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Acusado de assédio, maestro Leonardo David é afastado da Orquestra Sinfônica do ES

MP investiga maestro após músicos denunciarem assédio. Denúncia foi encaminhada à Promotoria de Justiça Criminal de Vitória por abuso de autoridade, assédio moral e insinuações de cunho sexual; maestro nega acusações

Publicado em 10/09/2020 às 20h32
Atualizado em 10/09/2020 às 20h46
Rockestra Camerata SESI
O maestro Leonardo David durante o concerto "Rockestra", da Camerata SESI. Crédito: Alexandre Mendonça

Leonardo David Nascimento de Souza foi afastado da função de maestro adjunto da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (Oses). A informação foi divulgada na noite desta quinta-feira (10) pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult), que abriu processo administrativo interno para apurar denúncias de assédio moral e sexual que chegaram por meio de um ofício do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), no último dia 25, solicitando informações à pasta sobre diversos casos de abusos denunciados por músicos.

"O servidor terá direito à ampla defesa. Se as infrações denunciadas forem comprovadas, pode haver punição extrema, como demissão. O Gabinete do secretário foi procurado por musicistas e também pela Comissão de Músicos da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo e agendou conversas entre eles e o Gabinete nos próximos dias", diz trecho do comunicado da Secult, que garante não compactuar com nenhum tipo de má conduta de seus servidores. "Os questionamentos do órgão ministerial vão ser apurados e respondidos dentro do prazo solicitado", finaliza a nota da pasta.

O maestro Leonardo David virou alvo de procedimento do Ministério Público (MPES) depois de ser denunciado por um grupo de músicos do Estado por assédio moral e sexual. Artistas que estiveram subordinados ao profissional relatam gritos, xingamentos e provocações que vinham acontecendo há anos. David foi procurado por A Gazeta e negou todas as acusações.  "O maestro Leonardo David informa que é inocente de todas as acusações, que jamais faltou com o respeito a ninguém", diz em nota enviada à reportagem.

Os supostos crimes, de acordo com os denunciantes, teriam motivado músicos a abandonarem a carreira e provocado baixas no corpo artístico da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (Oses), da qual David é maestro adjunto desde 2011, e da Camerata Sesi.  A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), mantenedora da Camerata, demitiu Leonardo David do cargo de maestro no último dia 18 de agosto.

No lugar do ex-regente, a Findes informa que Gabriela de Oliveira Souza Queiroz, que era spalla da orquestra (uma posição abaixo do maestro), assumirá interinamente os trabalhos até um novo profissional ser contratado. Ela é a esposa de Leonardo. A Federação das Indústrias não revela os motivos da demissão, mas garante a apuração de toda e qualquer denúncia.

A reportagem teve acesso a quatro de oito denúncias encaminhadas ao MPES, que decidiu anexá-las em procedimento de apuração que, agora, corre na Promotoria de Justiça Criminal de Vitória. Nos textos, os músicos detalham momentos em que alegam ter sofrido tortura psicológica, abuso de poder, destrato profissional e diversos episódios de constrangimento.

"Vários músicos humilhados durante os ensaios, ele persegue as pessoas, ameaça de não contratar mais quem fala ou discorda dele. Um rapaz fez uma postagem no Instagram e foram aparecendo mais de 140 depoimentos de vítimas", diz trecho de uma denúncia registrada.

Prints das denúncias contra o maestro Leonardo David, que chegaram ao MPES sobre assédio moral e sexual
Prints das denúncias contra o maestro Leonardo David, que chegaram ao MPES sobre assédio moral e sexual . Crédito: Reprodução

"Nós víamos todos os dias no trabalho os assédios sexuais, assédios morais, agressão verbal, xenofobia, homofobia, racismo... Ele gritou comigo na frente dos colegas e eu tenho todas as testemunhas. Ele deu em cima da minha esposa na minha frente e eu não posso fazer nada... Ele nos ameaça com renovação de contrato", relatou outro denunciante.

Prints das denúncias contra o maestro Leonardo David, que chegaram ao MPES sobre assédio moral e sexual
Prints das denúncias contra o maestro Leonardo David, que chegaram ao MPES sobre assédio moral e sexual . Crédito: Reprodução

Os relatos enviados ao MPES condizem com o que três músicos, que aceitaram contar suas experiências com o maestro, denunciam. "O assédio moral é que é a grande questão dele. E tinham ainda colegas que denunciavam que ele dava em cima das namoradas de alguns músicos só para provocá-los", narra um deles.

Outro músico complementa: "Durante os ensaios, ele (o maestro) descobria formas de assediar as pessoas. Quando alguém ia tocar alguma coisa, ele questionava a qualidade do que estava sendo feito, constrangendo, expondo cada um dos músicos. Ele xingava os músicos aos gritos, e os cumprimentos dos contratos de trabalho eram todos irregulares. Uma vez, ele nos deixou quase cinco horas trancados em um teatro com o ar condicionado desligado. Em oscilação de temperatura, os instrumentos musicais podem desafinar e foi o que aconteceu. Só que ele usou daquilo para mandar até músicos subordinados dele jogarem os instrumentos fora, falando que eles não estavam 'prestando'. Ninguém imagina que um minuto antes de a cortina abrir, ele (o maestro) gritava, xingava e criticava os músicos".

Uma terceira profissional, que denunciou os casos à reportagem, diz que houve momentos até em que Leonardo pedia para musicistas mulheres "darem uma voltinha" e mostrarem as roupas com que iam aos ensaios sob a justificativa de se tratar de uma brincadeira. 

X.

Denunciante que não quis ter o nome divulgado

"Quando as meninas chegavam e se acomodavam, ele (Leonardo David) pedia para que elas levantassem e dessem ‘uma voltinha’ para mostrar as roupas e o corpo no meio do ensaio e no meio de todo mundo"

O INÍCIO

Os casos começaram a vir à tona depois que um perfil do Instagram, de um músico que não mora mais no Brasil, decidiu compilar mensagens de colegas que revelavam os abusos. Nos textos, que constam em prints das mensagens privadas da rede social de fotos, os profissionais entregavam a mesma situação.

"Os músicos passam por humilhação, é repugnante", dizia uma mensagem. Outro texto detalhava: "Me ameaçou de agressão. Quando não ficava tirando sarro de mim na frente de outras pessoas".

Camerata Sesi
O maestro Leonardo Davi quando regia a Camerata Sesi. Crédito: Thiago Guimarães

A reportagem questionou o maestro investigado sobre as acusações. Leonardo David, que desativou as redes sociais, chegou a marcar um encontro para uma entrevista, mas desistiu e preferiu se manifestar apenas por meio de nota. "O maestro Leonardo David informa que é inocente de todas as acusações, que jamais faltou com o respeito a ninguém e que confia na apuração dos fatos. A apuração trará a verdade", diz, o texto enviado.

A DENÚNCIA

Para A Gazeta, questionado sobre as investigações, o Ministério Público respondeu que instaurou procedimento para apurar denúncias anônimas. "O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), por meio da Promotoria de Justiça Cível de Vitória, informa que instaurou procedimento para apurar denúncia anônima referente a dois maestros. O caso segue em tramitação e foi remetido também à Promotoria de Justiça Criminal de Vitória, por envolver notícia de crime, e à Secretaria de Estado da Cultura, para conhecimento e eventuais esclarecimentos", diz a nota enviada à coluna.

Helder Trefzger, maestro titular da Oses, afirma não ter conhecimento dos abusos. "Sempre recomendei a ele que tratasse as pessoas com respeito e cordialidade. Jamais tive conhecimento desses abusos e, se soubesse, certamente teria tomado providências. Nunca incentivei ou avalizei qualquer conduta que não guardasse o devido respeito às pessoas. Inclusive, na orquestra temos uma comissão de músicos que pode ser acionada por qualquer músico, a qualquer hora. Sempre tive uma comunicação aberta com essa comissão, com reuniões regulares, buscando sempre equacionar quaisquer questões que fossem levantadas, e propiciar o melhor tratamento aos músicos", disse Trefzger por meio de nota.

Findes, responsável por administrar a Camerata Sesi, que demitiu o maestro no mês passado, também foi questionada: "A Findes confirma que desde 18/08/2020 o maestro Leonardo David não faz mais parte dos quadros do SESI-DR/ES, deixando, portanto, de estar à frente da Orquestra Camerata, que continuará sob nova direção. Esclarece, ainda, que todas as denúncias recebidas no âmbito da Ouvidoria são devidamente apuradas e submetidas ao Comitê de Ética, inclusive condutas desalinhadas com os preceitos éticos de nossa instituição".

A Findes, ainda, confirmou a escalação temporária da esposa de Leonardo para reger a orquestra até que um novo maestro seja contratado. E respondeu, por nota: "A Findes informa que a musicista Gabriela de Oliveira Souza Queiroz, por ser a spalla da orquestra, assume interinamente e realiza os ensaios até a definição sobre o novo maestro".

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