Quando as poeiras do processo eleitoral finalmente baixam e os números das urnas confirmam vencedores e vencidos, o costume social sugere um suspiro de alívio ou o encerramento do debate. Contudo, o resultado das urnas não sepulta as revelações sombrias que emergiram ao longo dos últimos meses.
Diante do fervor da caminhada eleitoral, assistimos a uma inversão estarrecedora dos valores humanos basilares. O espetáculo da disputa política, contaminado por uma polarização predatória, não apenas expôs divergências ideológicas, mas permitiu que o tecido da convivência democrática fosse rasgado pela intolerância, pela desumanização e pela barbárie.
Inobstante quem assume os postos de poder, o legado mais perturbador desse período é o de um processo profundamente violador. A arena pública foi convertida em um campo de batalha no qual a alteridade deixou de ser um princípio de diálogo para se tornar o inimigo a ser aniquilado.
Sob o pretexto de defender causas morais ou bandeiras políticas, a sociedade viu diluídos os limites éticos do discurso. Amizades foram rompidas por dogmatismo, laços familiares desfizeram-se na intransigência e o debate público foi empobrecido até o nível do insulto sistemático e da propagação deliberada do ódio.
As fissuras dessa estrutura polarizada permitiram escapar o que de mais nefasto habita a condição humana: a covardia disfarçada de engajamento e a crueldade justificativa em nome de uma suposta virtude.
O problema central que agora se impõe não se limita aos ritos institucionais do Estado, mas reside na essência da nossa vida comunitária. O que fizeram com a nossa sensatez? Onde foi soterrada a capacidade de discordar sem violentar, de dialogar sem demonizar, de ponderar sem capitular para o extremismo?
Ao permitir que o ecossistema político absorvesse toda a nossa dimensão ética, rebaixamos a convivência cívica a uma constante lógica de beligerância. Um país não se constrói nem se sustenta apenas com decretos ou vitórias eleitorais. Constrói-se na coesão moral de seus cidadãos.
A superação deste cenário exige um diagnóstico honesto e sem condescendências.
Precisamos, como corpo social, reconhecer a profundidade dos danos causados pela barbárie eleitoral.
O encerramento do pleito deve marcar o início da reconstrução dos afetos e do discernimento coletivo. É urgente resgatar a sensatez do viver comum, ancorando-nos novamente em princípios inegociáveis: a dignidade da pessoa humana, o respeito à pluralidade, a moderação e a disposição de escutar o outro.
Se não formos capazes de restaurar o pacto ético e humanitário que nos une enquanto nação, o custo dessa divisão ultrapassará ciclos eleitorais e condenará o futuro da própria coletividade.