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ES mantém cloroquina para casos graves de Covid-19, mas protocolo está em revisão

Mesmo com a nova recomendação do governo federal para uso do medicamento em casos leves de Covid-19, governo do ES mantém utilização apenas em casos graves. Mas Estado diz que irá revisar o protocolo

Publicado em 21/05/2020 às 13h24
Remédio, cloroquina
Medicamento. Crédito: Pixabay

Após o Ministério da Saúde divulgar na última quarta-feira (20), por determinação do presidente Jair Bolsonaro, um documento que amplia a possibilidade de uso da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sinais e sintomas leves do novo coronavírus, A Gazeta apurou como isso irá funcionar no Espírito Santo. O Estado informou, nesta quinta-feira (21), que não vai mudar o protocolo de uso da cloroquina contra a Covid-19 com indicação apenas para pacientes graves, em leitos de UTI. Porém,  afirma que irá revisar o protocolo com uma equipe técnica.

A alteração no protocolo foi divulgada no próprio site do Ministério da Saúde, na última quarta (20), que informou que "com o objetivo de ampliar o acesso dos pacientes a tratamento medicamentoso no âmbito do SUS", publicou orientações para o tratamento medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico de Covid-19 com sintomas leves, moderados e graves. 

De acordo com o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, em entrevista na manhã desta quinta (21) ao Bom dia Espírito Santo, da TV Gazeta, não há evidências científicas de que a cloroquina ajude na cura contra a Covid-19. Ele afirma que se uma pessoa com sintomas leves da doença fizer o uso de um medicamento placebo, irá evoluir para a cura - de 80% a 90% dos casos -, porque a Covid-19 é uma doença que evolui para cura, espontaneamente, em 80% ou 90% dos casos. 

"O Estado do Espírito Santo, desde o início da pandemia, adota a indicação da cloroquina para o tratamento de pacientes com indicação de UTI. Um protocolo adotado desde o início da pandemia, referendado com vários estudos nacionais. No entanto, durante os 90 dias de pandemia, essa conduta foi sendo fragilizada no conjunto Brasil e no conjunto de muitas publicações internacionais. A Sociedade Brasileira de Pneumonologia, de Medicina Intensiva, de Infectologia, essa semana publicaram um consenso, inclusive, recomendando o não uso em pacientes graves, porque não há evidências de que ela traz benefícios ao paciente grave", afirmou.

O secretário completou que o documento do Ministério da Saúde, que amplia a possibilidade de uso da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sinais e sintomas leves do novo coronavírus, está sendo questionado porque não há um parecer técnico que subsidie a decisão.

Nésio Fernandes

Secretário de Estado da Saúde

"O Espírito Santo adota medidas científicas para poder conduzir a atenção à população capixaba no enfrentamento da Covid-19. Então vamos recomendar condutas que tenham embasamento científico"

PROTOCOLO SERÁ REVISADO POR EQUIPE TÉCNICA

A reportagem procurou a Sesa para explicar como é, nos dias de hoje, a indicação do uso da cloroquina no Estado. Por nota, a secretaria respondeu que o protocolo permanece como no início da pandemia: com indicação de uso apenas para pacientes graves, na UTI. Porém, o Estado irá revisar o protocolo com uma equipe técnica para saber se permanece indicando o medicamento em pacientes graves e também se passará a indicar para tratamentos em pacientes com sintomas leves. 

"A hidroxicloroquina é utilizada no Estado desde o início da pandemia. O protocolo praticado é a utilização em pacientes graves, com indicação de internação em UTI. A Sesa informa, ainda, que o protocolo adotado está em revisão por parte da equipe técnica. A opção do Espírito Santo é por consensos científicos – para casos graves, o que está subsidiando a análise são as recomendações da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia; para os casos leves, são as recomendações da Associação Brasileira de Medicina de Família e Comunidade", informa a nota, na íntegra. 

OMS NÃO RECOMENDA CLOROQUINA NO TRATAMENTO 

A OMS (Organização Mundial de Saúde) disse nesta quarta-feira (20) que não recomenda que cloroquina e hidroxicloroquina sejam usadas no tratamento de Covid-19, doença provocada pelo coronavírus. Segundo o diretor-executivo da organização, Michael Ryan, as drogas devem ser usadas apenas em estudos clínicos, em hospitais e sob supervisão médica, pois apresentam efeitos colaterais.

Ryan afirmou que, "neste estágio, não há evidências" de que cloroquina e hidroxicloroquina sejam efetivas no tratamento da Covid-19 ou na profilaxia para não contrair a doença. "Na verdade, pelo contrário. Várias autoridades de saúde já alertaram para seus efeitos colaterais e muitos países limitaram seu uso para estudos clínicos", disse o diretor da OMS.

Ryan disse que os países são soberanos para aconselhar seus cidadãos sobre o uso de qualquer medicamento, mas, "como OMS, nós recomendamos que, no caso da Covid-19, cloroquina e hidroxicloroquina sejam usadas apenas em experimentos clínicos". Ele ressalvou que isso não se aplica a outras doenças para as quais as drogas já foram licenciadas (como a malária, por exemplo).

ENTIDADES MÉDICAS VÃO PARA A JUSTIÇA

Entidades médicas anunciaram nesta quinta-feira (21), segundo a Folha de São Paulo, que preparam medidas judiciais para obrigar que seja retirado do site do Ministério da Saúde as orientações para que profissionais de saúde administrem precocemente cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes com coronavírus.

Os médicos afirmam que o fato da orientação existir formalmente dará margem à população para exigir o uso dos medicamentos, mesmo quando a avaliação clínica não recomendar a prescrição, comprometendo até mesmo a segurança dos profissionais da saúde.

Segundo os médicos, a maioria das unidades básicas de saúde no país não tem, por exemplo, eletrocardiógrafos para aferir se os pacientes podem usar a cloroquina, que apresenta a arritmia como um de seus principais efeitos colaterais. E mais de 90% dessas unidades também não dispõem de profissionais de segurança, e o temor dos médicos é que, como a escalada da epidemia, muitos pacientes acabem exigindo de forma mais enfática o uso dessas drogas.

Segundo Daniel Knupp, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), que reúne 47,7 mil equipes de atenção básica no país, o governo federal está colocando os médicos em um "fogo cruzado" com a publicação das orientações pelo Ministério da Saúde. "Haverá pressão da população para o uso desses medicamentos, sendo que o próprio governo está sendo tecnicamente omisso em sua orientação", diz Knupp.

Na ação contra a manutenção do documento no site do Ministério, a SBMFC usará o seu próprio texto como argumento contra o uso dos medicamentos. Na primeira nota técnica, o documento afirma que "ainda não há meta-análises de ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da Covid-19".

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) estuda participar da mesma ação ou tomar medidas jurídicas individualmente. "Há evidências suficientes para a não utilização da cloroquina e das demais medidas recomendas pelo ministério em pacientes infectados pela Covid-19", afirma Suzana Margareth Lobo, presidente da Amib.

A Sociedade Brasileira de Infectologia também emitiu nota afirmando que vários estudos mostraram o "potencial malefício" dessas drogas. A entidade recomenda que o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 seja feito "prioritariamente em pesquisa clínica".

Com informações da Agência Folha

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