Por mais que tenhamos enviado votos de feliz ano novo aos amigos, não é fácil ser otimista no Brasil em 2021. A começar pela segunda onda da pandemia do novo coronavírus – que, ao invés de ser “potencializado pela mídia”, como disse o presidente, ressurge turbinado por uma nova variante que amplia o seu poder de contaminação – que adia, sabe-se lá por quanto tempo, as perspectivas de volta à vida normal. Como se isso não bastasse, o Brasil segue no final da fila da vacinação em massa, já em curso em mais de 50 países.
Com relação à vacinação, se não bastasse a incompetência do governo federal em viabilizá-la, estamos todos condenados a conviver com uma campanha explícita que nega a sua eficácia, conduzida exatamente por quem deveria ser o primeiro a estimulá-la. Não é fácil suportar as ironias de que quem se vacinar pode virar jacaré, brincadeira infame que só pode ter saído de uma boca irresponsável.
Dói no coração ouvir de uma querida amiga a pergunta se ela deveria ou não se vacinar, considerando a enxurrada de mensagens a que teve acesso amedrontando-a sobre os efeitos da vacina. Isso demonstra o quanto mal faz aos brasileiros essa campanha diária negando a gravidade da “gripezinha”, ou da “conversinha” da segunda onda, e as críticas “aos maricas” que usam máscaras e evitam as aglomerações. Afinal, para que esses cuidados já que “todos nós vamos morrer um dia?”, como repete a ladainha maldita.
Nas praias, multidões se esbarram. Nos calçadões, as pessoas já não usam a máscara. As festas clandestinas se multiplicam. Nelas é possível ouvir os gritos de que “se precisar, intuba, p*”, como foi documentado em vídeo exibido na TV. O presidente promove aglomerações, circula sem máscara e anuncia que não vai se vacinar, fiel ao seu discurso caricato que pretende fazer graça com coisa séria.
A tática presidencial é conhecida: se eximir das responsabilidades e tentar jogar a culpa nos outros. Quando confrontado com o recorde de mortes pela Covid-19 se limitou a dizer: “E daí? Quer que eu faça o quê?”. Agora diz que “o Brasil está quebrado” e, por isso, não consegue “fazer nada”. Ou seja, se o país é o vice-líder na quantidade de vítimas e se ainda não tem vacinas e seringas, o problema não é do governo.
Enquanto isso, os hospitais estão superlotados, com ocupação de leitos de enfermaria e de UTI acima de 90%. Os profissionais de saúde estão à beira da exaustão. No Espírito Santo, já são mais de 5,2 mil mortos e 258 mil contaminados. No Brasil, os casos se aproximam dos 8 milhões e as mortes passaram de 200 mil. Definitivamente, não é possível ser otimista em um ambiente como esse.