes e familiares se sintam angustiados diante da padronização dos procedimentos. Por isso, o prontuário afetivo é uma forma de evidenciar as individualidades de cada um.

"A padronização dos processos é importante para a segurança, mas acaba por interferir na expressão daquilo que é subjetivo e particular de cada um. Por exemplo, quem está internado em uma UTI geralmente não pode usar suas próprias roupas, fica conectado a aparelhos que aferem seus batimentos cardíacos, sua saturação, pressão. Alguns familiares de pacientes intubados relatam que sentem o prontuário afetivo como um afago. Traz um conforto saber que mesmo não estando presentes, as pessoas que estão cuidando do seu familiar sabem quem ele é", defende Thamiris.

Pacientes da UTI Covid do Hospital Santa Rita ganharam prontuário afetivo
Pacientes da UTI Covid do Hospital Santa Rita ganharam prontuário afetivo. Crédito: Divulgação / Hospital Santa Rita

AMPLIAÇÃO

O prontuário afetivo é utilizado também em outros hospitais do Brasil. Em Vitória, o Hospital Santa Rita pretende expandir o projeto para que ele possa alcançar todos os paciente da UTI de Covid-19.

"Como é um instrumento terapêutico, é realizado de forma individualizada, de acordo com a realidade de cada paciente. Alguns ficam mais tempo na UTI, outros ficam menos tempo. Tudo isso é levado em consideração. Algumas pessoas mais reservadas falam de seus gostos, mas não querem o prontuário exposto. Mas a ideia é ampliar para todos os pacientes que queiram e que ficam na UTI por mais de 48h. O importante também é acompanhar o paciente e a família. Ao sair da UTI, o paciente leva o prontuário afetivo com ele para a enfermaria", esclarece.

Thamiris Moreno

Psicóloga

"Os prontuários afetivos são feitos à mão e coloridos porque assim se diferenciam dos demais papeis e documentos do box nesse ambiente de UTI. E, assim, chama mais a atenção. Escrevê-los à mão também é uma forma de deixar o documento mais pessoal."

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