O risco fiscal voltou ao centro das conversas no mundo todo. E não é por acaso. Projeções recentes do Congressional Budget Office (CBO) mostram que os Estados Unidos devem continuar gastando mais do que arrecadam nos próximos anos, o que aumenta o tamanho da dívida. Na prática, isso significa que o governo está pagando mais juros para se financiar.
Estudos do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, mostram que a alta recente dos juros de longo prazo não se explica apenas pela inflação, mas também pela preocupação com déficits futuros e pelo aumento na emissão de títulos da dívida. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), em relatório recente, reforçou que o cenário das contas públicas tem pressionado os juros longos em vários países. Quando os investidores passam a exigir uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo, os juros para prazos de 10, 20 ou 30 anos sobem junto.
Isso não é um detalhe técnico sem importância. Juros de longo prazo mais altos mexem diretamente com a economia do dia a dia. Na Bolsa, eles aumentam a referência usada para calcular o valor das empresas, o que normalmente reduz os preços das ações, especialmente os das companhias vistas como de maior crescimento. No mercado de crédito, fica mais caro para as empresas renegociarem ou renovarem suas dívidas, o que pode apertar o caixa. A gestora Nuveen chamou atenção recentemente para o grande volume de dívidas corporativas que vencerão nos próximos anos, um cenário que se torna mais delicado quando os juros estão altos.
No mercado imobiliário, o efeito é rápido. Quando os títulos públicos passam a pagar mais, quem investe em imóveis também passa a exigir um retorno maior. Se o governo oferece juros mais altos com baixo risco, o investidor só aceita colocar dinheiro em imóveis se a conta for mais atraente. Isso acaba pressionando os preços ou deixando as negociações mais lentas. É por isso que, mesmo quando o banco central começa a cortar os juros de curto prazo, o financiamento imobiliário pode continuar caro e difícil de conseguir.
No Brasil, a discussão segue a mesma linha. Relatórios da Fitch indicam que o país pode continuar gastando mais do que arrecada em 2026, o que mantém os juros de longo prazo mais altos. O Banco Central já sinalizou cortes na Selic, mas isso não significa que os juros mais longos vão cair na mesma velocidade. Se o mercado enxergar problemas nas contas públicas, essas taxas tendem a continuar pressionadas.
Para o cidadão comum, isso significa crédito mais caro, financiamento imobiliário mais difícil e empresas mais cautelosas na hora de investir. O risco fiscal deixou de ser um debate distante em Brasília ou Washington. Ele aparece na parcela do apartamento, na taxa do empréstimo consignado e no preço das ações.
A mensagem é clara: enquanto os governos não mostrarem um plano consistente para controlar a dívida, os juros de longo prazo continuarão refletindo a desconfiança do mercado. E quando esses juros sobem, toda a economia acaba sentindo os efeitos.
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