Um episódio que conduz a uma reflexão acerca da democracia, silêncios e decisões inaugurou 2021. O dia 06 de janeiro, em que o Congresso Americano se reuniu para ratificar a vitória de Joe Biden e Kamala Harris, a casa legislativa da dita maior democracia do mundo (afirmativa passível de relativizações), foi invadida por partidários de Donald Trump, em um protesto contra o resultado das eleições presidenciais ocorridas em 2020.
A invasão do Capitólio chamou a atenção do mundo, no que tange como o sistema democrático é difícil de ser recepcionado e compreendido pelos seres humanos, levando os próprios americanos a atacarem o coração legislativo por meio de ato extremo de desespero por não concordar com um resultado de uma escolha da maioria.
Desvelou-se ao mundo a fragilidade do sistema de segurança considerado mais seguro, a certeza que a democracia em qualquer nação está sob permanente ameaça, a necessidade de se estar vigilante às intempéries e arroubos de pseudos-estadistas, a conduta humana se iguala em qualquer república (seja ela de Leite de Rosas ou de Victoria Secret) e os sentinelas de proteção de um sistema democrático devem agir de forma prévia com análise de cenários a partir de seus atores.
Dezenas de autoridades e instituições espraiadas pelo mundo se posicionaram, rapidamente, no sentido de repudiar os acontecimentos, e principalmente defender a democracia, e ainda condenaram a postura do presidente americano que termina seu mandato de forma irresponsável e irrefletida, ao incitar seguidores a se confrontarem com a instituição maior do país.
Contudo, a autoridade que diz respeito aos brasileiros demorou mais de 12 horas para se manifestar e quando o fez, ao invés de se posicionar na defesa da democracia e surpreender a todos, foi o mais do mesmo, atacou o sistema eleitoral exitoso brasileiro, e, ainda chancelou seu posicionamento de não respeitar as diferenças. A fala de Bolsonaro deve acender um alerta vermelho para as autoridades dos três poderes quanto à adoção de medidas prévias a um acontecimento de tamanha gravidade e ameaça ao sistema democrático que deve prevalecer a qualquer sistema totalitário.
É chegada a hora de blindar a democracia de tal forma que nada possa atingi-la, pois senão corre-se o risco de que a sua morte seja uma certeza e volte-se a viver em tempos sombrios e macabros, com possibilidade de colocar-se em risco tudo o que já foi conquistado na construção de um Estado Democrático de Direito.
Assim, é preciso uma quinada no curso dessa travessia agora, pois senão em 2022 assistir-se-á a episódios mais gravosos e irreparáveis do que o mundo testemunhou. A defesa da democracia não se faz com silenciamentos, mas com manifestações responsáveis, oportunas e tempestivas que devem ser feitas em alto e bom som, para não se correr o risco de amanhã ou depois ter-se que compreender como as democracias morrem.