Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 14:49
A remuneração inicial no mercado formal de trabalho alcançou em dezembro o maior patamar da história para o mês, em meio a dificuldades de empregadores para atrair e reter funcionários e à alta do salário mínimo.>
O valor médio de admissão com carteira no Brasil cresceu 2,5% acima da inflação no mês retrasado ante mesmo período de 2024, a R$ 2.304, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego.>
Os números foram levantados pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4Intelligence, que aponta que o movimento é generalizado, mas mais perceptível nos empregos de baixos salários, necessidade de presença física e de menor qualificação.>
São vagas que, cada vez mais, concorrem com a atratividade percebida pelos jovens em ocupações sem carteira, flexibilidade e remuneração imediata maior, como entregadores e motoristas de aplicativos.>
>
Os hipermercados, por exemplo, que estão entre os maiores empregadores do país, ofereceram em dezembro um salário inicial médio de R$ 1.932, alta de 5,8% acima da inflação ante mesmo mês de 2024.>
Tanto os bares quanto os restaurantes, que também estão entre os maiores empregadores do país, pagaram um salário inicial médio de R$ 1.880. No primeiro caso, o valor representa um aumento real de 4,4% ante dezembro de 2024, e no segundo a alta é de 3,7% na mesma comparação.>
No segmento de construção de edifícios, o valor médio de contratação em dezembro ficou em R$ 2.340, aumento real de 1%. Nos quatro casos citados, foram os maiores salários iniciais já registrados para meses de dezembro da série histórica, iniciada em 2007.>
Os dados comparam o resultado de cada mês em relação ao mesmo período de anos anteriores por conta da sazonalidade do mercado de trabalho.>
"O mercado de trabalho está aquecido, com o desemprego na mínima histórica e a taxa de rotatividade em patamar recorde. Para algumas posições, se há escassez de mão de obra, a forma de reter trabalhadores é elevar salários", aponta Imaizumi.>
O especialista em mercado de trabalho lembra que a carteira assinada passou a enfrentar competição de vagas com maior flexibilidade e salários mais altos. "Há outras alternativas onde é possível tirar mais dinheiro, como fazer entregas no final de semana, serviços de delivery e transporte por aplicativos.">
Há também uma questão geracional, diz Imaizumi. "As novas gerações estão entrando no mercado de trabalho mais escolarizadas. Quem tem uma educação melhor vai ser mais resistente a fazer esforço físico na construção civil ou ser doméstica, por exemplo.">
A tendência foi capturada pela última Sondagem de Escassez de Mão de Obra do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), realizada entre outubro e novembro de 2025 com 3.763 empresas.>
A pesquisa mostra que 18,9% daquelas que relatam dificuldades para contratar e reter funcionários aumentaram salários, percentual que era de 13,7% no ano anterior.>
Entre as ouvidas, 36,2% afirmaram ainda que ampliaram a concessão de benefícios (eram 32,4% na mesma pesquisa realizada no final de 2024).>
"As empresas que mais informaram aumento de salários foram as de construção; hiper e supermercados e mercearias; produção de vestuário; produção de produtos farmacêuticos e serviços de alojamento", aponta Rodolpho Tobler, economista do FGV Ibre.>
O levantamento registra que 62,3% das empresas ouvidas têm dificuldades em contratar e reter mão de obra, contra 58,7% no mesmo levantamento feito no ano passado.>
"Estamos vendo uma mudança no mercado de trabalho. As ocupações com maior necessidade de alta de salário são aquelas que competem com outras possibilidades, que vieram com a digitalização da economia, e com os benefícios sociais", diz Tobler.>
Imaizumi, da 4Intelligence, lembra que o aumento da remuneração também está relacionado à expansão real do salário mínimo. Entre 2019, ano anterior à pandemia, e este ano, o valor teve crescimento de 62,4%, para uma inflação que avançou 45% no mesmo período.>
"O salário mínimo é o balizador para a maior parte das posições no mercado formal. Se ele cresce acima da inflação, como vem acontecendo, os salários também sobem", aponta.>
Denise de Freitas, gerente de Recursos Humanos do Roldão Atacadista, afirma que a rotatividade sempre foi um desafio, e que a principal dificuldade da rede, que possui cerca de 4,5 mil funcionários, é reter mão de obra.>
O Roldão optou, no ano passado, por aumentar o salário de contratação dos açougueiros que trabalham nas lojas, além de flexibilizar a jornada de trabalho de todas as ocupações, de sete horas diárias de trabalho para seis horas. A escala adotada é a 6x1.>
"Antes exigíamos o segundo grau completo, agora investimos na formação interna, com programas de estágio. Também contratamos trabalhadores 50+ para fazer inclusão e ampliar ao máximo as possibilidades", diz.>
No dia a dia, a rede sente a competição com vagas autônomas ou de salários mais altos.>
"Estamos vivendo o pleno emprego e a concorrência de vagas de autônomos. Muitos funcionários comemoram a flexibilização da jornada, pois assim conseguem trabalhar em outros empregos", afirma Freitas.>
A dificuldade de contratação vem levando empresas do varejo a flexibilizarem a escala 6x1, entre outros incentivos, como forma de tentar reter funcionários --o movimento ocorre em meio a discussões sobre o fim do modelo no Brasil. O projeto sobre o tema é uma das prioridades do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso.>
A Cobasi, por exemplo, passou a oferecer o segundo domingo de folga no mês --por lei, quem trabalha no comércio deve folgar ao menos um domingo.>
Daqui para a frente, a expectativa é que o mercado de trabalho continue em expansão, mas a taxas mais modestas de crescimento.>
"Deve haver uma alta mais alinhada com o crescimento econômico menos robusto do que observamos nos últimos anos", diz Imaizumi.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta