A vida de todo homem público é feita de vitórias e derrotas.
Quase todo político já perdeu e ganhou eleições, principalmente quando se trata
de líderes com uma longa trajetória, como é o caso de Renato Casagrande (PSB).
O próprio ex-governador já disputou dez eleições, para deputado estadual,
federal, vice-governador, senador (duas vezes) e governador do Espírito Santo
(cinco vezes). Ganhou oito, inclusive a mais recente, para senador; perdeu duas.
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Houve vitórias bem marcantes. A maior delas foi,
possivelmente, a última para governador, na qual, com muito esforço, Casagrande
derrotou o bolsonarismo representado por Manato (PL) num estado onde Jair
Bolsonaro recebeu 58% dos votos válidos, tornando-se o único governador do
campo progressista e aliado de Lula (PT) eleito nas regiões Sul e Sudeste do
país naquele pleito.
Houve também uma derrota marcante. Não a de 1998: em sua
primeira candidatura ao Palácio Anchieta, Casagrande concorreu como azarão. Em
2014, porém, como candidato à reeleição e com máquina estadual nas mãos, amargou
uma dolorosa derrota diante de Paulo Hartung, no primeiro turno, no único
confronto direto dos arquirrivais nas urnas.
Agora, pela primeira vez desde 2006, Casagrande não foi candidato a governador. Mas, indiretamente, disputou o Palácio Anchieta, isto é, disputou a permanência de seu grupo político no Governo do Estado, com o apoio total dado por ele a Ricardo Ferraço (MDB). Não deu certo.
Neste domingo,
o sucessor de Casagrande no cargo foi derrotado pelo desafiante e candidato de
oposição, Lorenzo Pazolini (Republicanos)... o maior opositor de Casagrande na
política local desde 2019.
O revés de Ricardo nas urnas é também – ou é, antes de tudo – uma derrota para Casagrande.
E não creio exagerar ao acrescentar aqui o
adjetivo: uma derrota histórica. Quiçá, politicamente, uma derrota até mais
doída que aquela sofrida em 2014. Solidariamente, Casagrande também perdeu
neste domingo. Seu projeto também foi derrotado.
Governador por três mandatos (totalizando quase 12 anos) e
com o nome já gravado na história política capixaba, Casagrande não foi só o
maior cabo eleitoral de Ricardo. Foi, antes de tudo, o patrono e fiador
político da candidatura do aliado. Foi ele quem apostou em Ricardo como seu
sucessor.
Ainda sentado na cadeira de governador, foi Casagrande quem
decidiu que seria Ricardo o candidato apoiado por ele e o representante de seu
grupo na disputa com Lorenzo Pazolini, mesmo tendo à mesa alternativas, algumas
delas citadas por ele próprio entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. Que o
diga Arnaldinho Borgo (PSDB).
O prefeito de Vila Velha fez de tudo para convencer Casagrande
a escolhê-lo, defendendo por meses, publicamente, a tese de que pesquisas
qualitativas mostravam a busca do eleitor capixaba por uma mudança de ciclo
geracional e por um candidato com o perfil de jovem conservador nos costumes,
popular nas redes sociais e já testado como gestor... Como ele. Como Pazolini.
Casagrande confiou no seu plano e acreditou até o fim na
força do seu governo para garantir a continuidade do seu grupo no poder. Quando
digo “a força do seu governo”, quero dizer que ele apostou na sua ampla cartela
de entregas e realizações, em múltiplas frentes, nos bons resultados e nos ótimos
indicadores efetivamente alcançados pelo governo nos últimos oito anos, em
áreas como economia, solidez fiscal, qualidade do ensino, redução de
homicídios, mobilidade urbana e capacidade de investimentos com recursos
próprios, especialmente em infraestrutura.
Os capixabas se libertaram do pedágio da Terceira Ponte.
Voltaram a usar o aquaviário. Ano após anos, veem a taxa de assassinatos
despencar. A cada edição do Ideb, permanecemos no pódio. O desemprego é
baixíssimo. Grandes empresas não param de chegar. O PIB e a indústria crescem
acima da média nacional. O Cais das Artes foi entregue. Fundo Soberano, Fundo
Cidades. Investimentos nos municípios da Grande Vitória e do interior.
Não se pode negar a qualidade do portfólio.
E foi na força do próprio portfólio que Casagrande apostou.
Também apostou no argumento de que Ricardo, como sócio do projeto, era o candidato
talhado para garantir a “continuidade com segurança” e o aprimoramento das “transformações”.
E apostou na sua própria capacidade de transferir para seu escolhido sua
popularidade e a ótima avaliação com que terminou seu terceiro governo, ao
renunciar em abril e passar a faixa para Ricardo.
Tudo isso foi insuficiente.
Como não poderia deixar de ser, Casagrande mergulhou de
cabeça na campanha de Ricardo. Rodou o Espírito Santo com ele. No primeiro programa
de TV e rádio de Ricardo, no horário eleitoral, exibido no fim de agosto,
Casagrande apareceu antes do próprio candidato e se revezou com ele no ar.
Já no segundo turno, após o susto que foi o resultado do
primeiro para o QG da situação – com a quase vitória antecipada de Pazolini –,
Casagrande, já eleito senador, passou a se concentrar ainda mais, e de maneira
exclusiva, na campanha de Ricardo, dedicando-se full time às articulações e atividades.
Além das muitas atividades de rua (carreatas, caminhadas),
com Ricardo e prefeitos aliados na Grande Vitória, foram dezenas de posts pedindo votos para o aliado.
Casagrande foi o maior eleitor de Ricardo.
Mas a maioria dos outros eleitores do Espírito Santo
preferiu votar em outra direção.
Com a ajuda de Casagrande, Ricardo tirou um pedaço
considerável da vantagem de mais de 15 pontos percentuais estabelecida por
Pazolini sobre ele no primeiro turno. Cresceu muito e encurtou a diferença. Ultrapassou
a marca de 1 milhão de votos. Ganhou mais que o triplo de votos ganhos pelo
adversário do primeiro para o segundo turno. No fim das contas, perdeu por
menos de 100 mil votos.
Foi uma reação louvável, digna de nota. Ricardo perdeu com
dignidade. Assim também, por extensão, Casagrande. Não foi uma derrota
acachapante, muito menos desmoralizante.
Mas, pragmaticamente, uma derrota é uma derrota... não
importa o tamanho da diferença. O próximo governador, a partir de janeiro, será
um só: o vencedor da disputa. E esse é Lorenzo Pazolini.
Com perdão pelo trocadilho,
Casagrande, fazendo jus ao nome, é, de fato, grande como homem público na
história do Espírito Santo. E, como dizia seu jingle de campanha, “acabou nada”.
Arrisco-me até a dizer que, com Lula reeleito e ele agora retornando ao Senado,
o líder estadual do PSB poderá até cumprir papel destacado no Congresso e/ou no
próximo governo Lula.
Primeiro porque Casagrande é um dos maiores e mais
respeitados líderes nacionais do PSB, partido do vice-presidente reeleito,
Geraldo Alckmin, e um dos mais importantes (aliás, um dos poucos) na vitoriosa
coligação lulista.
Segundo porque, como disse o próprio Casagrande em entrevista logo após ter sido eleito senador no último 4, ele é “um sobrevivente”.
Num Senado
extremamente hostil, com amplo predomínio de uma direita bolsonarista possivelmente
sequiosa por revanche a partir de fevereiro, Lula terá uma minoria formada por poucos aliados de
verdade com quem possa contar, com lealdade e experiência política suficientes para
cuidar da articulação política, enfrentar ou conter investidas da majoritária
oposição.
Quando o governo Lula olhar para sua bancada aliada no
próximo Senado, verá poucos aliados talhados o bastante para isso... Casagrande
na certa será um deles.
Dito isso, Casagrande pode ser grande... Mas “sua casa”, a
do governador, a Residência Oficial da Praia da Costa, a partir de janeiro,
será ocupada pelo ascendente político de oposição que foi a pedra no seu sapato
nos últimos oito anos.
Esse, o tamanho da derrota.
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