Um dos segmentos mais afetados pelo confinamento foi o de alimentação fora do lar. A paralisação de muitas atividades profissionais – como o comércio, por exemplo –, a suspensão das aulas e o trabalho remoto fizeram com que milhares de pessoas que faziam suas refeições nas ruas deixassem de frequentar bares e restaurantes. E, claro, não só pra isso, pois ir a tais locais para o lazer, encontrar com os amigos, beber uma cerveja, um drinque, comer algo diferente, distrair-se, assistir uma música ao vivo, enfim, foram coisas que se tornaram totalmente paralisadas, interrompidas...
Mas, como se sabe, tudo isto foi necessário para evitar que o contágio da Covid-19 fosse ainda mais rápido, afinal, a ciência ainda não encontrou uma medida eficaz contra a pandemia do coronavírus.
Creio que se pode dizer que todos nós podemos ser considerados uns heróis, afinal, não têm sido fácil os últimos meses, confinados, pedindo quentinhas ou tendo que se virar na cozinha, sem o encontro social animador nos bares e restaurantes da vida. Sem esquecer dos garçons, copeiros, cozinheiros, ou ainda, os músicos que viviam tocando “nos bares da vida”, além é claro, dos empresários do setor, que se viram de uma hora para outra no limbo, em suspensão, sem perspectiva de futuro.
Contudo, se tem um setor que nunca para é a produção e a comercialização de alimentos, afinal, seja em tempos de bonança ou recessão, em tempos de paz ou de guerra, o homem sempre precisa comer, seja para saborear o que a vida lhe dá, seja para sobreviver.
O agronegócio, os serviços de transportes (principalmente de alimentos) e os supermercados foram algumas atividades que passaram a margem da crise provocada pela Covid-19. Mas com as aulas suspensas e muitos trabalhando remotamente, muitos restaurantes perderam seus clientes e foram forçados a encerrar suas atividades. Alguns migraram para os serviços de entrega, mas, mesmo assim, com enorme queda no faturamento.
Enquanto isto, muitas pessoas aproveitaram o tempo em casa para dedicar-se ao aprendizado gastronômico. Lazer para uns, sobrevivência para outros, ou tudo junto e misturado. Receitas de comida foram um dos itens mais consultados em diversos sítios da internet; e de uma hora pra outra, muita gente se viu chefe de cozinha, porém, cozinhando para si próprio ou para sua família. Compartilhando imagens, porém sem cheiros, odores, perfumes e sabores que pudessem ser experimentados pelos amigos, que só ficaram com água na boca.
O homem é um ser social, adora reunir-se com os demais, e lá no passado, sumérios, egípcios, fenícios, monges, índios, sei lá..., inventaram a cerveja, o vinho, a cachaça, e depois algum brasileiro ainda inventou a caipirinha, e assim é que junto com a comida veio o prazer da bebida e também o de estar junto, com a família, com os amigos, os colegas de trabalho, num bar, num restaurante, num boteco, para papear, rir, saborear, beber, ouvir uma música e fazendo “tin-tin” ao batermos os copos uns nos outros...
Estamos todos cansados deste confinamento, o que não quer dizer que é hora de liberar geral, da galera se reunir em festas, juntando todo mundo como se nada de estranho estivesse ocorrendo no mundo. Neste ponto, é importante lembrar que se em algumas regiões brasileiras a curva de contágio se desacelerou, em outras ela possui tendência de alta, e ainda temos uma média de mil mortes diárias no país!
Isto posto, confesso que me dói muito saber que muitos bares e restaurantes tradicionais não sucumbiram à paralisação provocada pela pandemia. Admito que sou um boêmio, um botequeiro por natureza. Houve até mesmo uma época na qual eu dizia que devia minha formação cultural tanto aos livros quanto aos bares; era quando queríamos mudar o mundo e discutíamos o novo disco de fulano de tal, o novo filme de ciclano...
Se o debate cultural se arrefeceu e o político ainda não, estando cada vez mais radicalizado, o fato é que somos um povo que carrega no sangue o convívio festeiro, que enche bares de alegria.
E se ainda não é hora de aglomeração como fizeram os rapazes e “as meninas do Leblon”, é certo que estamos todos aguardando a definição dos protocolos para a retomada gradual de alguns locais aonde possamos reencontrar os amigos, guardado o distanciamento que nos dê segurança sanitária, afinal, os danos psicológicos do confinamento ainda estão para serem avaliados, e que podem deixar marcas severas, indeléveis, e que ainda não podem ser mensuradas em cada indivíduo.