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Pandemia e contemporaneidade

A luta pela vida e a dissonância entre querer e fazer

Precisamos estabelecer um nexo de coerência entre discurso e ações deliberadas

Públicado em 

11 jan 2021 às 06:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Ilustração de pessoas usando máscaras e em aglomeração
Gestos singelos, como manter o distanciamento, são suficientes para deter a transmissão de um vírus tão letal, mas parece ser tão difícil executá-los Crédito: Freepik
Todos nós já estamos cansados de ouvir notícias, ver estatísticas dos mortos e infectados, ler matérias sobre as pesquisas e discutir sobre o Covid 19. Além de mudar os hábitos daqueles que tem responsabilidade, e imprimir um novo ritmo de vida para os que se preocupam com a coletividade. Infelizmente nem todo mundo é detentor de um senso de responsabilidade para com o outro ou mesmo para consigo.
Quer-se que a pandemia passe logo, mas não se contribui para isso. Deseja-se que a vida volte ao normal, mas não se engrossa as fileiras juntamente com aqueles que marcham para esse destino. Sustenta-se discursos acerca da democracia ou respeito ao próximo, mas não se faz um gesto que seja democrático ou respeitoso, se fechando sempre mais nos próprios fundamentos e a cada dia cuidando de si ou no máximo do grupo a que se pertence, ao invés de pensar, enquanto humanos, na humanidade. Pensar na humanidade é pensar em pessoas de carne e osso, incluindo os que são diferentes de nós.
Bandeiras são levantadas pelas causas da humanidade, mas se passa direto ao lado daqueles que bem perto precisam. Descuida-se do básico, principalmente nesse momento de pandemia em que a garantia da saúde de todas as pessoas, depende, menos de remédios, e mais de responsabilidade e respeito. Gestos singelos são suficientes para deter a transmissão de um vírus tão letal, mas parece ser tão difícil executá-los.
É enigmático e complexo, como uma pandemia tão grave pode ser arrefecida com pequenos gestos humanos como usar máscaras, manter distanciamento e manter a higiene das mãos, e ao mesmo tempo a saída se apresenta tão distante. A saída para esse problema tão grave que a humanidade vive está, literalmente, nas mãos dos humanos, e talvez seja isso que traga tanto medo e insegurança quando se dá conta de que a autoridade máxima que deveria conduzir esse processo não o faz, e como se não bastasse, atrapalha.
Responsabilidade com a vida de todas as pessoas e respeito ao direito a saúde de todos passa pelo humano com receitas caseiras que supúnhamos ter aprendido desde cedo. Os jovens devem respeitar e cuidar dos idosos. Os que não acreditam na ciência devem respeitar os que desejam que a mesma seja condutora do reestabelecimento da vida plena e dos relacionamentos de proximidade. A razão e emoção devem andar de mãos dadas e desarmadas. Precisamos estabelecer um nexo de coerência entre discurso e ações deliberadas.
No pensamento de Adela Cortina, falamos que “outro mundo é possível e mesmo necessário, porque o que temos não está à altura do que os seres humanos merecem”, mas precisamos “averiguar por que existe um abismo entre as nossas declarações e as nossas realizações, ou seja, o que é que nos ocorre que queremos um mundo e construímos outro”.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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