A lição de Bernardinho e Fernanda Venturini para Lorenzo Pazolini
Ensinamento
A lição de Bernardinho e Fernanda Venturini para Lorenzo Pazolini
Prefeito tem tomado boas medidas neste momento crítico da pandemia, mas isolacionismo prevaleceu sobre espírito coletivo em alguns momentos, enquanto seus apoiadores se mantêm numa campanha digital frenética, fora de hora e de tom, para “diferenciá-lo dos demais”
Da esquerda para a direita: Pazolini, Fernanda Venturini e BernardinhoCrédito: Amarildo
Está no livro do Bernardinho, “Transformando suor em ouro” (2006): logo que assumiu o comando da seleção brasileira feminina de vôlei, em meados dos anos 1990, ele precisou bater de frente com a então craque do time, a brilhante levantadora Fernanda Venturini. A primeira coisa que fez foi tirar-lhe a faixa de capitã, o que obviamente não agradou a ela. O motivo: falta de espírito coletivo. Fernanda era e sempre foi uma fora de série (a quem este colunista adorava ver jogar). Ganhava todos os prêmios individuais. Mas o time não ia tão bem. A seleção estava perdendo.
E de pronto Bernardinho notou que, enquanto todas as colegas de Fernanda, desprovidas do seu talento, saíam de quadra querendo morder as paredes de raiva, ela se mantinha cool, blasée, distante, quase indiferente ao resultado. O mais importante, para ela, era sua atuação individual: “o que importa é que eu faça o meu bem-feito; se estou jogando bem, tudo está bem”.
Aos poucos, Bernardinho conseguiu mudar a mentalidade de sua craque. E os resultados não tardaram a aparecer. Jogando mais coletivamente e se importando mais com o time, Fernanda liderou a seleção para um vice-campeonato mundial (1994) e uma medalha olímpica de bronze (1996).
Do esporte para a política, de Venturini para Pazolini. Abro a coluna com esta analogia para falar do prefeito de Vitória. Na gestão da crise da pandemia nos últimos 15 dias (a crise dentro da crise), Pazolini está apresentando a “síndrome de Fernanda Venturini”: comportamento similar ao da craque e prima donna das quadras no começo da sua bela carreira.
Neste seu início de mandato, em seu primeiro teste real como gestor e homem público, o prefeito poderia assimilar e adaptar para a política o ensinamento de Bernardinho no esporte: de nada adianta eu jogar bem individualmente se o time inteiro perde. Como parte do time, eu perco junto. E ninguém sai ganhando com isso. A menos que o time de Pazolini seja só, bem... o “time Pazolini”.
Ao mesmo tempo, Pazolini tem demonstrado, politicamente, uma postura ambígua em relação às medidas instituídas por decretos, nas últimas duas semanas, pelo governo estadual, visando aumentar o isolamento e o distanciamento social. São medidas impopulares e antipáticas – sobretudo para o setor mais diretamente prejudicado: o comércio –, mas que se faziam inadiáveis. Medidas totalmente necessárias, mas que carregam um ônus político a todos que dela tomem parte e venham a público de peito aberto dizer: sinto muito, mas é preciso fechar suas portas neste momento.
Nos dias 13, 15 e 17, sequencialmente, o prefeito da Capital, logo o da Capital (que não se coloca como adversário político do governo), ignorou o convite, passou longe daquelas salas virtuais e nem sequer mandou um representante em seu lugar. Até do ponto de vista simbólico, neste momento crucial que demanda a união de todos, sobretudo de autoridades, sua presença era muito importante. Que ele tenha faltado, vá lá… Mas nem sequer enviar um representante?!?
Enquanto a imprensa buscava uma explicação, o Estado inteiro se perguntava: qual é a de Pazolini, afinal? O que ele pretende com isso? E, diante do seu silêncio, duas possibilidades pairavam:
Ou ele seria conceitualmente contra o fechamento temporário de atividades não essenciais, e portanto contra o decreto estadual (mas nesse caso seria importante que viesse a público dizer isso); ou ele na verdade concorda com a adoção das medidas e entende que elas são a coisa certa a se fazer neste momento, mas simplesmente quer manter uma distância asséptica dessas decisões tomadas pelo "andar superior", para não se deixar “contaminar” pelo desgaste político inevitável gerado por medidas tão impopulares.
Enquanto ele mantinha-se distante, ampliando a carga de ambiguidade, apoiadores vibravam em grupos da bolha bolsonarista que apoiaram a sua eleição em 2020. Os mesmos bolsonaristas que agora estão em campanha aberta contra a quarentena (e contra o governador).
Material difundido por apoiadores de Pazolini na semana passadaCrédito: Reprodução
Esse distanciamento asséptico – numa hora que não permite esse tipo de preciosismo com a própria imagem – transmitiu uma necessidade de sempre aparecer bem perante a opinião pública, na mídia e nas redes sociais. Ficar só com o filé, mas não com osso. Colher os bônus políticos, mas não os ônus. Como delegado e deputado, era até possível isso. Mas um prefeito não pode se dar esse luxo. Nenhum gestor público pode.
O problema é que, enquanto parece enfim disposto a participar de discussões conjuntas e foros multilaterais, seus apoiadores e membros de seu governo não param de propagandear, freneticamente, dados favoráveis a Vitória na gestão da pandemia, relativos exclusivamente à Capital, como se Vitória fosse uma ilha em todos os sentidos. De novo: isolacionismo. Por sinal, na língua italiana, isola significa ilha mesmo.
Como se não bastasse, nos últimos dois dias, materiais inacreditáveis, com viés fortemente autopromocional, passaram a ser compartilhados em grupos de WhatsApp por aliados, apoiadores, pessoas que foram candidatas a vereador na coligação de Pazolini e que hoje têm cargos na Prefeitura de Vitória. Um deles é um vídeo inserível na categoria “Meu Deus do céu, não acredito no que estou vendo”.
Vídeo difundido por apoiadores de PazoliniCrédito: Reprodução
Lembrando a linguagem da sua campanha eleitoral na TV (grande produção, edição ágil, cortes rápidos, locutor profissional), o vídeo retoma até o slogan eleitoral de Pazolini (“Paz e Igualdade na Capital”) para dizer que "é o prefeito Pazolini cuidando de Vitória, é gente de verdade cuidando da gente", numa nítida investida para distanciá-lo e diferenciá-lo como gestor. Diferenciá-lo dos outros prefeitos e, inclusive, do governo estadual, como se Vitória fosse um oásis de eficiência na gestão da pandemia, onde tudo está dando certo, enquanto o resto do Estado e do país mergulha em caos.
É preciso dizer o óbvio? Não é hora disso, meu povo!
Procurada pela coluna, a assessoria da Prefeitura de Vitória informou que não reconhece esse vídeo. Menos mal.
A luta contra a Covid não é uma competição entre gestores. E, por mais positivas que sejam ações individuais de Pazolini, fazer propaganda política em cima disso (ou permitir que façam por ele), com linguagem eleitoral e repetição de slogan de campanha, soa errado e inapropriado, fora do tom e do timing, neste momento em que brasileiros perdem a vida aos milhares e mais de 30 capixabas perdem a luta para a Covid-19 todo dia (pouco importa o município). Ainda mais uma propaganda nessa linha “vejam só: esse é que é ‘o cara’”, “estão vendo como ele é bom?”, “ele faz, os outros copiam”. É até de mau gosto. Denota voluntarismo, individualismo e vaidade fora de hora.
Material difundido por apoiadores de Pazolini em grupos de WhatsApp nesta semanaCrédito: Reprodução
Em tempo: Fernanda Venturini casou-se com Bernardinho, em 1999. Tiveram duas filhas juntos e foram casados por mais de 20 anos. Separaram-se no ano passado.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.