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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Mad Max versus Arnaldinho Cyborgo: debate final de Vila Velha foi uma luta épica

No que foi de longe o debate mais violento do 2° turno na Grande Vitória, Max Filho e Arnaldinho trocaram acusações e ataques. Max buscou desconstruir a ideia de “novo” em Arnaldinho, enquanto este procurou desconstruir a atual gestão

Publicado em 26/11/2020 às 22h10
Atualizado em 26/11/2020 às 23h01
"Mad Max" versus "Arnaldinho Cyborgo": o debate final do 2º turno de Vila Velha foi um embate épico. Crédito: Amarildo

Só não teve luta corporal. O chão do estúdio tremeu, o nervosismo era palpável no ar e as barreiras de acrílico que separavam os dois candidatos, por cuidado sanitário, por pouco não trincaram. O mediador, Geraldo Nascimento, se viu durante quase todo o tempo praticamente na condição de um juiz, posicionado entre os dois lutadores (e também separado de ambos pela barreira de proteção, que, nesse caso, foi duplamente bem-vinda).

O último e mais aguardado debate da série promovida por A Gazeta, em parceria com a Rádio CBN Vitória, não decepcionou nem um pouco, para quem gosta de assistir de camarote a uma boa batalha eleitoral.

No debate final e mais importante do 2º turno em Vila Velha, o prefeito Max Filho (PSDB) e seu desafiante, Arnaldinho Borgo (Podemos), incorporaram, respectivamente, os personagens Mad Max e Arnaldinho Cyborgo, e o espetáculo oferecido ao público foi como o de um bom filme de combate e ação, após a exibição de “O Óleo de Lorenzo”, na segunda (com Lorenzo Pazolini “escorregando” de algumas perguntas) e “O Homem que Não Estava Lá” na quarta-feira (Audifax Barcelos, presente mesmo na ausência física).

O debate entre Max e Arnaldinho foi a erupção do vulcão, a explosão da escalada de tensão em que os dois já vinham ao longo da campanha. Para se ter uma ideia, ao chegar, em cima da hora, para o debate no auditório da Rede Gazeta, Max recusou-se a ficar no mesmo camarim onde Arnaldinho já se encontrava – nos três debates anteriores da série, todos os pares de concorrentes aceitaram compartilhar o camarim.

A eleição passada para prefeito, vencida por Max Filho, foi marcada por uma trilogia de debates também épicos, com forte carga de agressividade, entre ele e seu então principal concorrente, Neucimar Fraga (PSD). Num deles, exatamente no mesmo estúdio, Max sentou-se bem ao lado de Neucimar e, em dado momento, chegou a pôr-lhe o dedo indicador na cara, enquanto Neucimar pedia direitos de resposta em série.

Dessa vez, quatro anos depois e diante de um novo oponente que lhe fez oposição sistemática na Câmara de Vila Velha durante todo o atual mandato, não houve dedo na cara – o que, insisto, também só não ocorreu por causa da separação física forçada entre eles. Mas, na carga de exaltação, na troca de ataques, nas acusações pesadas, nas vozes elevadas e até na linguagem corporal, arrisco-me a dizer que esse debate superou aqueles protagonizados por Max e Neucimar em 2016, em matéria de agressividade.

Embora separados pelo mediador e pelas duas paredes de acrílico mantidas entre eles, Arnaldinho e principalmente Max Filho fizeram questão de trocar encaradas. Em muitos momentos, Max ignorou a câmera postada à sua frente e, deixando de olhar fixamente para ela, voltou-se para seu oponente e, de perfil para a câmera, falou olhando para Arnaldinho.

Bem atrás nas pesquisas mais recentes – 30 pontos percentuais nos votos válidos, de acordo com a última Ibope/Rede Gazeta, publicada no último sábado (21) –, Max, como já era esperado, com muito pouco a perder, partiu para o “tudo ou nada”. Acionou o modo “Mad Max” (como o apelidamos aqui em seus momentos mais combativos) e partiu para cima de Arnaldinho do primeiro ao último segundo, da primeira à última intervenção, salvo pelas considerações finais, quando leu uma passagem da Bíblia e fez um apelo mais direto (e mais sereno) ao coração dos eleitores cristãos:

“Tudo posso naquele que me fortalece. Quero pedir a você, cristão como eu: vamos colocar o futuro da nossa cidade debaixo dos pés do Todo Poderoso. Uma decisão errada agora, nós vamos levar quatro anos para consertar. [...] Vamos pedir a graça de Deus [...] e não o chicote de Deus para nos punir por nossos erros.”

Do outro lado do estúdio, Max encontrou um adversário à altura e também nem um pouco disposto a “levar desaforos para casa”. O vereador de oposição também foi para o debate com a faca nos dentes e aceitou a luta franca com Max, também dirigindo-lhe ataques, provocações e incontáveis críticas ao desempenho do prefeito e à atual administração.

Em muitos momentos, o debate pareceu uma disputa de quem mente mais, ou melhor, de quem acusa o outro de mentir mais. O termo “fake news”, atribuído sempre ao outro, foi usado e surrado por ambos. Em tom debochado, Arnaldinho referiu-se várias vezes ao prefeito como “Maxnóquio”, em alusão ao personagem Pinóquio. Falando no boneco de madeira, também chegou a dizer que Max não passa de um ventríloquo, que faz o que os outros determinam, principalmente o tio, Saturnino Mauro, que, segundo o vereador, é de fato quem governa a cidade.

A ESTRATÉGIA DE MAX

Max foi para o debate com o cérebro, mas também com o fígado, movido por argumentos, mas também pela ira (e Max é um político que, historicamente, cresce muito quando está irado e “possuído”).

O prefeito de 52 anos, entrou no estúdio determinado a desconstruir o “discurso de renovação” com que se apresenta Arnaldinho, 37 anos, e a ideia vendida pelo adversário de que seria um representante de novas ideias e novas práticas políticas, em contraste com o próprio Max. Para isso, o prefeito repisou a todo instante que, embora se apresente como um político novo, Arnaldinho já é vereador por oito anos – período ao longo do qual votou quatro vezes em Ivan Carlini (DEM) para a presidência da Câmara – e foi secretário municipal de Assistência Social na gestão de Rodney Miranda.

O antecessor de Max, aliás, sem estar ali para se defender, foi enxovalhado pelo prefeito, que não poupou críticas à administração de Rodney (2013/2016). Sempre que pôde, Max tratou Arnaldinho como partícipe e sócio do governo que, segundo ele, deixou a Prefeitura de Vila Velha "em frangalhos" quando ele voltou ao cargo, em 2017. “Tive que voltar a ser prefeito para estabilizar de novo a cidade.”

O prefeito também fez críticas muito específicas à atuação de Arnaldinho como secretário, definida por ele como “desastrosa” e “desastrada”. Os adjetivos sobraram dos dois lados.

Quanto ao discurso de renovação, Max buscou desnudá-lo como um “embuste”, uma “enganação”, um “estelionato eleitoral no 1º turno”.

“De ‘novo’ ele nunca foi nada. Vila Velha foi vítima de um estelionato eleitoral no primeiro turno. Aliás, ele devia pedir desculpas aos demais candidatos. Mas o segundo turno é agora. A hora é agora de tomarmos a decisão. Reflita, eleitor de Vila Velha. Reflita, estude. Eu sou prefeito, não sou perfeito, longe disso… Mas tenho trabalho diuturnamente para que Vila Velha se desenvolva. [...] Vamos arriscar para quê? Já assistimos a esse filme oito anos atrás. Trocar por trocar… olha no que deu. Não é o momento”, disse ele, modulando a voz, para aumentar a dramaticidade de suas palavras nesse trecho.

“Não tiveram competência, não tiveram capacidade. Vila Velha sofreu muito com esses discursos vazios e com essas propostas vãs. É hora da tomada de consciência! Olha o que deu o governo de Rodney. Olha no que dá cair em promessas fáceis, em blablablá. Não vamos cair nessa de novo!”, conclamou o prefeito.

Diversas vezes, o filho de Max Mauro chamou Arnaldinho de “despreparado” e criticou o vereador por, segundo ele, ter o “cacoete” de só saber criticar, sem jamais apresentar soluções. Max também buscou se apresentar como um voto seguro para o eleitor: a aposta em um gestor público experiente e que não representa nenhum risco nem "aventura", em contraste com o seu concorrente, em um momento delicado como o da pandemia e o que virá na pós-pandemia.

Num direito de resposta (foram pedido muitos, por ambos, ao longo do debate, e concedido um para cada um), Max afirmou sobre o filho de Arnaldo Borgo: “O candidato deveria se ater a responder às perguntas dos leitores e dos jornalistas de A Gazeta, mas insiste em me espezinhar, como fez por quatro anos do seu mandato de vereador. Acho que é o cacoete dele. É despreparado nas respostas, inexperiente para lidar com a coisa pública. E agora quer achacar a honra do prefeito de Vila Velha”.

Para provocar o adversário, Max também chamou Arnaldinho de “palpiteiro” e, praticamente, tratou-o como um viciado em energéticos caros (o “candidato Red Bull”). “[O que fizemos] foi trabalhando. Não foi tomando Red Bull!”; “Não é opinião de candidato palpiteiro, que só sabe criticar e que tem esse cacoete horrível.: não apresenta solução, só sabe criticar!”

A ESTRATÉGIA DE ARNALDINHO

Em primeiro lugar, Arnaldinho de fato se apresentou como alternativa para quem quer renovação política no comando da cidade, em contraponto a Max, que está encerrando o seu terceiro governo. “É um voto da renovação. É um novo tempo, com novas ideias. Renove com 19!”, disse ele, repetindo o seu slogan, em sua última participação.

O vereador também se afirmou como um político cheio de energia e disposição (mas sem auxílio de energéticos), colocando em Max a pecha de preguiçoso e lento, além de incompetente e incapaz de gerar os resultados de que a cidade necessita com agilidade.

“Quem tem que tomar Red Bull é ele. Eu sou um menino. Sou um homem que tem muita energia. Trabalho muito, acordo cedo e durmo tarde para ajudar a população, diferentemente do meu oponente, que chega à prefeitura às 13 horas e vai embora às 16 horas.”

Como candidato de oposição, Arnaldinho não economizou nas críticas a Max e à sua administração. Segundo ele, “a cidade de Vila Velha está abandonada” e o prefeito não está “acostumado a trabalhar com planejamento”. “Eu ando pelas ruas e todos são unânimes: Vila Velha está ruim. Os serviços públicos não funcionam”. Segundo ele, “as unidades de saúde não têm nem internet nem geladeira para colocar a vacina” e “o empresário em Vila Velha tem que se ajoelhar na porta do prefeito para conseguir um alvará”.

Também usou frases impactantes: “Você quer mais quatro anos, ou seja, 16 anos, para deixar a população sofrendo”. “A cidade está sangrando, está chorando pela falta de uma liderança”. “Você deixou a população mais vulnerável sofrendo. É na pandemia que a gente vê quem é um verdadeiro líder na cidade. O que observamos na pandemia foi um desastre”.

Reiteradamente, Arnaldinho criticou o adversário por, de acordo ele, não apresentar nenhuma proposta ao longo de todo o debate: “Lanço um desafio para o candidato: coloque as propostas que ele tem”. “O candidato é incapaz de fazer uma proposta. Só coloca a culpa em terceiros”. “Faça uma proposta, candidato! Não falou uma proposta até agora”. “Eu vim para discutir propostas. O senhor não coloca propostas”.

Arnaldinho também acusou Max de nunca admitir nenhuma falha e de sempre transferir as suas responsabilidades como prefeito:

“Sempre arruma uma desculpa para colocar a culpa pela ineficiência e pela inércia da administração dele em alguém”. “A culpa de Vila Velha não ter saído do lodo e do buraco é única e exclusivamente sua, candidato. Não adianta querer buscar culpados. As grandes lideranças assumem suas responsabilidades. E o senhor está mostrando que não é liderança.”

Também de acordo com Arnaldinho, Max confunde fiscalização com crítica e não está acostumado a ser fiscalizado pelos vereadores, que têm esse papel:

“Eu não tenho criticado o prefeito. Eu tenho fiscalizado ele”. “O senhor me respeite, candidato. Quem pede respeito aqui sou eu. Não adianta ficar chateado. Vou te fiscalizar até o fim do meu mandato. Ele não está acostumado com fiscalização. Fui eleito para te fiscalizar, você querendo ou não.”

Em muitas oportunidades, Arnaldinho também afirmou que Max perdeu credibilidade junto à população do município. Além do já citado “Maxnóquio”, chamou-o, duas vezes “de candidato sambarilove”:

“O candidato sambarilove do meu lado não tem dados”. “O senhor fica fazendo um teatro, querendo enganar o eleitor com uma narrativa em que ninguém acredita mais. Tenta, de todas as formas, através de um teatro, enganar o nosso povo”. “Está criando uma fake news, criando uma narrativa que nunca existiu. Está falando um monte de bobagens. O senhor está desorientado. Respeita a inteligência dos nossos eleitores”. “O candidato falta com a verdade. Vila Velha não cai mais em suas mentiras. A verdade dói, candidato. Principalmente quando tem dinheiro disponível e você não faz os recursos chegarem à população”.

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