A falta de mão de obra é um dos maiores desafios enfrentados pela economia brasileira. Tornou-se, sem a menor sombra de dúvida, uma grande barreira para a expansão dos negócios. A questão é democrática, pega todos os segmentos da economia. Diante da situação, o comando da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) encomendou uma análise do tema ao Observatório da Indústria. "Temos um problema que é real, multifatorial e atinge a economia como um todo. Não existe solução rápida e simples, mas é possível avançar", afirmou a economista Suiani Febroni, gerente de Inteligência de Dados e Pesquisas do Observatório Findes.
A análise parte de três premissas: novas tendências do mundo do trabalho, economia aquecida (conjuntural) e os problemas estruturais, que estão no cenário há tempos, mas se sobressaem com a economia aquecida.
Tendências:
"Estamos no meio de uma revolução tecnológica e o modo de enxergar o trabalho mudou completamente. Temos, em paralelo, um declínio das habilidades tradicionais e a necessidade de um forte processo de requalificação. Não é algo simples. As plataformas digitais impulsionaram a chamada 'gig economy', que também chamamos de 'economia do bico', por causa das relações menos sólidas. O fato é que há uma concorrência com a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). É um debate que precisa ser feito, a digitalização impôs o tema para a sociedade. Governo, empresariado, sindicatos, Justiça, Congresso... enfim, todos os envolvidos precisam sentar e discutir sobre. É preciso encontrar um reequilíbrio, afinal, as formas de se acessar o mercado de trabalho mudaram profunda e rapidamente nos últimos anos", explica Suiani Febroni.
Conjuntura:
"A taxa de desemprego, no Espírito Santo, está em 2,6%. Mínima histórica. Os últimos anos, de 2021 para cá, têm sido de crescimento do PIB, aumento de massa salarial e mais emprego. Pode se questionar o método da medida - temos, por exemplo, 6,1% de subutilização da força de trabalho (o potencial de quem se dispõe a trabalhar não está completamente utilizado) -, mas o fato é que há um aquecimento. Importante lembrar que a população brasileira está envelhecendo rapidamente, muita gente saiu do mercado, se aposentou. Poderiam estar no mercado? É uma questão que precisa ser aprofundada. Temos outras. Hoje, 1,3 milhão de pessoas estão fora do mercado de trabalho no Espírito Santo, sendo que 49 mil são desalentados (estão em idade de trabalhar, mas desistiram de procurar). Grande parte desse contingente é formado por idosos, mulheres e jovens. É importante olhar para este público e entender porque não estão trabalhando. Muitos não irão voltar para o mercado, pelos mais diversos motivos, mas temos milhares de pessoas que poderiam retornar. Hoje, são 19 milhões de subutilizados no mercado de trabalho, no país, e 183 mil, no Espírito Santo. Olhamos também para a questão dos benefícios sociais: 15,7% dos que estão fora da força de trabalho, no Espírito Santo, têm algum membro da família que recebe Bolsa Família. Mais da metade dos que recebem o benefício (55%) busca emprego. Portanto, tem algum impacto, mas não é determinante", disse a economista.
Questões estruturais:
"Temos barreiras importantes de inserção, principalmente em se tratando de determinados grupos. O desemprego entre os jovens é três vezes maior do que a média. O desemprego das mulheres é duas vezes maior que o dos homens. Temos que olhar isso, os motivos desses grupos terem mais dificuldade para entrar no mercado mesmo com a demanda em alta. Outra questão é a qualificação. Nas últimas décadas, tivemos aumento na quantidade de anos na escola, mas falta qualidade. O Pisa (avaliação internacional da educação feita pela OCDE) mostra isso. São milhares de analfabetos funcionais, o desafio é enorme lá na base", assinalou.
O que fazer?
"O Brasil, e não estou falando apenas de governos, mas da sociedade, precisa entregar uma melhor qualificação: técnica e de base. Precisa mudar e mudar rápido. As novas formas de trabalhar, introduzidas pelas plataformas digitais, precisam ser consideradas, inclusive dentro das empresas. O que fazer para atrair esse trabalhador? Um contingente enorme de trabalhadores está ali, portanto, a flexibilização é um desafio que precisa ser enfrentado. Os jovens e os idosos também precisam de um olhar. São vários os fatores que parecem estar distantes, mas que, no final das contas, se encontram", finalizou a gerente de Inteligência de Dados e Pesquisas do Observatório Findes.
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