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Banda Vagale aposta na autorreflexão com batidas eletrônicas em novo EP

"Ruído Negro" chega como o oposto do primeiro trabalho lançado em 2019. Com um som mais "sombrio" em relação a "Ruído Branco", integrantes mostram maturidade no EP

Publicado em 02/06/2020 às 10h00
Atualizado em 02/06/2020 às 10h00
A banda paulista Vagale está lançando seu novo EP,
A banda paulista Vagale está lançando seu novo EP, "Ruído Negro". Crédito: Divulgação

Um tom autorreflexivo, com um quê de introspecção, sem esquecer (é claro) de sua marca registrada: os sintetizadores eletrônicos. Assim pode ser definido o terceiro álbum de estúdio da banda paulista Vagale, “Ruído Negro”, já disponível nas plataformas digitais. 

Se no trabalho anterior, "Ruído Branco" (2019), os campineiros apostavam em faixas otimistas, como "Puro", "Âncora" (seu maior sucesso) e "Placebo", a ordem agora é um clima bem mais sombrio. 

O resultado deu origem a três novas músicas: "Leve", "Universa-me" e "Ondular". As faixas são um convite a um olhar introspectivo, extremamente importante em tempos de crise, bipolarização política e quarentena, por conta da pandemia do novo coronavírus.

"Todas as músicas de 'Ruído Negro' contrastam com o nosso EP anterior, especialmente pelo teor das composições, no sentido da atmosfera que elas trazem. Há pouco uso de cordas, priorizando os 'synths', baterias eletrônicas e efeitos na voz", detalha o baixista Frederico Brühmüller, que compõe a banda ao lado de Bruno Carlini (voz, guitarra e sintetizador), Lucas Duarte (guitarra e sintetizador) e Wilian Nunes (bateria).

A essa altura do texto, caro leitor, você deve estar perguntando: por que esse nome, digamos, pitoresco, Vagale? Fred dá essa e outras respostas em bate-papo com o "Divirta-se". Acompanhe, a seguir.

Por que Vagale? Tem a ver com a formação do grupo? Alguma coisa parecida com "vagabundos" (risos)?

Então (risos), o grupo foi formado em meados de 2013, quando os meninos estavam estudando juntos. Inicialmente, eram Bruno (vocais e guitarra), Fraga (guitarra), Danilo (baixo) e Will (bateria). Então, como eles eram mais novos e tinham muito tempo livre, a palavra Vagale veio de uma associação com “vagabundos”, uma brincadeira que eles fizeram. Em 2015, o Lucas, atual guitarrista, entrou no lugar do Fraga. E, mais tarde, em 2018, entrei como baixista no lugar do Danilo.

Ouvindo músicas de "Ruído Branco" e "Ruído Negro", dá para ver que a Vagale tem uma ampla referência musical, não?

As influências são muitas, pois temos várias bandas em comum. Nosso ponto de partida, em termos musicais, vem de nomes como Los Hermanos, Radiohead e CPM22, por exemplo. Há, também, influências individuais, que marcaram a formação artística de cada membro, como Foals, Alt J, Fresno e  Royal Blood. Tentamos fazer algo homogêneo dessa mistura.

Por falar em mistura, a banda tem uma essência bem ‘underground’, baseada em um rock-pop reflexivo. Essa é a ideia?

Sempre que perguntam o nosso estilo, tenho uma certa dificuldade de responder. Não temos seguido um padrão. Se pegar "Puro" (2016), nosso primeiro álbum, vai encontrar canções de amor, política e críticas sociais, com uma pegada sonora que flerta com o pop rock e o melodic hardcore dos anos 2000. São influências de Cpm 22, por exemplo. Já em "Ruído Branco", de 2019,  apresentamos mais maturidade musical, mesclando elementos de rock indie, batidas eletrônicas e "synths", em uma pegada lírica voltada para o autoconhecimento, com algumas críticas sociais também.

E sobre "Ruído Negro"? Em que ele serve como contraponto para o último disco da banda?

"Ruido Negro" vem de ideias que sobraram do trabalho anterior, mas que julgamos não serem compatíveis com ele na época, justamente pelo contraste entre os dois. Destaco a música “Leve”,  que abre o EP. Todas as faixas contrastam a "Ruído Branco" pelo teor das composições, no sentido da atmosfera que elas trazem.  Agora, abusamos de baterias eletrônicas e efeitos na voz. Fora que as músicas são mais darks, no sentido 'atmosférico' da coisa. Bem diferente do trabalho anterior, que tinha uma pegada mais “pra cima”.

O clima dark de "Ruído Negro", mesmo que de maneira inconsciente, acabou casando com a fase da pandemia, e o medo do futuro, que estamos vivendo. Concorda?

Era essa a ideia que sempre quisemos passar. Pensamos que o EP traria amparo para as pessoas nesse momento e aproximaria ainda mais os nossos fãs.  Foi uma escolha que acabou dando certo. 

Por falar em quarentena, como manter contato com o público? Lives são a opção?

O impacto está sendo duro para maioria das pessoas e, para os artistas, não é diferente. Tivemos shows cancelados e acabamos tendo que priorizar lives e lançamentos digitais. Percebemos que, mesmo nesses tempos difíceis e com opções limitadas, nossos fãs foram muito fiéis, comparecendo em todas as lives, mandando perguntas e pedindo músicas.

Frederico Brühmüller

Baixista da banda Vagale

"Quando o assunto é cultura, o atual governo é 100% ausente. "

Falta incentivo de instâncias públicas para o avanço da música independente no país?

Quando o assunto é cultura, o atual governo é 100% ausente. É só assistir ou ler qualquer jornal que fica explícito. Nós, que fazemos música independente, de certa forma, já estamos acostumados em não ter apoio governamental. Avalio essa posição com tristeza, pois nosso país tem a maior 'mistura cultural' do planeta. Se tivéssemos mais apoio, a indústria do entretenimento seria ainda mais diversa.

Vivemos em um país polarizado, em que diferenças políticas dão a tona, principalmente nas redes sociais. De um certo modo, suas músicas têm um forte teor de crítica social. Não há um receio em desagradar a parte mais conservadora da sociedade?

Procuramos colocar em nossas composições o que sentimos e pensamos. Às vezes, até paira essa dúvida sobre desagradar uma parte do público. Com alguns anos de experiência, porém, sabemos que nunca vamos agradar a todos (risos). Também tem aquela coisa: jamais conseguiríamos ser e cantar outra forma de música. Não vamos perder a nossa essência para agradar.

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