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Derrota eleitoral de Ricardo é revés histórico para Casagrande

O revés de Ricardo nas urnas é também – ou é, antes de tudo – uma derrota para Casagrande. E não creio exagerar ao acrescentar aqui o adjetivo: uma derrota histórica

Publicado em 26 de Outubro de 2026 às 05:00

Públicado em 

26 out 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Renato Casagrande e Ricardo Ferraço
Renato Casagrande e Ricardo Ferraço Cid Gomes/Governo ES

A vida de todo homem público é feita de vitórias e derrotas. Quase todo político já perdeu e ganhou eleições, principalmente quando se trata de líderes com uma longa trajetória, como é o caso de Renato Casagrande (PSB). O próprio ex-governador já disputou dez eleições, para deputado estadual, federal, vice-governador, senador (duas vezes) e governador do Espírito Santo (cinco vezes). Ganhou oito, inclusive a mais recente, para senador; perdeu duas.


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Houve vitórias bem marcantes. A maior delas foi, possivelmente, a última para governador, na qual, com muito esforço, Casagrande derrotou o bolsonarismo representado por Manato (PL) num estado onde Jair Bolsonaro recebeu 58% dos votos válidos, tornando-se o único governador do campo progressista e aliado de Lula (PT) eleito nas regiões Sul e Sudeste do país naquele pleito.


Houve também uma derrota marcante. Não a de 1998: em sua primeira candidatura ao Palácio Anchieta, Casagrande concorreu como azarão. Em 2014, porém, como candidato à reeleição e com máquina estadual nas mãos, amargou uma dolorosa derrota diante de Paulo Hartung, no primeiro turno, no único confronto direto dos arquirrivais nas urnas.


Agora, pela primeira vez desde 2006, Casagrande não foi candidato a governador. Mas, indiretamente, disputou o Palácio Anchieta, isto é, disputou a permanência de seu grupo político no Governo do Estado, com o apoio total dado por ele a Ricardo Ferraço (MDB). Não deu certo. 


Neste domingo, o sucessor de Casagrande no cargo foi derrotado pelo desafiante e candidato de oposição, Lorenzo Pazolini (Republicanos)... o maior opositor de Casagrande na política local desde 2019.


O revés de Ricardo nas urnas é também – ou é, antes de tudo – uma derrota para Casagrande. 


E não creio exagerar ao acrescentar aqui o adjetivo: uma derrota histórica. Quiçá, politicamente, uma derrota até mais doída que aquela sofrida em 2014. Solidariamente, Casagrande também perdeu neste domingo. Seu projeto também foi derrotado.


Governador por três mandatos (totalizando quase 12 anos) e com o nome já gravado na história política capixaba, Casagrande não foi só o maior cabo eleitoral de Ricardo. Foi, antes de tudo, o patrono e fiador político da candidatura do aliado. Foi ele quem apostou em Ricardo como seu sucessor.


Ainda sentado na cadeira de governador, foi Casagrande quem decidiu que seria Ricardo o candidato apoiado por ele e o representante de seu grupo na disputa com Lorenzo Pazolini, mesmo tendo à mesa alternativas, algumas delas citadas por ele próprio entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. Que o diga Arnaldinho Borgo (PSDB).


O prefeito de Vila Velha fez de tudo para convencer Casagrande a escolhê-lo, defendendo por meses, publicamente, a tese de que pesquisas qualitativas mostravam a busca do eleitor capixaba por uma mudança de ciclo geracional e por um candidato com o perfil de jovem conservador nos costumes, popular nas redes sociais e já testado como gestor... Como ele. Como Pazolini.  


Casagrande confiou no seu plano e acreditou até o fim na força do seu governo para garantir a continuidade do seu grupo no poder. Quando digo “a força do seu governo”, quero dizer que ele apostou na sua ampla cartela de entregas e realizações, em múltiplas frentes, nos bons resultados e nos ótimos indicadores efetivamente alcançados pelo governo nos últimos oito anos, em áreas como economia, solidez fiscal, qualidade do ensino, redução de homicídios, mobilidade urbana e capacidade de investimentos com recursos próprios, especialmente em infraestrutura.


Os capixabas se libertaram do pedágio da Terceira Ponte. Voltaram a usar o aquaviário. Ano após anos, veem a taxa de assassinatos despencar. A cada edição do Ideb, permanecemos no pódio. O desemprego é baixíssimo. Grandes empresas não param de chegar. O PIB e a indústria crescem acima da média nacional. O Cais das Artes foi entregue. Fundo Soberano, Fundo Cidades. Investimentos nos municípios da Grande Vitória e do interior.


Não se pode negar a qualidade do portfólio.


E foi na força do próprio portfólio que Casagrande apostou. Também apostou no argumento de que Ricardo, como sócio do projeto, era o candidato talhado para garantir a “continuidade com segurança” e o aprimoramento das “transformações”. E apostou na sua própria capacidade de transferir para seu escolhido sua popularidade e a ótima avaliação com que terminou seu terceiro governo, ao renunciar em abril e passar a faixa para Ricardo.


Tudo isso foi insuficiente.


Como não poderia deixar de ser, Casagrande mergulhou de cabeça na campanha de Ricardo. Rodou o Espírito Santo com ele. No primeiro programa de TV e rádio de Ricardo, no horário eleitoral, exibido no fim de agosto, Casagrande apareceu antes do próprio candidato e se revezou com ele no ar.


Já no segundo turno, após o susto que foi o resultado do primeiro para o QG da situação – com a quase vitória antecipada de Pazolini –, Casagrande, já eleito senador, passou a se concentrar ainda mais, e de maneira exclusiva, na campanha de Ricardo, dedicando-se full time às articulações e atividades.


Além das muitas atividades de rua (carreatas, caminhadas), com Ricardo e prefeitos aliados na Grande Vitória, foram dezenas de posts pedindo votos para o aliado. Casagrande foi o maior eleitor de Ricardo.


Mas a maioria dos outros eleitores do Espírito Santo preferiu votar em outra direção.


Com a ajuda de Casagrande, Ricardo tirou um pedaço considerável da vantagem de mais de 15 pontos percentuais estabelecida por Pazolini sobre ele no primeiro turno. Cresceu muito e encurtou a diferença. Ultrapassou a marca de 1 milhão de votos. Ganhou mais que o triplo de votos ganhos pelo adversário do primeiro para o segundo turno. No fim das contas, perdeu por menos de 100 mil votos.


Foi uma reação louvável, digna de nota. Ricardo perdeu com dignidade. Assim também, por extensão, Casagrande. Não foi uma derrota acachapante, muito menos desmoralizante.


Mas, pragmaticamente, uma derrota é uma derrota... não importa o tamanho da diferença. O próximo governador, a partir de janeiro, será um só: o vencedor da disputa. E esse é Lorenzo Pazolini.


Com perdão pelo trocadilho, Casagrande, fazendo jus ao nome, é, de fato, grande como homem público na história do Espírito Santo. E, como dizia seu jingle de campanha, “acabou nada”. Arrisco-me até a dizer que, com Lula reeleito e ele agora retornando ao Senado, o líder estadual do PSB poderá até cumprir papel destacado no Congresso e/ou no próximo governo Lula.


Primeiro porque Casagrande é um dos maiores e mais respeitados líderes nacionais do PSB, partido do vice-presidente reeleito, Geraldo Alckmin, e um dos mais importantes (aliás, um dos poucos) na vitoriosa coligação lulista.


Segundo porque, como disse o próprio Casagrande em entrevista logo após ter sido eleito senador no último 4, ele é “um sobrevivente”. 


Num Senado extremamente hostil, com amplo predomínio de uma direita bolsonarista possivelmente sequiosa por revanche a partir de fevereiro, Lula terá uma minoria formada por poucos aliados de verdade com quem possa contar, com lealdade e experiência política suficientes para cuidar da articulação política, enfrentar ou conter investidas da majoritária oposição.


Quando o governo Lula olhar para sua bancada aliada no próximo Senado, verá poucos aliados talhados o bastante para isso... Casagrande na certa será um deles.


Dito isso, Casagrande pode ser grande... Mas “sua casa”, a do governador, a Residência Oficial da Praia da Costa, a partir de janeiro, será ocupada pelo ascendente político de oposição que foi a pedra no seu sapato nos últimos oito anos.


Esse, o tamanho da derrota. 

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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