Arnaldinho, Max Filho e o "terceiro turno" da eleição em Vila Velha
Rivalidade cimentada
Arnaldinho, Max Filho e o "terceiro turno" da eleição em Vila Velha
Diferentemente de outras cidades da Grande Vitória, transição foi muito tensa em Vila Velha, não houve pacificação na posse e pelo jeito não haverá tão cedo. Elencamos uma série de evidências de que essa briga vai longe...
Arnaldinho Borgo e Max Filho durante debate promovido por A GazetaCrédito: Fernando Madeira
Em Vila Velha, destoando das cidades vizinhas na Grande Vitória, o clima político no momento passa longe, muito longe, daquele clima de “a eleição ficou no passado, agora vamos todos virar a página e nos dar as mãos pelo bem da cidade”. Nada disso. Ali a eleição não acabou. E, ao que parece, tão cedo não há de acabar.
Numa espécie de extensão da agressiva disputa do 2º turno entre Arnaldinho Borgo (o vencedor) e Max Filho (o vencido), a cidade vive um 3º turno não exatamente da eleição (vencida com todos os méritos pelo primeiro, que já está empossado etc.), mas da briga entre os dois adversários, cujas desavenças atravessaram todo o mês de transição e já adentram esse início de administração de Arnaldinho. Os dois podem até virar a página eleitoral, mas só se for para escrever novas páginas de um duelo que pode ganhar vários volumes.
Na mesma entrevista, Arnaldinho afirmou que a sua gestão será próxima da Câmara de Vila Velha e permitirá o diálogo, algo que, segundo dele, Max Filho não fez: “Os vereadores vão encontrar um prefeito que foi vereador durante oito anos e que vai dar a eles a oportunidade de dialogar com a administração e de ter portas abertas, o que eu, enquanto vereador, não tive da antiga gestão”.
Na verdade, no dia 1 de governo de Arnaldino, as provocações começaram cedo (bem cedo), antes mesmo de ele ser empossado. Por volta das 5 horas, quando o sol estava nascendo, o novo prefeito esteve no calçadão de Itapoã e da Praia da Costa, para acompanhar pessoalmente o trabalho de varrição da equipe de garis. Em um vídeo postado por ele, “recebendo” e conversando com banhistas, Arnaldinho disparou: “Vila Velha agora tem prefeito”. Em um meme de campanha, Arnaldinho apareceu ele mesmo empunhando uma vassourinha para “limpar” Vila Velha de Max Filho e Neucimar Fraga (presente na posse).
DÍVIDA HERDADA
Logo após a posse e sua primeira reunião com o secretariado, na noite de sexta (1º), em conversa com esta coluna, Arnaldinho explicou algumas de suas primeiras medidas. Ao explicar a decisão de auditar todos os contratos herdados, ressaltou a dívida que diz ter herdado do antecessor:
“Vamos auditar todos os contratos existentes na Prefeitura de Vila Velha, para a gente verificar se o preço está condizente com os preços de mercado, para a gente saber se há necessidade daquele contrato na cidade… E vamos auditar a folha de pagamento. Faremos isso porque estamos herdando uma dívida muito grande, um volume muito grande de restos a pagar. E a gente quer dar austeridade à cidade de Vila Velha. [...] Todos os contratos serão reavaliados, inclusive os preços praticados em cada um deles.”
Segundo Arnaldinho, até 2019, a dívida consolidada é de R$ 24,5 milhões. “E ainda falta consolidar 2020. Eu acredito que a dívida total de restos a pagar deixada pela administração anterior chegue a R$ 40 milhões.”
Disse Arnaldinho à coluna, na sexta à noite: “Todos os secretários já têm um dever de casa, para começar. Inclusive, a secretária de Saúde já está visitando as unidades. Foi visitar o hospital em Cobilândia, que estava impossibilitado de abrir, porque a administração passada não deixou o plantão dos médicos nesses dias e mandou todos os comissionados embora e, assim, um serviço essencial está sendo penalizado por um erro, uma imprudência da administração passada.”
“TERRA ARRASADA”
A medida foi tomada por Max, por meio de decreto, no dia 18 de dezembro. Para justificá-la, em nota, a prefeitura alegou que o ato é rotina durante as trocas de governo, “comum na alternância de poder e natural na democracia”. Disse, ainda, que a medida visou facilitar e “deixar à vontade o prefeito eleito, como já anunciado por ele, para a escolha dos seus novos auxiliares”.
A verdade, porém, é que a praxe é bem diferente e que semelhante medida está longe de ser “comum” ou “rotineira”. Ao contrário do que diz a nota, prefeitos que estão prestes a encerrar o mandato normalmente deixam que o sucessor exonere os comissionados “herdados” da gestão anterior, a fim de impedir que haja descontinuidade brusca na prestação dos serviços e paralisia da máquina pública. O próprio Max, quando reassumiu o cargo em 1º de janeiro de 2017, encontrou lá todos os mais de 800 comissionados deixados por Rodney Miranda.
Atípica como foi, a medida pelo jeito foi tomada por Max com o fígado, o que deixa muito claro que, entre ele e Arnaldinho, o ressentimento hoje é mútuo, assim como a inclinação absolutamente nula de ambos a desfraldar a bandeira de paz. O ato lembrou a tática de “terra arrasada” empregada pelos russos contra as tropas de Napoleão Bonaparte, a exemplo de tantos exércitos em outras tantas batalhas ao longo da história: incendiar todo o terreno após a retirada, para prejudicar ao máximo a passagem do inimigo.
Antes da campanha, Arnaldinho passou os últimos quatro anos praticando uma oposição renhida a Max da tribuna da Câmara de Vila Velha. Em sessões plenárias e entrevistas a esta coluna em 2019, quando já preparava a candidatura, fez afirmações como “Vila Velha hoje é um mar de lama” e “Max não sabe o que é trabalhar com planejamento”. Já durante a campanha, em debates, deu declarações como “A cidade está abandonada” e “Nada funciona em Vila Velha”.
A impressão que dá é que Max, muito mordido com essas falas, resolveu chutar o balde como a dizer: “Ah, é?!? ‘Nada funciona em Vila Velha’? Então me deixe ajudá-lo: você vai assumir com quase nada funcionando em Vila Velha. Fez parecer fácil. Vamos ver como se sai…”
Na sequência final de perguntas mais pessoais (um questionário mais descontraído), perguntamos a Arnaldinho com quem ele não gostaria de ficar preso num elevador jamais. Sem hesitar, ele respondeu: “Max Filho!” Nem Pazolini, nem Euclério, nem Vidigal… Nenhum outro prefeito eleito respondeu a essa pergunta em nossa série, muito menos citando um adversário.
Lembrando declarações duras de Arnaldinho e algumas críticas generalizadas dele à gestão de Max (“Nada funciona” etc.), perguntei-lhe se, passado o calor da eleição, ele teria algum mérito e/ou acerto a reconhecer em Max. Citei que, nove dias antes, Pazolini estivera ali conosco e citara a Guarda Municipal de Vila Velha como uma referência a ser perseguida por ele em Vitória. Recusando-se a admitir qualquer mérito ou virtude no adversário, Arnaldinho limitou-se a enaltecer o trabalho dos valorosos servidores da Prefeitura de Vila Velha, aos quais, segundo ele, devem ser dados todos os créditos.
Em outro momento da entrevista, Arnaldinho também chegou muito perto de tripudiar de Max: “Ele agora não é nada”, afirmou, querendo dizer que, a partir de 1º de janeiro, Max ficará sem exercer mandato algum.
RED BULL OU “RAGING BULL”?
A transição entre Max e Arnaldinho também foi bastante conturbada. Enquanto Pazolini, por exemplo, ligou para João Coser e Luciano Rezende no dia seguinte à vitória, Arnaldinho não procurou Max e vice-versa: os dois passaram a transição inteira sem se falar.
Em Cariacica, Euclério Sampaio (DEM) repete “união” a cada dez palavras que diz e, embora seja declaradamente de direita, chegou a nomear secretários mais ligados à esquerda.
Em Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), em seu discurso de posse na última sexta-feira (1º), tal como vem fazendo desde a sua vitória em novembro, destacou que a eleição acabou e que “não há vencedores e vencidos”, acenando inclusive para a oposição e para o grupo do seu antecessor.
Na Serra, em discurso quase simultâneo, Sérgio Vidigal (PDT) seguiu linha idêntica, buscando dissipar a poeira eleitoral e adotando como mote a união de todas as forças políticas da cidade.
A diferença
Vitor Vogas
LEIA MAIS SOBRE O INÍCIO DOS MANDATOS DOS PREFEITOS NO ES
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo