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Vitor Vogas

Bombas fiscais: próximo governador terá R$ 650 milhões a menos sob seu controle

Quem quer que seja eleito governador do Espírito Santo neste domingo (25), terá pela frente duas “bombas fiscais” recém-aprovadas pela Assembleia Legislativa. Entenda tudo aqui

Publicado em 24 de Outubro de 2026 às 05:00

Públicado em 

24 out 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Sessão no plenário da Assembleia Legislativa Tati Beling/Ales

Quem quer que seja eleito governador do Espírito Santo neste domingo (25), terá pela frente duas “bombas fiscais” recém-aprovadas pela Assembleia Legislativa. Na prática, duas medidas aprovadas às pressas pelos deputados estaduais, somadas, retiram do chefe do Poder Executivo o controle sobre cerca de R$ 650 milhões do próprio orçamento estadual.


A receita total estimada pelo atual governo para o próximo ano é de R$ 35,4 bilhões. Esses R$ 650 milhões correspondem a quase 2% do orçamento inteiro. Equivalem a tudo o que foi reservado para a Secretaria de Agricultura e para a Secretaria de Cultura em 2027, incluindo investimentos, custeio, folha de pagamento... tudo.

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Os R$ 650 milhões que o governo terá de remanejar combinam, de um lado, o aumento de gastos obrigatórios com pagamento de emendas parlamentares (mais R$ 345 milhões); do outro, a elevação do orçamento destinado aos demais Poderes e órgãos estaduais (mais cerca de R$ 300 milhões).


A primeira medida é a emenda à Constituição Estadual, aprovada no último dia 13 e promulgada no dia seguinte pelo presidente da Assembleia, Marcelo Santos, estabelecendo o pagamento impositivo das emendas dos deputados ao orçamento público estadual.


Na prática, o governo agora está obrigado a executar, integralmente, as emendas individuais incluídas pelos parlamentares no orçamento. Isso já vale para o Projeto de Lei Orçamentária Anual que tramita na Assembleia desde 29 de setembro e que será executado no ano que vem, primeiro ano de mandato do governador eleito.


A nova Emenda Constitucional também determina um percentual fixo para as emendas impositivas dos deputados: 1,55% da Receita Corrente Líquida (RCL) do ano anterior. Levando em conta a RCL apurada em 2025, os deputados terão, já no próximo orçamento, um total de R$ 435 milhões em emendas (mais ou menos R$ 14,5 milhões para cada um).


É aqui que encontramos o primeiro gap: o projeto orçamentário enviado à Casa de Leis pelo governo Ricardo Ferraço só previa R$ 90 milhões para essa finalidade, com base em acordo anterior entre Palácio Anchieta e Assembleia. O dinheiro ficaria alocado em uma “reserva técnica” vinculada à própria Secretaria de Estado de Economia e Planejamento (SEP), responsável por elaborar o orçamento.


Agora, ainda sem saber exatamente de onde tirar ou remanejar, o governo terá de transformar esses R$ 90 milhões inicialmente previstos em R$ 435 milhões. A diferença é de R$ 345 milhões.


Uma emenda aditiva à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), aprovada pelos deputados na última quarta-feira (21), estabelece uma “solução” – na prática, irreal para o caso imediato. O texto diz que o governo deveria fazer constar, no projeto de lei orçamentária, uma “reserva específica” para a cobertura das emendas impositivas.


Tal “reserva específica” não existe: obviamente não foi prevista, pois a peça orçamentária foi enviada em setembro, duas semanas antes da aprovação da PEC que criou as emendas impositivas e quase quintuplicou o montante, com efeitos imediatos.


Na mesma emenda aditiva ao texto da LDO, os deputados estabeleceram uma “solução alternativa” altamente preocupante, na avaliação do colunista: remanejar parte dos recursos da reserva de contingência do Estado.


No projeto orçamentário mandado à Assembleia pelo governo, o valor dessa reserva é de, precisamente, R$ 668,8 milhões. A priori, pode-se concluir que os R$ 345 milhões que faltam para garantir a execução das emendas serão remanejados daí, “comendo”, assim, mais da metade da reserva de contingência.


Acontece o seguinte: como o nome técnico sugere, a “reserva de contingência” existe para que o governo possa fazer frente a... contingências. E o que são “contingências”? Aí você pode escolher: epidemias, pandemias, desastres naturais provocados por eventos climáticos extremos...


Trata-se de uma parte do orçamento (até 2% da receita estimada para o ano seguinte) guardada e separada pelo governo para usar “em caso de necessidade”, “como fonte de recursos para abertura de créditos adicionais, [...] para o atendimento de passivos contingentes e outros riscos e eventos fiscais imprevistos, [...], bem como de situações de emergência e calamidades públicas” (conforme o texto da LDO).


A conclusão incontornável: no limite, mais da metade dos recursos estaduais que deveriam ser reservados para fazer frente a “calamidades públicas” poderão ser revertidos para o pagamento de emendas parlamentares em 2027.  

Mudança no cálculo do duodécimo dos outros Poderes

A segunda bomba fiscal, que se soma à primeira, está em outra emenda aditiva aprovada pelos deputados, no afogadilho, na última quarta-feira (21), durante a votação da LDO: a importantíssima emenda que, basicamente, muda a forma de se calcular o orçamento de cada um dos outros Poderes e instituições estaduais autônomas com direito a uma fatia da receita total do Estado.


São cinco, para ser preciso: a própria Assembleia, o Tribunal de Justiça do ES, o Ministério Público do ES, o Tribunal de Contas do Estado e a Defensoria Pública Estadual. Cada um deles tem direito constitucional a um pedaço do orçamento, repassado mensalmente pelo Poder Executivo (que elabora, arrecada, administra e executa o orçamento estadual).


Cada um dos cinco entes elabora o próprio orçamento (definindo como será gasta a sua parte). Mas o montante total a ser repassado a cada um costuma ser definido antes pelo Governo do Estado, em negociação com os chefes dos outros Poderes. Ou costumava.


Pela regra anterior, vigente até este ano, a fatia correspondente a cada um dos outros Poderes correspondia à inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, mais um acréscimo de 2,5%. A Assembleia acabou com isso, instituindo um novo cálculo na emenda à LDO e determinando percentuais fixos para cada um, com base na receita corrente líquida do Estado (RCL).


A partir dessa mudança, os percentuais ficaram assim definidos:


. TJES: 6,131% da RCL

. MPES: 2,456% da RCL

. Assembleia: 1,281% da RCL

. TCES: 1,017% da RCL

. Defensoria Pública: 0,75% da RCL


Noves fora, pelos cálculos iniciais do governo (e de um economista independente consultado pela coluna), o orçamento dos demais Poderes, somados, poderá ser até cerca de R$ 300 milhões maior em 2027 do que o previsto inicialmente no projeto orçamentário elaborado e já enviado pelo governo. Esse é o segundo gap.


Basicamente, a diferença entre a proposta original e o texto aprovado é a seguinte:


1. Proposta original: utilizava como referência os valores da LOA 2026, atualizados pelo IPCA de 4,64% mais 2,5%, totalizando um reajuste de 7,14%. Isso resultaria em um limite de R$ 3,203 bilhões para 2027.


2. Emenda aprovada: substituiu essa regra por percentuais fixos para cada órgão, que somam 11,635% da Receita Corrente Líquida (RCL). Aplicando esse percentual sobre a RCL efetivamente apurada entre julho de 2025 e junho de 2026 (R$ 30,126 bilhões), chegamos a R$ 3,505 bilhões.


3. Impacto da mudança: a diferença entre os dois critérios é de aproximadamente R$ 300 milhões.


Agora, os cinco outros Poderes terão até dez dias úteis, após a publicação da LDO (que ainda carece de sanção do governador Ricardo Ferraço), para que cada órgão público possa realizar “os ajustes necessários em suas respectivas propostas orçamentárias para o exercício financeiro de 2027”, tendo como base os novos critérios de cálculo.


Mas, de novo: o projeto de lei orçamentária anual foi feito de outra maneira, considerando os critérios anteriormente previstos no projeto da LDO enviado pelo governo em abril (e agora modificados pela Assembleia). Esses R$ 300 milhões a mais terão de sair de algum lugar, de alguma(s) secretaria(s), de algum investimento voluntário inicialmente previsto, de algum convênio com município (no singular ou no plural).


De onde sairão esses cerca de R$ 650 milhões? Qual será a fonte do recurso? Eis as perguntas que, no momento, estão tirando o sono dos técnicos do Governo do Estado. 

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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