Eleito governador do Espírito Santo com mais de 52% dos
votos válidos, o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Rep) tem dois grandes
desafios políticos a partir desta segunda-feira (26).
O primeiro é estabelecer uma boa ponte institucional com o
governo Lula. O principal, Pazolini conseguiu: obviamente, a própria eleição (a
quarta seguida, num intervalo de oito anos, numa trajetória meteórica e, até
agora, invicta). Mas um “detalhe grandão” destoou do “plano” traçado por ele e
por seus estrategistas de campanha: a virada histórica do presidente Lula sobre
Flávio Bolsonaro (PL), com 4,3 milhões de votos de vantagem, na eleição
presidencial.
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Aliado ao PL desde o primeiro turno, Pazolini fez campanha com e para o filho ungido por Jair Bolsonaro, notadamente no segundo turno. Em mais de uma entrevista, chegou a se dizer muito convicto da vitória dele. Selando indiscutivelmente a aliança, na primeira semana do segundo turno, foi a Brasília para o anúncio da união nacional de seu partido, o Republicanos, com o PL. Fez fotos e vídeos com Flávio. Investiu numa campanha casada. Por toda a Grande Vitória, espocaram os wind banners de Pazolini ao lado de Flávio.
Na apoteose desse samba (ou forró, ou música sertaneja), o ex-prefeito de Vitória protagonizou com Flávio o grandioso ato de campanha na orla de Camburi, o “Bloquinho 22”, realizado no último dia 17, com dezenas de milhares de pessoas.
Então, como é que fica agora? Como será construída a relação
com o governo do PT para garantir os recursos federais de que o Estado
necessita???
Arrisco-me aqui a responder, com base em minhas próprias
impressões e nos importantes sinais já emitidos pelo próprio Pazolini em suas primeiras entrevistas exclusivas à TV Gazeta e à CBN Vitória, na manhã deste day-after: sem grandes dificuldades.
Pazolini apoiou e foi apoiado por Flávio e pelo PL? Sim! Foi, sob qualquer ângulo, “o candidato do bolsonarismo” a governador do Espírito Santo? Sem dúvida! Mas é, ele mesmo, um “bolsonarista” assim declarado? Não.
Terá, como governador, o apoio de alguns radicais de extrema-direita? Sim! É, ele
próprio, um radical de extrema-direita? Não.
É importante frisar inclusive que, não obstante a mais-que-conveniente
aliança eleitoral com o PL, Pazolini jamais sequer assumiu a pecha de “bolsonarista”.
Esquivou-se desse rótulo. Eu mesmo, em sabatina no primeiro turno, cheguei a
lhe perguntar diretamente: “És bolsonarista?” Escolhendo bem as palavras, ele
não respondeu que sim.
Pelo estilo pragmático de Pazolini, provado na Prefeitura de Vitória, não duvido que ele buscará abrir um bom canal de diálogo com a União. A meu ver, tende a seguir o estilo de Tarcísio de Freitas, seu correligionário no Republicanos e governador reeleito de São Paulo.
Apesar de ter apoiado Flávio, o governante do maior estado do país mantém uma boa e cordial relação com o governo do PT e, pessoalmente, com o próprio Lula. Uma relação civilizada. No debate final da Rede Globo, os dois se cumprimentaram amistosamente nos bastidores, segundo relato da colunista e apresentadora Andréia Sadi. É disso que o Brasil prescisa!
Aliás, sintomaticamente, Tarcísio já tratou de se afastar de Flávio e do clã... Não se posicionou ao lado dele na absurda coletiva de imprensa do não reconhecimento do resultado das urnas (choro de mau perdedor e afloramento do DNA antidemocrático da família, tão bem maquiado e disfarçado pelo marketing ao longo de toda a campanha...).
Apesar de ter fechado bastante com Flávio no segundo turno, Pazolini, a exemplo de Tarcísio, manteve discurso de “direita moderada” a campanha inteira. Jamais fez críticas diretas ao governo Lula e ao PT – ao contrário, por exemplo, do próprio Ricardo Ferraço, que “bateu” em Helder Salomão, associando o governo lulista ao escândalo Master e tachando o candidato do PT como “defensor de invasões de terras”.
Ao menos como candidato, Pazolini não explodiu ponte alguma.
E já deu um sinal importante sem suas duas primeiras entrevistas à Rede Gazeta
nesta segunda-feira, ao Bom Dia ES e à CBN Vitória. Disse que buscará o diálogo
com todos, inclusive com o governo Lula. E que a eleição acabou (reconhecendo,
assim, a vitória do atual presidente e afastando-se de qualquer teoria ou
tentativa de Flávio de esticar a corda e melar o jogo eleitoral).
Arrisco-me até a “profetizar” que, nos próximos meses (ou anos), nem mesmo voltaremos a ver Pazolini fisicamente perfilado com Flávio ou com qualquer Bolsonaro. Na política nacional, sua referência há de ser Tarcísio.
A eleição de 2026 acabou. Democraticamente, Pazolini sabe disso. E também sabe que, para triunfar, precisará minimamente de uma boa abertura também com o Governo Federal.
É de fato o que se espera do governador eleito, priorizando-se o interesse maior da população capixaba.
Ninguém espera que, da noite para o dia, ele vire um governador Pazula.
Mas a relação RRR (respeitosa, republicana e de resultados) será, também, fundamental para o sucesso do governo Pazolini.
E talvez (ou mais que “talvez”), para conseguir estabelecer essa boa ponte com o governo Lula, o governo Pazolini também precisará cultivar uma relação RRR com o R final desta análise: o de Renato Casagrande (PSB).
Governador do Espírito Santo por quase 12 anos no total, o socialista voltará ao Senado a partir de fevereiro de 2027, como aliado do governo Lula/Alckmin e interlocutor privilegiado do Palácio do Planalto.
Com todo o R de respeito, os dois outros senadores da bancada, Magno Malta (PL) e Evair de Melo (Republicanos), ambos aliados de Pazolini, fizeram oposição ferrenha ao atual governo. Não hão de ter trânsito algum com o próximo governo. Muito provavelmente, estarão na oposição.
Deixamos aqui só uma pimenta... Mas é assunto para uma próxima análise. .
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