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Há riscos de o venenoso peixe-leão achado em Noronha aparecer no ES?

Sete foram capturados no arquipélago recentemente. Animais têm espinhos venenosos que podem causar febre, inchaço e dor em humanos e representam perigo aos ecossistemas marinhos

Publicado em 14/09/2021 às 15h18
O peixe-leão é considerado um peixe territorialista: vive próximo à rochas e não costumam mudar muito de lugar
O peixe-leão é considerado um peixe territorialista: vive próximo à rochas e não costumam mudar muito de lugar. Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha

Natural da região da Indonésia, no sudeste asiático, o peixe-leão (Pterois volitans) poderia ser apenas uma espécie que você admira em aquários de água salgada. Porém, recentemente, a espécie venenosa — que oferece riscos aos seres humanos — tem sido encontrada no arquipélago de Fernando de Noronha (PE), onde sete exemplares foram capturados nas últimas semanas e a ameaça de que haja outros parece crescente.

Além de possuir espinhos venenosos no dorso do corpo que podem causar febre, inchaço e dor em humanos, ele representa um sério perigo aos ecossistemas marinhos onde é visto como um animal exótico. É o caso das três localidades em que já foi achado no Brasil — cuja lista não engloba, ainda, o Espírito Santo.

No dorso, o peixe-leão tem 18 espinhos venenosos, que é prejudicial ao ser humano
No dorso, o peixe-leão tem 18 espinhos com veneno, que é prejudicial ao ser humano. Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha

No entanto, o pesquisador Raphael Macieira diz que deve ser questão de tempo para que o peixe-leão chegue ao mar capixaba. "A tendência é que esses animais desçam a costa, até por fatores oceânicos. Além disso, já foram registrados encontros da espécie, ainda que raros, ao Sul do Estado", afirma.

Se isso vai acontecer de forma mais rápida ou lenta, segundo o pós-doutor em Oceanografia, é difícil saber. No entanto, os riscos que o animal pode oferecer ao ecossistema marinho por aqui são basicamente os mesmos que poderão ser verificados em outros lugares, inclusive com consequências econômicas.

A CHEGADA DO PEIXE-LEÃO

Após ter sido levado para a Flórida (EUA) para aquariofilia, o peixe-leão foi acidentalmente introduzido no Oceano Atlântico, particularmente próximo ao Caribe. Exatamente nesta região, ele conseguiu se reproduzir e virou uma praga, segundo o pesquisador e analista ambiental Ricardo Araújo.

Ricardo Araújo

Pesquisador do ICMBio Noronha

"Se no habitat natural do peixe-leão você encontrava um bicho por km², no Caribe você vai encontrar 12 por km². Ou seja, ele é 12 vezes mais abundante nos locais em que ele é introduzido"

Coordenador da área de pesquisa, monitoramento e manejamento de espécies exóticas do ICMBio Noronha, o especialista explica que o mesmo poderia acontecer em outros locais, incluindo o arquipélago pernambucano. Na região, o primeiro indivíduo da espécie foi encontrado em dezembro de 2020 e outros sete foram capturados entre agosto e setembro deste ano.

Em dezembro do ano passado, foi encontrado o primeiro exemplar de peixe-leão encontrado em Fernando de Noronha (PE). Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha
Em dezembro do ano passado, foi encontrado o primeiro exemplar de peixe-leão encontrado em Fernando de Noronha (PE). Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha

Antes, no entanto, a espécie já havia sido localizada bem mais perto do Espírito Santo: em Arraial do Cabo (RJ), em 2014 e 2015. Mas, segundo Ricardo, ecologicamente, a distância entre o local e a costa capixaba é grande e os dois peixes-leão achados à época foram coletados, sem se reproduzirem.

Depois, já no ano passado, mais indivíduos foram encontrados na foz do Rio Amazonas. A partir deste encontro, pesquisadores estimaram que Fernando de Noronha seria um dos primeiros locais do Brasil onde a espécie chegaria, devido a dinâmicas naturais como correntes marítimas.

Cartilha sobre o peixe-leão

PDF de conscientização elaborado pelo ICMBio traz um resumo da espécie e um QRCode por meio do qual é possível informar o local em que o animal foi encontrado

A AMEAÇA E OS RISCOS: ENTENDA

Diante do risco, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) começou um trabalho de conscientização. Em uma cartilha, pesquisadores difundiram características do animal e pediram para serem avisados se alguém avistasse um peixe-leão. Mas por que recolhê-los?

Coleta do peixe-leão deve ser feita apenas por especialistas, principalmente por causa dos espinhos com veneno
Coleta do peixe-leão deve ser feita apenas por especialistas, principalmente por causa dos espinhos com veneno. Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha

O risco inicial tem basicamente duas vertentes. "Em geral, os animais sabem quais são os seus predadores e já têm estratégias de sobrevivência e fuga. Como o peixe-leão não é conhecido, as presas não sabem que ele é um predador. Já os predadores ainda não sabem que ele é uma presa", explica Ricardo Araújo.

Ricardo Araújo

Pesquisador do ICMBio Noronha

"Digamos que ele vai passar boa parte do tempo predando sem ser predado"

Para tentar agilizar essa dinâmica e contornar o transtorno, algumas ações já são adotadas no Caribe, porém elas também podem trazer impactos. "Eles dão o peixe-leão para o tubarão comer, mas isso pode fazer com que os tubarões associem o humano à alimentação, o que é outro problema", argumenta.

25 cm

É o tamanho médio de um peixe-leão adulto

Além das circunstâncias ecológicas, a espécie tem duas características biológicas que colaboram para que ela se torne cada vez mais predominante nos ambientes em que é introduzida. A primeira é a alta voracidade no que diz respeito à alimentação e a segunda, a velocidade reprodutiva.

Ricardo Araújo

Pesquisador do ICMBio Noronha

"O peixe-leão consegue comer 20 peixes em meia-hora, incluindo animais quase do tamanho dele. Ele também pode colocar quase 30 mil ovos a cada quatro ou cinco dias"

Juntos, esses fatores podem gerar um grande desequilíbrio com impactos inclusive econômicos. "Você começa a ter uma diminuição da produção pesqueira, uma diminuição de espécies nativas e endêmicas e, assim, ter uma redução das espécies importantes para a ecologia local", afirma Ricardo.

O corpo do peixe-leão é listrado nas cores branco, preto, vermelho e marrom. Além de possuir pintinhas
O corpo do peixe-leão é listrado nas cores branco, preto, vermelho e marrom. Além de possuir pintinhas. Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha

Para ajudar a dimensionar o tamanho do risco, o especialista estima que só em Fernando de Noronha, 169 espécies de peixes ósseos e 218 tipos de moluscos e crustáceos poderiam ser gravemente ameaçados. "São todos da comunidade recifal, incluindo os grandes. É muita coisa", garante.

O QUE TEM SIDO FEITO NO BRASIL?

Os sete peixes-leão encontrados no arquipélago brasileiro entre agosto e setembro deste ano têm a mesma destinação: após coletados por especialistas, são congelados e mandados para a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ou a Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Nos laboratórios são feitas análises mais aprofundadas. Queremos saber, neste primeiro momento, o que eles estão predando, por meio do conteúdo estomacal, e de onde estão vindo, por meio das semelhanças com outros exemplares, detectadas em um estudo de genética", esclarece Ricardo Araújo.

O maior peixe-leão já encontrado, segundo o pesquisador Ricardo Araújo, do ICMBio, media 47 cm de comprimento
O maior peixe-leão já encontrado, segundo o pesquisador Ricardo Araújo, do ICMBio, media 47 cm de comprimento. Crédito: Divulgação | ICMBio Noronha

Segundo o pesquisador, apenas o primeiro exemplar recolhido na região já deveria ser adulto — mais ainda não se sabe se em idade reprodutiva. Já os demais foram encontrados juvenis, com cerca de 7 cm de comprimento. "Provavelmente, eles vieram de fluxos diferentes", destaca.

Embora vivam perto de pedras e a mais de 20 metros de profundidade, vale a orientação para todos: se encontrar um peixe-leão, informe o local em que o animal está por meio deste formulário, pelo e-mail [email protected] ou entre em contato com uma unidade do ICMBio.

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