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Influência política e divergências mantêm igrejas abertas na quarentena no ES

Templos religiosos escaparam de decreto estadual. Ainda assim, alguns fazem apenas celebrações virtuais em meio à pandemia de Covid-19

Vitória
Publicado em 25/03/2021 às 02h04
A Igreja Nossa Senhora do Rosário, na Prainha de Vila Velha, foi reaberta ao público
A Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Vila Velha, durante a pandemia de Covid-19. Crédito: Ricardo Medeiros

Na última semana, o governo do Espírito Santo decretou uma quarentena de 14 dias em todo o Estado, com restrições de atividades para conter o avanço da Covid-19. As medidas adotadas incluem o fechamento de escolas, restaurantes e do comércio em geral, mas deixam de fora as igrejas que, apesar de serem locais de aglomeração, não estão proibidas de abrir as portas.

Essa exceção às atividades religiosas contraria autoridades de saúde do Estado e encontra divergência até mesmo nas igrejas, mas mostra a força política que os grupos religiosos têm, na avaliação de especialistas. Também foi uma forma de o Executivo estadual evitar o desgaste com esse público, ainda que a estratégia deixe arestas a aparar com os demais segmentos.

O funcionamento de templos e igrejas segue a lei estadual 11.151/2020, que, desde o ano passado, estabelece o serviço desses locais como "essencial nos períodos de calamidade pública."

O texto foi aprovado pela Assembleia Legislativa e sancionado pelo governador Renato Casagrande (PSB) em julho, em meio à politização do tema, incentivada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O governo federal já havia incluído as atividades religiosas no rol dos serviços essenciais desde março.

De acordo com interlocutores do governo, apesar de desagradar autoridades da área de saúde, Casagrande optou por não vetar o projeto por acreditar que a grande maioria das igrejas permaneceria fechada, independentemente de um decreto. Isso não aconteceria em outros setores, como o comércio, por exemplo. 

Assim, ao permitir que as lideranças decidissem sobre manter ou não as atividades, o Palácio Anchieta deu um voto de confiança aos grupos religiosos e evitou um confronto que poderia gerar um desgaste ainda maior para o governo, avaliam palacianos. 

"Já havia uma polêmica em relação ao assunto e uma discussão sobre a importância de se buscar orientação religiosa em um momento de calamidade. Não era interessante alimentar isso ainda mais. A maior parte das lideranças com quem o governador dialogava sinalizava para adesão das atividades virtuais. O governo viu que não haveria a necessidade de uma obrigatoriedade, e por isso optou por seguir esse caminho", comentou um interlocutor do governo.

A cientista política Marcela Tanaka, que estuda as relações entre política e religião, explica que os grupos religiosos exercem uma influência muito significativa na sociedade e, por isso, dialogar com eles é importante para qualquer governo.

Marcela Tanaka

Cientista Política

"As igrejas são instituições de muita influência e que vêm crescendo de uma forma exponencial na política, ocupando espaços cada vez maiores. Esse fator entra na conta do governo na hora de tomar uma decisão que afeta grupos religiosos"

Tanaka ressalta a força de mobilização popular das igrejas e pontua que há uma pressão tanto social quanto política em decisões do governo que envolvem o funcionamento de uma instituição religiosa.

"Se um governo restringe uma atividade como essa, que afeta a espiritualidade das pessoas, e cria um desgaste com lideranças, ele  compra briga com um grupo que tem uma força política muito grande e isso pode até atrapalhar eleitoralmente", avalia.

A mesma análise é feita pelo doutorando em Ciência Política pela Unicamp Vitor Vasquez. "A gente tem uma representação muito forte da religião no âmbito político no Brasil. Me parece ser uma decisão estratégica [incluir igrejas como atividades essenciais] para não comprar briga com esse público, não só com as igrejas, mas com aqueles que frequentam esses locais”, opina.

DIVERGÊNCIA DENTRO DA IGREJA

Antes de anunciar a quarentena de 14 dias, na última semana, o governo estadual reuniu, virtualmente, cerca de 70 lideranças religiosas para apresentar a situação da pandemia no Estado. 

Antes mesmo do governador anunciar medidas mais rígidas para outros segmentos e orientar para que as igrejas adotassem celebrações virtuais, alguns templos religiosos voluntariamente já tinham tomado essa decisão.  Foi o caso da Igreja Maranata, por exemplo, que suspendeu cultos presenciais em todo o país. 

De acordo com representantes que participaram da reunião com o governo, o diálogo com governador tem ocorrido desde o ano passado. Nas conversas, nunca foi proibido que as igrejas abrissem as portas, mas recomendado que elas priorizassem as atividades virtuais. 

"Nas conversas, o governo sempre falou que não poderia impedir o funcionamento das igrejas ou impor algo.  Isso com certeza traria um desconforto para dentro do meio cristão. Mas, para além da política, percebo que há bom senso dos dois lados. Há uma compreensão, por parte do governo estadual, que é uma atividade importante, e uma sensibilidade das lideranças religiosas com o momento", afirmou o diretor-geral da Convenção Batista do Estado do Espírito Santo, Diego Bravim.

Esse "tratamento diferenciado" às igrejas, contudo, é um ponto de divergência entre as lideranças religiosas. A Arquidiocese de Vitória, por exemplo, apoiava restrições mais rígidas na circulação de pessoas  e fechamento de atividades não essenciais por 21 dias, o que não agradou todo o grupo. A discordância teria sido, inclusive, um dos motivos pelo qual o governo estadual delegou a decisão de abrir ou fechar às igrejas. 

"Eu entendo que o essencial é o cuidado com a vida e, por mais que as medidas de distanciamento sejam tomadas na igreja, há circulação de pessoas que podem carregar o vírus. Na minha opinião, manter as atividades virtuais neste momento seria o caminho certo, mas sei que impor isso geraria muita insatisfação por parte de algumas lideranças religiosas", declarou o Padre Kelder Brandão, pároco em Itararé.

Para o professor de Filosofia e Teologia Vitor Rosa, ao se delegar essa responsabilidade a quem está à frente das igrejas e templos, o governo evita um confronto não só com as lideranças religiosas, mas com uma parte da população que busca a religião como forma de amparo em um momento de calamidade.

Vitor Rosa

Professor de Teologia e Filosofia

"Em um país como o Brasil, que tem uma lastro religioso muito forte, fechar um templo religioso representaria, no imaginário coletivo, uma proibição da expressão de fé"

"Quando a proibição vem de uma autoridade política, isso gera uma revolta muito grande. E é claro que não é interessante para o governo comprar essa briga e ter que lidar com a insatisfação das pessoas. Mas o fiel recebe de outra forma quando a decisão de fechar uma igreja vem da liderança religiosa, porque ali existe uma relação de confiança já estabelecida."

CATÓLICOS APOIAM MAIS DO QUE EVANGÉLICOS O FECHAMENTO DE IGREJAS

Uma pesquisa recente da Datafolha mostrou que entre os religiosos, os católicos apoiam mais o fechamento das igrejas durante a pandemia do que os evangélicos. Segundo os dados, 65% dos que frequentam a Igreja Católica concordam que o templo deve ficar fechado neste período de calamidade pública. Entre os evangélicos, esse número cai para 39%.

Os evangélicos também são os que têm menos medo de morrer por causa da Covid-19. Eles representam 46% dos que nada ou pouco temem serem infectados pela Covid-19. Entre católicos, o índice é de 32%.

Quando o assunto é vacinação,  a maior parte dos entrevistados dos dois grupos religiosos disse  que queria ser imunizada. Mas, entre os que se negam, 14% são evangélicos e 6%, católicos.

Os evangélicos formam uma das bases fortes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que desde o início da pandemia tem minimizado os efeitos do novo coronavírus. Os dados foram colhidos nos dias 15 e 16 de março de 2021, com 2.023 pessoas em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para baixo ou para cima.

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