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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Padres em conflito: disputa eleitoral em Vitória gera divisão na Igreja

Em missa celebrada no domingo, padre Kelder Brandão pediu a fiéis para não elegerem o projeto de “inimigos da Igreja”. Em resposta, padre Agostinho Morosini falou em “falsos apóstolos”: “Aquele padre é que se coloca como inimigo da Igreja”

Publicado em 25/11/2020 às 09h11
Atualizado em 25/11/2020 às 09h53
Padres Kelder Brandão e Agostinho Morosini
Padres Kelder Brandão e Agostinho Morosini. Crédito: João Paulo Rocetti e Reprodução / Montagem: Vitor Vogas

A disputa do 2º turno eleitoral em Vitória, entre o ex-prefeito João Coser (PT) e o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos), gerou “um novo cisma” na Igreja Católica: uma divisão com pano de fundo político-eleitoral, colocando em franca oposição dois conhecidos líderes religiosos da cidade: o padre Kelder Brandão, da paróquia Santa Teresa de Calcutá (Itararé), e o padre frei Agostinho Morosini, da paróquia Santa Rita de Cássia (Praia do Canto).

Durante a missa de Crisma celebrada por ele no último domingo (22), exatamente na metade do 2º turno, o padre Kelder, sem citar os candidatos pelo nome, dirigiu aos fiéis uma fala que não dá margem a outra interpretação: implicitamente, declarou e pediu apoio ao projeto representado por João Coser:

“São os leigos e leigas que movem a Igreja e a sociedade. E a Igreja orienta os leigos e leigas cristãs a assumirem especificamente a missão política no Brasil, para ajudar a construir aqui no Brasil o reino de Deus aqui entre nós, através da ação política. E, nesse sentido, vocês têm uma missão muito importante nesta semana, que é o engajamento político, tendo em vista o segundo turno das eleições municipais. E nós temos dois projetos muito claros nessa disputa do segundo turno. Um projeto que é apresentado por um candidato que é membro desta paróquia, que é membro desta comunidade, que nós conhecemos a sua origem, que nós conhecemos os seus objetivos, que já foi gestor e fez uma boa gestão aqui no município e que defende pautas que também são defendidas por nós, pela Igreja, como por exemplo os direitos humanos, o combate à pobreza e a valorização das minorias sociais através de políticas públicas.”

Indo além, novamente sem citá-lo pelo nome, Kelder fez uma alusão muito negativa ao “outro candidato” (obviamente, por eliminação, em referência a Lorenzo Pazolini), o qual, segundo ele, seria “patrocinado por grupos fundamentalistas e por inimigos da Igreja”. Kelder chegou a dizer que a cidade de Vitória não pode ser governada por “grupos milicianos” e por “grupos criminosos”.

“E tem um outro candidato, que defende uma pauta antagônica a estas. Um candidato que, inclusive, é patrocinado por grupos fundamentalistas e por inimigos públicos da Igreja. Então, durante esta semana, nós temos uma missão muito importante: é a gente se engajar nesse processo político, para que a nossa cidade não retroceda e seja governada por grupos milicianos, como, por exemplo, acontece no Rio de Janeiro. Nós queremos a nossa Vitória sendo governada pelo Espírito Santo. E o Espírito Santo, como enfatizamos na homilia, é o espírito da verdade. Nossa cidade, cidade de Vitória, cidade do Espírito Santo, deve ser governada pela verdade, pela paz e pela justiça, e não por grupos criminosos. Então, que a missão de vocês nesta semana seja esse engajamento político, para que a gente tenha um bom êxito nessas eleições, não elegendo inimigos da Igreja.”

Em resposta às palavras públicas do padre Kelder, o frei Agostinho Morosini, da paróquia da Praia do Canto, gravou um depoimento em vídeo, que chegou ao conhecimento da coluna, criticando duramente a postura do colega. Em primeiro lugar, Agostinho afirma que o posicionamento de Kelder é estritamente pessoal e não necessariamente reflete a posição da Igreja Católica.

“Olá. Eu sou o padre frei Agostinho Morosini, da ordem dos Agostinianos Recoletos. Estou como pároco da paróquia Santa Rita de Cássia, da Praia do Canto, em Vitória. Dirijo-me a vocês, queridos paroquianos, mas também a todos a quem interessar. Vocês ou alguns de vocês devem ter recebido um vídeo que foi publicado nas redes de mídias sociais, de internet. Um vídeo de um colega no sacerdócio, próximo daqui, em outra paróquia, no qual o padre, no altar do Senhor, faz propaganda política em favor de um determinado candidato à prefeitura. Além disso, ele fala que o candidato adversário é patrocinado por ‘inimigos da Igreja’. Vejam bem, quero esclarecer a vocês que, se ele estiver se referindo à Igreja Católica, eu, como um religioso e padre católico, não sou de acordo com isso. Trata-se de uma posição pessoal dele e não necessariamente a posição da Igreja.”

Sem citar Kelder pelo nome, Agostinho alerta para “o perigo de haver falsos apóstolos” e diz que, agindo daquela forma, “aquele padre é que se coloca como inimigo da Igreja, na medida em que causa divisões na comunidade, com discursos politizados”:

“Como já alertava o apóstolo São Paulo sobre o perigo de haver falsos apóstolos, causando transtorno no seio da comunidade cristã, entre os fiéis, aquele padre, agindo daquela forma, ele é que se coloca como inimigo da Igreja, na medida em que divide, causa divisões na comunidade, com discursos politizados, e distorce o sentido, a função para a qual são destinados o altar e o ambão, a mesa da palavra. O altar é para realizar o sacrifício eucarístico, para a sagrada comunhão eucarística; a mesa da palavra, para proclamar e pregar a palavra de Deus.”

Por fim, o padre da paróquia Santa Rita de Cássia sublinha que o verdadeiro papel dos representantes da Igreja Católica é orientar seu rebanho a votar de forma consciente, buscando conhecer os candidatos e respectivas propostas, de acordo com a própria consciência (mas sem buscar influenciar o voto da comunidade em favor ou contra algum candidato):

“A Igreja Católica, na verdade, tão somente pede aos seus padres para que orientem os seus fiéis, o povo santo de Deus, a votar de forma consciente. Pesquisar, estudar, analisar os projetos apresentados pelos candidatos, as suas propostas, e optar por aquele projeto montado que você concluir ser o melhor, em conformidade com o que é possível de ser aplicado para o bem da população e todas as realidades da cidade, mediante políticas públicas justas. Desse modo, tendo confiança no seu candidato, vote de forma consciente, na convicção de que está votando certo. A paz em Cristo.”

EM CONCLUSÃO

A "batalha eleitoral" em Vitória agora também virou "Guerra Santa".

ENQUANTO ISSO...

O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, apoiador do presidente Jair Bolsonaro, declarou apoio a Pazolini, em um vídeo no qual pede ao "povo abençoado de Vitória" que "diga não ao PT". Amigo de Magno Malta (PL), Malafaia gravou depoimentos para candidatos apoiados pelo ex-senador na Grande Vitória, no 1º turno.

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