Duas peculiaridades tornam a eleição para governador neste
domingo (25) histórica para o Espírito Santo e fazem do Estado um caso à parte
dentro da federação.
Em primeiro lugar, o Espírito Santo é a única das 27
unidades federadas que só elegeu dois governadores diferentes neste século. Só
dois: Paulo Hartung e Renato Casagrande. Entre 2002 e 2022, foram realizadas
seis eleições diretas para governador. Hartung foi eleito três vezes e
Casagrande foi eleito as outras três. Então, desde 1998, com a vitória de José
Ignácio Ferreira, os capixabas não elegem um governador que não seja ou Hartung
ou Casagrande.
Estamos falando, portanto, do fim de um ciclo de 24 anos, um
quarto de século, de revezamento desses dois líderes locais no Palácio
Anchieta.
A rigor, nós já temos desde abril um novo governador, Ricardo
Ferraço (MDB), que era vice-governador de Casagrande. Em abril, este renunciou
para poder disputar uma vaga no Senado, tendo sido eleito no último dia 4 como
o senador mais votado do Espírito Santo. Com a renúncia de Casagrande, Ricardo assumiu
o Governo do Estado, é o atual governador e agora disputa a reeleição.
Mas o ponto é o seguinte: essa é a primeira vez neste século
que os capixabas vão escolher, pelas urnas, um governador que não Casagrande ou
Hartung. Só por isso, já podemos dizer que temos um caso sui generis no país.
O segundo ponto é o seguinte: Ricardo Ferraço, do MDB,
disputa agora o segundo turno contra o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo
Pazolini, filiado ao Republicanos. Um dos dois será o governador eleito neste
domingo. E, cada um a seu modo, os dois podem ser considerados políticos de
direita.
Ricardo é declaradamente um homem público de centro-direita
e, de fato, o perfil e a história política dele confirmam isso. Já Pazolini
está posicionado no campo da direita conservadora. O partido dele é o conservador
Republicanos. O PL é o aliado mais importante na coligação de Pazolini, desde o
primeiro turno.
O ex-prefeito de Vitória inclusive apoia e é apoiado pelo
presidenciável Flávio Bolsonaro. No último dia 17, na Praia de Camburi, ao lado
do próprio Flávio num trio elétrico de campanha, Pazolini exaltou “a união da
direita” capixaba.
Enfim, estamos diante de dois candidatos situados do lado
direito do mapa político-ideológico.
Por que isso é relevante? Porque essa é outra escrita histórica
que será quebrada neste domingo em terras capixabas.
Por incrível que pareça, desde a primeira eleição direta
para governador, nos estertores da ditadura civil-militar, em 1982, os
capixabas nunca elegeram um governador declaradamente de direita.
Desde então, foram realizados 11 pleitos, com sete
governadores eleitos: Gerson Camata (PMDB), Max Mauro (PMDB), Albuíno Azeredo
(PDT), Vitor Buaiz (PT), José Ignácio (PSDB), Hartung (PSB e PMDB) e Casagrande
(PSB). Nenhum deles era assumidamente de direita.
O próprio Paulo Hartung foi eleito pelo PSB e depois pelo MDB.
Casagrande é um homem de centro-esquerda e é o líder maior do Partido
Socialista Brasileiro no Espírito Santo. Alguns nomes dessa lista, é claro,
tinham traços de direita em seu perfil e em seu governo. Hartung e Casagrande
governaram com forças de direita.
Camata, antes de chegar ao governo, foi filiado à Arena e
tinha características pessoais conservadoras. Mas elegeu-se pelo PMDB, partido
de oposição à ditadura, em aliança com forças de esquerda. Quem mais se
aproximou da direita, ideologicamente, foi José Ignácio, que no Senado, por um
breve período, no início dos anos 1990, chegou a ser líder de Collor. Mas
governou pelo socialdemocrata PSDB. Foi deputado cassado pela ditadura e
opositor do regime como presidente da OAB-ES.
Nenhum deles, enfim, preenche todas as casinhas de um
autêntico “político de direita”.
Essa constatação é, de certo modo, um paradoxo, pois nos
últimos anos, de 2014 para cá, o Espírito Santo tem se consolidado como um
colégio eleitoral mais conservador. Deu uma ampla votação para Jair Bolsonaro
para presidente nas últimas duas eleições, em 2018 e 2022. Mas, nesses mesmos
dois pleitos, elegeu e reelegeu Casagrande.
Agora, então, pela primeira vez desde a redemocratização, o Espírito Santo elegerá um governador que se declara de direita ou de centro-direita.
É isso.
Leia mais colunas de Vitor Vogas