Delegado de carreira e deputado estadual há menos de dois anos, Lorenzo Pazolini (Republicanos) chega à Prefeitura de Vitória, com o poder delegado soberanamente pelo povo da Capital, com méritos pessoais e políticos. O primeiro mérito, na verdade, vem a ser um feito histórico que precisa ser devidamente sublinhado: está é a primeira vez, desde a redemocratização do país, em meados dos anos 1980, que os eleitores de Vitória escolhem um prefeito com posição política de direita (e assim posicionado quando foi eleito), conforme bem destacado pelo colega Leonel Ximenes. O próprio Pazolini já se declarou assim, respondendo a uma pergunta direta minha, na Assembleia. É, declaradamente, o perfil político dele.
O segundo grande mérito que é preciso atribuir a Pazolini é o da resiliência e da resistência. Verdade seja dita: o candidato do Republicanos (partido também de direita) foi bombardeado por adversários durante toda a campanha eleitoral. No 1º turno, quem centrou fogo nele foi Fabrício Gandini (Cidadania). O candidato do prefeito Luciano Rezende buscou intensamente associá-lo a Marcos Madureira (efetivamente, suplente de Pazolini na Assembleia), a José Carlos Gratz e até a uma “ameaça de retorno do crime organizado” ao Estado. Não deu certo do ponto de vista eleitoral. Gandini ficou no 1º turno.
Já no 2º turno, não tanto diretamente por parte de Coser, mas da militância de esquerda na cidade, houve uma campanha maciça, especialmente nas redes sociais, para desenhar Pazolini como representante do bolsonarismo nessa disputa local em Vitória (em tudo o que essa ideologia tem de pior), uma pecha que Pazolini jamais aceitou, não obstante sua relação política com alguns célebres apoiadores e parceiros políticos do presidente Bolsonaro, de fama até nacional.
Tanto nos debates como nas sabatinas e entrevistas, o discurso de Pazolini sempre foi outro: o de que não estava nem um pouco interessado em levar a eleição em Vitória para esse terreno da disputa ideológica, o de que isso em nada acrescentava para o debate técnico necessário para se solucionar os problemas concretos da cidade e o de que ele mesmo, como candidato a prefeito, estava muito mais preocupado em discutir propostas.
Não se espera menos do prefeito eleito, uma vez que assuma o cargo. Quanto mais Pazolini se focar no que realmente importa e no enfrentamento técnico das questões, mais chances ele terá de exercer um mandato bem-sucedido. Quanto mais ele trouxer para dentro de sua gestão (ou deixar que tragam por ele) uma agenda de costumes e de fundamentalismo religioso embebida em ideologia de direita (ou extrema-direita), menos chances de êxito terá a sua administração.
Uma vez no cargo, o deputado de 38 anos não pode ceder à tentação de incorporar o que não aceitou que "fizessem dele" durante essa campanha eleitoral: sua “bolsonarização”.
Não será inteligente nem mesmo por pragmatismo político. O antipetismo no Estado, está provado, continua muito forte. Mas a vitória de Pazolini não se traduz necessariamente como um “sim” a Bolsonaro por parte dos eleitores de Vitória, tampouco como um endosso ou aprovação ao governo do presidente. Essa eleição não foi plebiscitária. A rejeição a Bolsonaro continua altíssima entre a maior parte dos eleitores de Vitória.
O COMPROMISSO COM A BOA TÉCNICA
Claro, houve trocas de farpas entre Pazolini e Coser, acusações mútuas envolvendo suposto uso de fake news e, nos bastidores, uma intensa guerra de liminares travada entre as campanhas. Faz parte do jogo e, mesmo nos debates mais duros, estes não caíram na baixaria, como em outros promovidos, por exemplo, entre candidatos de outros municípios, na série A Gazeta/CBN.
No horário eleitoral em particular, especialmente na televisão, Pazolini fez uma campanha limpa, bonita, vibrante e propositiva, marcada por críticas à atual administração. Desde o 1º turno, colocou em 1º plano a sua agora vice-prefeita eleita, a Capitã Estéfane, também do Republicanos, para realçar subliminarmente o seu compromisso com a “igualdade” (ao lado da "paz", um dos dois pilares de sua vitoriosa campanha): um homem branco criado em Jardim da Penha com uma mulher negra vinda da Grande São Pedro. Casou bem.
Ao longo de toda essa empreitada, principalmente no 2º turno, Pazolini bateu muito numa tecla que tem a ver com a sua própria história, sempre repetida por ele, com a biografia de quem prestou e passou em alguns concursos públicos muito concorridos até chegar aonde chegou: o primado da meritocracia. Afirmou e reafirmou seu compromisso em montar sua equipe de governo com base em critérios técnicos, priorizando sempre o currículo e a comprovada competência do quadro para exercer a função, em detrimento da apadrinhamentos, compadrio político e favorecimento de aliados.
É assim mesmo que deve ser, e Pazolini deverá cumprir esse compromisso (lembrando que, para chegar aqui, ele contou com muitos aliados, alguns ingressos no 2º turno para reforçar a sua campanha; outros atuando tão somente nos bastidores e evitando a exposição da figura).
ELE E CASAGRANDE PRECISAM BATER UMA D.R.
Um último compromisso que espera-se que Pazolini cumpra (e a primeira fala dele após a vitória deu uma ótima indicação nesse sentido) é o de evitar brigas inócuas, dialogar com todas as forças políticas e governar sempre pensando no interesse maior da cidade, ou seja, no que é melhor para os munícipes. “Dialogar com todos” inclui, é claro, o governador Renato Casagrande (PSB), bem como representantes do seu governo (muitos dos quais fizeram campanha aberta a favor de Coser).
Nesses seus dois anos como deputado estadual, coincidentes com o primeiro biênio do atual governo Casagrande, Pazolini (ao lado de Vandinho Leite e Capitão Assumção) foi uma das maiores pedras no sapato do governador na Assembleia, votando quase sempre contra os projetos mais importantes enviados pelo Palácio Anchieta.
No episódio da “visita surpresa ao Dório Silva”, em 12 de junho, o governo Casagrande o trata oficialmente como “invasor” e pediu ao MPES a instauração de inquérito, efetivamente aberto, a fim de apurar possíveis crimes praticados no ato por ele e pelos demais deputados que dele tomaram parte.
A partir de 1º de janeiro de 2021, Pazolini e Casagrande não precisarão se tornar amigos, tomar cafezinho juntos nem descascar abacaxis em dupla.
Mas Vitória já testemunhou, num passado político bem recente, o quanto a própria cidade é punida quando governador e prefeito passam o tempo todo às turras e não têm nenhuma ponte para um mínimo diálogo institucional.
Ambos são homens públicos (um bem mais experimentado que o outro), devem mostrar espírito idem e, para o bem da Capital do Estado, deverão encontrar um meio para estabelecer essa ponte e construir uma parceria institucional que dê frutos bons e vistosos, em benefício da população de Vitória. A mesma que acaba de consagrar nas urnas a Lorenzo Pazolini, delegando o poder (mas não todo o poder) ao delegado.