“O contrário de cada coisa está junto dela, a cada decisão opõe-se alguma razão, a cada animal opõe-se um animal capaz de destruí-lo, macho e fêmea, positivo e negativo.” (Pacto sinistro, Patricia Highsmith)
No mundo real, nem sempre há uma verdade absoluta, um ponto de vista único e imutável.
Gente que se mostrava como paladino da retidão, defensor da moral e bons costumes, combatente da corrupção, num determinado momento, num estalar de dedos, acaba sendo pego com a “mão na botija”, envolvido em falcatruas, crimes, barbaridades...
Muitos se sentem enganados, decepcionados, e, em casos assim, o normal é que mudem de opinião sobre aquilo que antes lhes pareciam ser o certo. Faz parte da grandeza humana aceitar o erro, recomeçar, mudar o juízo sobre algo, desde que isso ocorra por fatos e verdades antes desconhecidos.
Fruta faz bem à saúde, então o recomendável é comer fruta. Tá, mas aí se descobre que algumas frutas, como é o caso das cítricas, podem fazer mal a algumas pessoas. Um exemplo simples sobre como nem sempre pode haver uma única e resoluta verdade sobre as coisas.
Não faz muito tempo que os aplicativos de entrega de comida em domicílio surgiram, no começo sendo usados de modo tímido. No início, houve algumas críticas, pois se dizia que isso iria contribuir para o fechamento de muitos restaurantes. Hoje, porém, a sobrevivência de vários restaurantes se deu, principalmente, graças a esse serviço.
Até pouco tempo atrás, os médicos nem queriam ouvir falar da telemedicina. Choviam críticas relacionadas à possibilidade de precarização do trabalho dos médicos e redução da remuneração ou do valor das consultas.
Até há pouco tempo, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo rechaçava veementemente a possibilidade de registro profissional de quem tivesse feito a formação acadêmica de modo não presencial. Aí veio a pandemia...
Agora, muitos são os médicos que jogam as mãos para os céus por poder trabalhar via telemedicina, mantendo o distanciamento social que minimiza os riscos de contágio da Covid-19, sem interrupção do atendimento aos seus pacientes.
Até agora, muitos professores ainda se opõem ao ensino a distância (EaD), usando vários argumentos para isso. A maioria deles são justificáveis: o desconhecimento das ferramentas de produção de aulas virtuais; instabilidade da internet; a ausência de isonomia do corpo discente, principalmente dos alunos das escolas e universidades públicas, pois muitos não possuem dispositivos de acesso; o aumento da carga de trabalho dos professores, que acaba sendo realizado junto com o doméstico; a inadequação do espaço residencial para a atividade acadêmica; o oportunismo (ou esperteza) de algumas instituições privadas que reduzem o número de professores contratados, ampliando o número de alunos nas salas virtuais, etc.
Mas que alternativa temos agora diante da pandemia? A manutenção dos professores e alunos em casa de modo inativo até que se encontre uma vacina e todos sejam vacinados?
Também é certo que, sem o retorno das aulas presenciais, muitos pais não terão como sair para trabalhar, afinal nem todas as atividades laborais podem ser realizadas de modo remoto. Sem ter com quem deixar os filhos, muitas famílias terão suas rendas comprometidas (como já vem ocorrendo desde o início da pandemia).
E quais serão os danos psicológicos deste longo confinamento que interrompeu o processo de socialização das crianças?
São muitas as perguntas, muitas dúvidas pairando no ar. Não há, portanto, como ter uma única resposta. Para cada caso, cada situação específica, deverá ser encontrada uma solução adequada às diferentes realidades.
Por enquanto, a única certeza, a única verdade incontestável, é que a Covid-19 mata, como já matou milhares de pessoas, e continuará matando...