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Análise do discurso

Pazolini acerta ao pregar união, humildade, diálogo e participação

Em discurso de posse, prefeito de Vitória escolheu bem o tom e as palavras, destacando conceitos como sensatez, responsabilidade, democracia e respeito à ciência. Mas também sobrou uma alfinetada em Luciano Rezende

Publicado em 02 de Janeiro de 2021 às 06:00

Públicado em 

02 jan 2021 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi empossado
Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi empossado como prefeito de Vitória, de forma virtual, em sessão da Câmara Crédito: Reprodução/Youtube
Desde que venceu a eleição para prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos) tem feito movimentos acertados. Aliás, desde sua primeira entrevista após a confirmação do resultado oficial, no dia 29 de novembro, o sucessor de Luciano Rezende tem feito gestos, sinais e declarações muito corretos no sentido de distensionar o clima político, deixando bem claro que desceu do palanque no mesmo instante em que a eleição acabou, que vai governar a Capital para todos, que não vai discriminar ninguém, que, ao contrário, quer unir a cidade e que precisa da ajuda de todos para conseguir fazer um bom governo.
Nesta sexta-feira (1º), em seu primeiro pronunciamento após ser oficialmente empossado, Pazolini mais uma vez acertou no tom e na escolha das palavras. A partir de agora, veremos e cobraremos se a prática condirá com o discurso. Mas o discurso está na linha certa. Em seu objetivo pronunciamento, de cerca de dez minutos, Pazolini pregou conceitos como união, diálogo, participação popular e humildade (palavra usada por ele três vezes), principalmente para ouvir especialistas antes de tomar suas decisões. Também destacou conceitos como sensatez, serenidade, responsabilidade, democracia e respeito à ciência.
Diga-se de passagem, a cada dia que passa e a cada passo que dá, Pazolini se distancia mais da pecha de “bolsonarista” que se tentou colar nele durante a eleição municipal, particularmente no 2º turno contra João Coser (PT). União, diálogo, humildade, serenidade, bom-senso, responsabilidade, democracia, respeito à ciência… Falemos claramente: isso não tem nada, mas absolutamente nada a ver com a personalidade e a prática política de Jair Bolsonaro. É praticamente a síntese do antibolsonarismo.
Ao falar sobre a pandemia, longe de negar-lhe a gravidade ou buscar minimizar o flagelo, Pazolini demonstrou respeito e temor ao novo coronavírus e, em igual proporção, respeito e devoção à ciência (o que também se expressa em seu convite para que o infectologista Lauro Ferreira Pinto assuma a Secretaria Municipal de Saúde). É o antinegacionismo e, também nisso, o antibolsonarismo.
“Este [é um] momento em que nós somos desafiados pela pandemia, um momento único da história recente do mundo e um momento em que nós teremos que ter coragem para a tomada de decisões, ouvindo a ciência, ouvindo os profissionais, e um momento que exigirá de todos os gestores muita responsabilidade, muita serenidade, muito bom-senso, sensatez, mas principalmente a humildade para ouvir antes de decidir”, discursou Pazolini, que fez um agradecimento especial aos professores, ao lado de outro especialmente endereçado aos profissionais da saúde, “que têm se desdobrado, alguns perdendo a própria vida para salvar a vida das pessoas”.

PAZ E DISTENSIONAMENTO

Pazolini enunciou palavras visando ao distensionamento e à conciliação política, com acenos à oposição e aos eleitores de outros candidatos (por sinal, não passou despercebido o emprego da expressão “todos e todas”, mais comum a políticos de esquerda, ao fazer as saudações iniciais):
“Fica aqui o meu agradecimento a todos que votaram, não só os que acreditaram no nosso projeto, mas também aqueles que democraticamente se manifestaram a favor de outras candidaturas. A democracia não traz vencedores e vencidos. Ela apenas demonstra o entendimento momentâneo da sociedade, o que a sociedade queria naquele momento, qual era o desejo da maioria que, de maneira legítima e pacífica, se manifestou através das urnas. Então cabe a nós receber essa demonstração da sociedade com muita humildade, com bom-senso, mas, principalmente, com muito senso de responsabilidade. E é o que nós vamos fazer.”
No fim de sua breve fala, o prefeito recém-empossado citou uma passagem do Evangelho segundo São Mateus, “constantemente incluída em discursos de [Abraham] Lincoln”: “Uma casa dividida não se sustenta”. “É hora de unirmos essa cidade”, emendou o católico Pazolini, para quem Vitória “é uma cidade que hoje está dividida, uma cidade segregada e que precisa ser reconstruída”.

ALFINETADA NO ANTECESSOR: FALTA DE DIÁLOGO

Sucintamente, Pazolini salientou dois grandes desafios para a cidade de Vitória e para a sua administração, particularmente neste primeiro ano. No primeiro deles, sem citar Luciano Rezende, deixou, “com todo o respeito”, uma alfinetada no antecessor, ao sublinhar a necessidade de “retomada do diálogo com a cidade, do protagonismo do cidadão, e efetivamente possibilitar um foro adequado de debate”.
Para bom entendedor, o novo prefeito sugeriu que, nos últimos anos, a Prefeitura de Vitória foi uma esfera de poder sem interlocução real com a sociedade, arredia ao controle social e fechada à participação popular:
“O nosso principal compromisso é o de apresentar uma equipe de secretários que, principalmente, tenha condição de neste momento virar a página e mudar uma realidade, com todo o respeito, de um déficit de legitimidade, um déficit de democracia e uma falta de dialogo do poder público. O nosso principal desafio no primeiro ano da gestão, à frente da Prefeitura de Vitória, será demonstrar e solidificar, através de atos concretos, o nosso compromisso de diálogo. Diálogo com os servidores públicos, diálogo com a sociedade civil organizada, diálogo com os profissionais da saúde, com os moradores, com os professores, enfim, diálogo com todos que moram, que amam e convivem com esta cidade.”
Pazolini comprometeu-se a permitir o controle social (o que inclui a imprensa, a propósito), sem retaliação: “Temos que virar esta página: abrir a prefeitura para a sociedade, permitir que efetivamente haja controle social e permitir que os atos públicos possam ser devidamente acompanhados e fiscalizados sem nenhum tipo de retaliação ou comportamento invasivo e antidemocrático por parte do gestor.”

INVESTIMENTOS COM RECURSOS PRÓPRIOS

O segundo desafio frisado pelo novo prefeito foi, curiosamente, a repetição do mantra de Paulo Hartung em sua última passagem pelo governo do Espírito Santo, de 2015 a 2018: a retomada da capacidade de investimentos com recursos próprios. Por sinal, a cada passo que dá para mais longe de Bolsonaro e do bolsonarismo, Pazolini parece se avizinhar mais de Hartung e, por assim dizer, do hartunguismo.
“Temos um tremendo desafio. Temos um orçamento para o ano que vem [na verdade, para este ano mesmo] de mais de R$ 2 bilhões, com uma capacidade de investimento, infelizmente, quase zero. Beira a zero a capacidade de investimentos com recursos próprios da Prefeitura de Vitória. Então teremos que ter coragem para mudar essa realidade. [...] É fundamental que possamos recuperar a nossa capacidade de investimentos com recursos próprios”, afirmou o ex-deputado, emendando que já transmitiu essa missão à cúpula de sua equipe em formação:
“Esse tem que ser o nosso compromisso, a nossa luta diária. E já deixei isso claro para todos os nossos secretários, para aqueles que estarão do nosso lado nos auxiliando na tomada de decisões: precisamos cuidar melhor das contas e ter mais responsabilidade, para que tenhamos, num futuro breve, se Deus quiser, capacidade de investimento, para retomar o protagonismo da cidade de Vitória.”

DA SOBERBA À HUMILDADE

Em maio de 2019, escrevi que Pazolini, como deputado estadual, mostrou soberba e arrogância ao ofender pessoas que se manifestavam, nas galerias do plenário da Assembleia Legislativa, contra a homenagem prestada por ele à ministra Damares Alves. Agora, Pazolini de fato tem demonstrado a humildade tão pregada por ele (e, com isso, amadurecimento), em um conjunto de gestos realizados logo após o pleito municipal. Por exemplo, ao tomar a iniciativa de procurar adversários políticos, como o ex-prefeito João Coser (derrotado por ele no 2º turno) e o governador Renato Casagrande.
Da mesma forma o fez ao abrir diálogo com representantes da Arquidiocese de Vitória, em encontro mediado pelo deputado Sergio Majeski (que não é seu aliado), após polêmicas eleitorais envolvendo padres na última semana da campanha. Na mesma toada, a sua vice-prefeita, capitã Estéfane Ferreira, tomou a iniciativa de convidar para uma boa conversa as duas vereadoras eleitas em Vitória (ambas pela oposição): Camila Valadão (PSOL) e Karla Coser (PT).
Estéfane, aliás, fez na cerimônia de posse uma fala muito sintonizada com a de Pazolini: “Queremos governar para toda a cidade, para toda a população de Vitória, não só para as pessoas que votaram em nós e confiaram em nós, mas também para todas as demais que residem na cidade e que exerceram o seu direito democrático também de optarem pela escolha que lhes pareceu melhor naquele momento”.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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