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Opinião da Gazeta

Luto pelos 400 mil mortos pela Covid precisa se transformar em luta

No Espírito Santo, não fossem as políticas do governo estadual para conter a pandemia e os capixabas que cumpriram o isolamento, mais famílias estariam enlutadas

Publicado em 01 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

01 mai 2021 às 02:00

Colunista

Enterro de vítima da Covid no cemitério Parque Tarumã, em Manaus
Enterro de vítima da Covid no cemitério Parque Tarumã, em Manaus Crédito: Amazônia Real
Mergulhado há 14 meses na pandemia, o Brasil atingiu mais uma triste marca nesta semana, ao ultrapassar os 400 mil mortos pela Covid-19. É o equivalente a 10% da população do Espírito Santo ou como se todos os moradores da Capital e de Domingos Martins, destino turístico do Estado, tivessem sido dizimados. Além de toda tragédia que comporta, o número é um alerta sobre o ritmo alucinado que a crise sanitária vem tomando no país. Um em cada quatro brasileiros mortos pela Covid-19 perderam a vida em um curto intervalo de 36 dias, entre os meses de março e abril.
No Espírito Santo, a pandemia avança de forma um pouco mais lenta, mas não deixa de assustar. Quase metade dos óbitos de capixabas foram registrados apenas nos quatro meses deste ano. A situação poderia ser ainda pior, se não fossem as medidas restritivas adotadas pelo governo do Estado para frear a curva de contágios. Em um cálculo até “conservador”, segundo os responsáveis pela projeção, o Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos aponta que pelo menos 875 mortes e mais de 40 mil novos casos foram evitados devido à quarentena no Espírito Santo.
Todo esforço para salvar uma única vida é louvável. Se não fossem as políticas do governo estadual para conter a pandemia e os capixabas que cumpriram o isolamento, mais famílias estariam enlutadas.
Entre as 400 mil famílias brasileiras que choram a perda, 9.500 moram no Espírito Santo. Com cenários mais ou menos graves, a verdade é que nenhum rincão do Brasil está em uma posição confortável. Ao passo que vários Estados flexibilizam as restrições após uma leve queda no número de novas infecções e de ocupação de UTIs, especialistas já soam o alarme para a possibilidade de que retomadas prematuras ou desregradas levem o país a um longo platô, com média móvel altíssima de óbitos, ou a um tsunami de novos casos, com a chegada do inverno.
Além dos desafios óbvios de uma crise inédita, o novo coronavírus ganhou contornos ainda mais trágicos no Brasil com o negacionismo e a inépcia de governos e de uma parcela da população, que fazem vítimas desnecessárias todos os dias. Países que tomaram o bonde errado no início da crise, mas corrigiram o rumo, como Estados Unidos e Reino Unido, hoje comemoraram a queda sustentada de casos e mortes, a vacinação em massa e os primeiros passos em direção à normalidade. Por aqui, o simples uso de máscara ainda é alvo de celeuma.
Algumas das respostas sobre por que o Brasil chegou à beira deste precipício começarão a ser dadas na próxima semana, com a CPI da Covid, que inicia as investigações com depoimentos dos ex-ministros e do atual chefe da Saúde a respeito da condução da crise. Estima-se que mais de 80% da população brasileira tenha perdido algum parente ou conhecido para a Covid-19. Esses quase 170 milhões de cidadãos enlutados querem saber por que o governo federal nada fez para evitar a falta de oxigênio em Manaus, mesmo alertado. Precisam entender por que o Brasil menosprezou ao menos 11 acordos para aquisição de vacinas em 2020. Têm o direito de conhecer as razões por que o país optou pela cobertura mínima ao aderir ao Covax Facility. São decisões que hoje colocam o Brasil em 58º lugar no ranking mundial de imunização por milhão de habitantes.
Os brasileiros que não veem a hora de respirar aliviados com a superação da crise sanitária também desejam descobrir se houve malversação de verba federal e compreender os motivos pelos quais, após tantas provas em contrário, governantes insistem em defender tratamentos não apenas ineficazes contra a Covid, mas também perigosos. Apenas no Espírito Santo, de acordo com levantamento de A Gazeta, pelo menos 15 prefeituras ainda adotam o chamado Kit-Covid, recheado de medicações sem eficácia para o coronavírus.
A crise sanitária é avassaladora por si só, mas ações e omissões do poder público têm transformado a pandemia em um suplício ainda mais profundo. Enquanto a maioria dos governadores e prefeitos, além de parlamentares de diversas esferas, reúnem esforços para superar a tragédia, há líderes políticos que não se preocupam nem em ser um exemplo de poder, nem investem no poder do exemplo. Bem conduzida, a CPI da Covid terá o condão de encaminhar os responsáveis pelo agravamento da crise às penalizações devidas e mostrar que, mesmo que não haja caminho único para fora crise, há algumas rotas que obviamente levam à perdição e que não podem ser mais admitidas.

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