As guerras frequentemente nos parecem algo afastado do nosso dia a dia. Contudo, em um mundo interconectado, um conflito no Oriente Médio pode impactar diretamente a economia e o bolso dos brasileiros, e já estamos testemunhando isso com o aumento das tensões militares envolvendo o Irã.
O primeiro reflexo desse conflito é visível no preço do petróleo. Desde que as hostilidades começaram, as cotações internacionais dispararam, evidenciando o receio de interrupções no fornecimento global. Na segunda-feira (9), o preço do barril ultrapassou a marcante barreira dos US$ 100 — a primeira vez em mais de três anos e meio —, principalmente em virtude das tensões no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais cruciais do mundo, responsável por cerca de 20% de todo o petróleo transportado.
Quando o preço do petróleo aumenta, seu impacto se propaga rapidamente por toda a economia. Aqui no Brasil, a primeira consequência que sentimos é no preço dos combustíveis nas bombas. Economistas alertam que a grande preocupação do momento é exatamente essa alta nos preços do petróleo e do gás, que pode resultar em um choque inflacionário, mesmo que por um período curto.
A lógica é simples: gasolina e diesel mais caros aumentam o custo do transporte. E, num país onde a maior parte da logística depende de caminhões, o frete funciona como um multiplicador de preços. Se os preços dos combustíveis sobem, o impacto chega ao supermercado, ao material de construção e até ao preço de uma corrida por aplicativo.
A guerra possui a capacidade de impactar a inflação no Brasil de maneira significativa. Economistas projetam que o conflito pode aumentar o índice oficial de preços (IPCA) em até 0,9 ponto percentual, principalmente devido à elevação nos preços do petróleo.
Além disso, há um impacto indireto que afeta nossa economia. Quando a inflação aumenta, o Banco Central pode se ver na necessidade de manter as taxas de juros elevadas por um período mais longo. O resultado? O crédito se torna mais caro, obter financiamentos fica mais complicado e a capacidade de consumo das famílias diminui. Não é à toa que muitos membros da equipe econômica já reconhecem que essa crise pode mudar as expectativas sobre a possibilidade de uma diminuição nas taxas de juros no país.
O agronegócio brasileiro está de olho na crise com um misto de cautela e preocupação. Isso porque nossa agricultura depende fortemente de fertilizantes que vêm do Oriente Médio. Se houver problemas logísticos nessa região, os custos dos insumos agrícolas podem disparar, o que provavelmente fará os preços dos alimentos subirem ainda mais. É uma situação que exige atenção, pois o impacto pode ser sentido tanto no campo quanto na mesa do consumidor.
Para investidores, o cenário costuma trazer volatilidade. Empresas de petróleo e energia tendem a se beneficiar da valorização da commodity, enquanto setores intensivos em combustível, como aviação e transporte, enfrentam custos maiores.
No fim das contas, a guerra revela uma verdade incômoda da economia moderna: os conflitos geopolíticos não ficam restritos ao campo militar. Eles atravessam mercados, cadeias produtivas e políticas monetárias. E, muitas vezes, terminam no lugar mais sensível de todos: o orçamento das famílias.
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