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Tiroteio em Andorinhas: população não pode viver sob o terror

Registros em vídeo da "caminhada do terror" de bandidos são afronta à civilidade. A sociedade capixaba e os poderes constituídos devem se organizar em torno de um pacto, que tenha como meta a redução da violência

Publicado em 20/04/2021 às 02h00
Tiros
Tiros atingiram muros e casas em Andorinhas na madrugada de sexta-feira (16). Crédito: Reprodução/TV Gazeta

Não é audácia dos criminosos, como se costuma dizer. É covardia. Com armamento pesado, a manifestação de força é feita em grupos, com disparos nem sempre aleatórios que provocam os grupos rivais e assustam os moradores que nada têm a ver com essa guerra. O que se testemunhou na região de Andorinhas e Mangue Seco, na madrugada da última sexta-feira (16), foi mais um episódio da tragédia urbana da Grande Vitória. Bandidos contra bandidos, com a população feita refém sem que haja qualquer perspectiva de resgate. Isso tem que acabar.

Para quem reside nestes bairros, o medo é companhia constante. Para os moradores dos bairros nobres mais próximos, acordar com um tiroteio como o daquela madrugada é ter a dimensão real de que há uma guerra em curso, que deixou há algum tempo de ser silenciosa. O conflito é tangível, provoca a morte de bandidos e de inocentes, e se estende pelos espaços deixados vagos pelo poder público. Quanto mais se aproxima do "asfalto", mais amedronta a sociedade organizada. Mas é uma realidade cotidiana para quem precisa viver sob a égide de facções que impõem um conflito sanguinário pelo poder. É um problema que atinge a todos, não somente quando os tiros estão mais próximos.

Os registros em vídeo da "caminhada do terror" de bandidos de Itararé, Morro do Macaco e Santa Martha pelas ruas de Andorinhas mostram a ostentação de armas, em cenas que nada se diferem da barbárie flagrada em conflitos do Oriente Médio, só para ficar no exemplo mais óbvio. Uma forma de revidar a morte de um aliado pela facção que domina a região, com um recado claro também para os moradores. E, quando a polícia chega, torna-se imediatamente o inimigo comum. No fogo cruzado, é a população que paga.

"Se a polícia vai pro bairro, eles atiram. Se os inimigos dão ataque, eles vão lá e devolvem. A gente já sabe que não pode falar, ver e nem ouvir nada, é suportar e sobreviver, já que hora ou outra quem vai pagar por essa briga de droga é quem nada tem a ver, um inocente ou uma criança", desabafou uma moradora. O silêncio é sempre a regra máxima, acatada pelos moradores que não têm a quem recorrer. 

As autoridades de segurança pública não estão cegas, conhecem a dinâmica desse conflito. Parecem ter um vasto conhecimento, fruto do trabalho de inteligência, do mapa do tráfico na Grande Vitória. Por onde as facções se irradiam, as áreas de influência... a região de Andorinhas se transformou em uma zona autônoma, de resistência à atuação do Primeiro Comando da Capital, que domina a região do Bairro da Penha.

Mesmo que sejam realizadas operações frequentes na região, a desarticulação desses grupos é um desafio. São como a figura mitológica da Hidra de Lerna, com suas cabeças cortadas e regeneradas. Dos nove adultos presos desde sexta-feira, quatro já foram liberados. Dois adolescente também foram apreendidos.

Por mais que se saiba que a criminalidade tem raízes estruturais, principalmente em um país com educação precária e oportunidades escassas, impotente para a recuperação econômica que propicie mais benesses sociais, o enfrentamento da criminalidade não pode cessar. Assim como o Estado não deve esperar o próximo ataque para agir, os legisladores não podem se omitir. Não existe a menor possibilidade de trégua quando não há nem sequer um vislumbre de paz no horizonte. É preciso impor a lei para frear a violência: tanto para quem mata, quanto para quem revida com sangue.

A sociedade capixaba e os poderes constituídos devem se organizar em torno de um pacto, que tenha como meta a redução da violência. Algo que vá além das boas intenções, com efeitos práticos. É inaceitável que o crime tenha tanta capacidade de organização, mesmo que pela coerção e sob o comando de bandidos em presídios, sem que se consiga uma reação à altura, que de alguma forma destrua seus tentáculos sem que oportunistas ocupem o seu lugar. 

Andorinhas é somente o foco mais recente dessa explosão de violência que se espalha pelos bairros mais vulneráveis, como foi Jesus de Nazareth há algumas semanas e será outro bairro num futuro próximo, lamentavelmente. Seguir o rastro dessa previsibilidade, com investigação e ações conjuntas de vários atores institucionais, pode ser uma saída para desarticular de vez esses grupos que causam tanto terror para a população.

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