O secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes, é hoje, possivelmente, o segundo nome do governo Casagrande mais conhecido pela população capixaba, atrás somente do próprio governador. Até por conta das frequentes entrevistas coletivas relacionadas à pandemia do novo coronavírus, faz um ano que ele está continuamente em evidência na mídia local. Conforme já reconhecemos aqui, tem se destacado positivamente pelo trabalho técnico, transparente e em geral muito correto à frente da Sesa na gestão da crise sanitária. Mas Nésio não é só um técnico.
Filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), esse médico catarinense também tem militância política. Pelo mesmo partido, chegou a disputar, sem sucesso, um mandato de deputado estadual em 2018 por Tocantins, Estado onde trabalhava antes de receber de Casagrande o convite para comandar a Sesa. Nas eleições municipais do ano passado, entrou de cabeça na campanha de João Coser (PT), no 2º turno da disputa pela Prefeitura de Vitória, declarando e pedindo votos para o ex-prefeito (derrotado por Lorenzo Pazolini).
Por essa soma de fatores, não seria de espantar se Nésio resolvesse lançar candidatura a deputado estadual ou federal pelo Espírito Santo no ano que vem, dentro do movimento político-eleitoral liderado pelo governador. Ao contrário: seria até certo ponto “natural”, até porque Casagrande há de querer eleger o maior número possível de aliados em cargos parlamentares.
Nésio, porém, é taxativo: “em hipótese alguma” será candidato a um mandato pelo Espírito Santo em 2022. Foi o que ele afirmou na última quinta-feira (4), durante entrevista ao vivo ao podcast Papo de Colunista. Instado a responder sobre possível candidatura, ele rechaçou essa ideia, evocando o “estatuto de convidado”:
“De maneira muito sincera, eu estou aqui [no Espírito Santo] como convidado, entendeu? E eu tenho um respeito muito grande pelo estatuto de convidado. Eu recebi, pela Assembleia Legislativa, o título de ‘cidadão capixaba’, com poucos meses aqui no Espírito Santo. E o grau de dedicação que a gente tem ao Estado é uma dedicação de vida e de sangue. No entanto, não passa pela minha cabeça disputar eleições, em hipótese alguma, no próximo ano.”
O fato de não cogitar candidatura não significa que o secretário não esteja pensando politicamente, tampouco que não pretenda se envolver nas próximas eleições estaduais, muito pelo contrário. Nésio indica estar absolutamente integrado ao projeto político de Casagrande, o qual passa pela permanência no Palácio Anchieta por mais quatro anos. Entende, contudo, que pode ser “muito mais útil” a tal projeto contribuindo de outras maneiras, inclusive como cabo eleitoral.
“Eu acho que posso ser útil para o projeto liderado pelo Renato ajudando todo mundo, pedindo votos a todos os candidatos que forem do nosso campo, ajudando a reeleição dele, entregando muitas políticas qualificadas para o povo capixaba e garantindo que essas entregas se transformem num grande substrato político para a reeleição do projeto avançado que nós representamos. Mas em hipótese alguma me considero em condições de poder disputar cargos eletivos pelo Espírito Santo. Eu estou aqui para ser útil, para poder dedicar a minha vida a esse projeto liderado pelo Renato.”
O secretário completa:
“Seria uma ousadia precipitada, uma ousadia boba minha neste momento pensar em estratégias eleitorais, e sim quero ser útil para todo mundo. Acho que posso ser muito mais útil pedindo votos para todo mundo que o Renato quiser que eu peça votos, apoiando o projeto, tentando coesionar o Estado, do que me envolvendo em campanhas eleitorais que, neste momento, com toda a sinceridade, é a última tese que passa na minha cabeça.”
“SOLDADO DE RENATO”
Como se pode ver, Nésio não deixa de estar pensando estrategicamente. De suas palavras podemos depreender que, em não sendo candidato, ele considera que a melhor “ajuda eleitoral” que pode dar a Casagrande é exatamente como secretário. Fazendo uma boa gestão na Sesa (ainda mais neste período tão crítico), ele ajuda a melhorar a percepção do eleitorado sobre o governo Casagrande em geral. Consequentemente, ajuda o governador a se reeleger.
As declarações de Nésio também são reveladoras da extrema lealdade política desenvolvida pelo secretário em relação a Casagrande. Em pouco mais de dois anos trabalhando sob suas ordens, ele visivelmente se tornou um “soldado de Renato”, disposto a “dedicar a vida a esse projeto liderado por ele”.
A própria maneira como Nésio se refere em terceira pessoa ao governador, pelo prenome, denota sua proximidade até pessoal com ele. Para quem não é do meio político: o nome completo é José Renato Casagrande, mas todos os aliados do governador só o chamam de Renato.
“DIVERGÊNCIA” E “POLÊMICA”
Por fim, Nésio faz uma ponderação muito importante sobre por que, na sua opinião, uma candidatura sua seria um erro “para o Renato”:
“Eu acho que seria um erro, para o Renato, qualquer candidatura minha neste momento porque de fato seria um ponto de divergência e um ponto de polêmica. E, sinceramente, estou aqui para poder ajudar o povo capixaba, ajudar o Renato e ajudar todo mundo que for necessário para acumular forças pelo projeto que a gente representa.”
A reflexão de Nésio é particularmente interessante pelo momento em que foi feita (um dia após a notícia de que o PSB estuda lançar a candidatura de Casagrande à Presidência da República). Essa informação, inclusive, foi citada na formulação da pergunta que fiz ao secretário no Papo de Colunista sobre eventual candidatura sua. É evidente que Nésio não quis traçar nenhum paralelo com a situação do governador. Mas sua ponderação “dialoga” com a que fiz aqui, horas antes da entrevista:
Nésio entende que uma candidatura dele seria um “ponto de divergência” e de “polêmica”, pela posição que ele ocupa e, principalmente, pelo contexto que vivemos, no qual as ações da Sesa relativas à pandemia já são crivadas de críticas ideologicamente enviesadas por parte de adversários políticos do governo.
Ora, raciocínio semelhante se aplica, conforme argumentamos aqui, à publicização da ideia cultivada por dirigentes do PSB de lançar Casagrande à Presidência, que chega em péssimo timing: além de dar margem a ataques de opositores, é uma especulação que também gera “divergência” e “polêmica”, num momento que exige coesão e foco total na administração do Estado e na superação da pandemia.
RÁPIDA 1
Mais à esquerda que o PSB de Casagrande, o PCdoB, em uma análise macro, pertence ao mesmo campo do partido do governador (o que Nésio chama de “nosso campo”): aquele que vai do centro à esquerda. Para apear Bolsonaro do poder, Casagrande defende a união de todas essas forças em uma frente ampla e ainda mais elástica, incluindo partidos de centro-direita. A ideia é um “todos contra um”, para arrancar do Planalto a erva daninha que se apoderou do país.
Na eleição estadual, Casagrande quer reproduzir essa frente ampla.
RÁPIDA 2
É curioso notar como, menos de 24 horas após Casagrande admitir que o PSB nacional trabalha seu nome para a Presidência, Nésio fala literalmente em “ajudar a reeleição dele”. Dias antes, em conversa sob sigilo com o colunista, outro membro do staff do governo cometeu um ato falho, também antecipando a “reeleição do Renato”.
Só podemos concluir que a cúpula nacional do PSB pode até ter jogado a carta com o nome de Casagrande na mesa de discussões sobre a Presidência, mas aqui, com os pés no chão, os membros do próprio governo apostam mesmo é na sua reeleição.
RÁPIDA 3
Não custa nada voltar a se fazer essa pergunta para Nésio em 2022. Hoje ele pode até dizer que não será candidato em hipótese alguma. Mas o próprio Casagrande poderá tentar convencê-lo (para eleger mais um aliado), assim como o próprio partido de Nésio.
Maior em outras unidades federadas, o PCdoB é muito pequeno no Espírito Santo e nunca elegeu um deputado federal pelo Estado. Também lotado no governo Casagrande (Detran), Givaldo Vieira chegou a exercer parte de seu único mandato (2015-2018) na Câmara dos Deputados pelo PCdoB, mas não entra nesse recorte, pois se elegeu em 2014 pelo PT.