É impossível assistir à invasão ao Congresso norte-americano por seguidores de Donald Trump sem relacioná-la ao que acontece e poderá acontecer no Brasil. Lá, como aqui, os presidentes têm ideias e comportamentos autoritários e seus seguidores são tão ou mais radicais que eles. É por isso que o presidente brasileiro não se cansa de elogiar o colega norte-americano. Ao assistir às imagens de manifestantes escalando os muros do Capitólio e invadindo o plenário e os gabinetes dos parlamentares, chega forte a lembrança dos bolsonaristas soltando fogos na direção do Supremo Tribunal Federal em junho.
Nem foi preciso usar a criatividade para fazer a relação entre esses dois fatos. O próprio Bolsonaro, no dia seguinte à invasão do Capitólio, anunciou que, em 2022, pode acontecer “a mesma coisa” no Brasil “se tivermos o voto eletrônico”. Ou seja, tal como Trump, o discurso da fraude eleitoral já está pronto. O que também não é novidade porque, mesmo tendo vencido a eleição em 2018, Bolsonaro não se cansa de repetir que “a fraude existe” com a urna eletrônica brasileira.
Nem Trump tem razão nas acusações que faz ao sistema eleitoral americano, nem Bolsonaro possui um indício sequer que possa existir fraude no sistema eleitoral brasileiro. Ambos repetem bravatas, sem provas, com o único intuito de confundir a opinião pública. Basta dizer que fracassaram as mais de 60 tentativas de Trump de recorrer à Justiça para tentar mudar o resultado das urnas. No Brasil, Bolsonaro não sai do discurso porque, efetivamente, nunca teve provas a apresentar de fraude em qualquer uma das eleições em que a urna eletrônica foi utilizada.
Seria ingenuidade, contudo, ignorar as ações tresloucadas de Trump e Bolsonaro porque elas têm muitas coisas em comum, entre as quais a ameaça que representam à democracia. Ao adotar a narrativa de fraude, os dois tentam desmoralizar o sistema eleitoral e, por consequência, colocar em dúvida o processo – baseado no voto igualitário – em que se dá a atribuição do poder em um regime democrático.
Ao levantar suspeitas sobre a legitimidade do voto popular, eles abrem caminhos para ações como as da invasão do Capitólio, nas quais a violência tenta substituir o diálogo e a selvageria busca inviabilizar a convivência entre contrários. Procuram, enfim, solapar os princípios fundamentais da democracia.
Trump conclamou os seus seguidores a marchar em direção ao Capitólio. Bolsonaro já anunciou que, em 2022, “vamos ter problemas piores do que os Estados Unidos”. Lá, as instituições democráticas – inclusive o partido político que elegeu Trump – se mostraram fortes o suficiente para resistir às tentativas de desestabilização do regime democrático. Vamos confiar que aqui as instituições brasileiras tenham uma resiliência tão forte quanto as de lá.