E aí, de uma hora pra outra, o mundo ficou enorme, ou será o contrário?
O desenvolvimento dos meios de transporte a partir da Revolução Industrial permitiu que o homem iniciasse uma nova fase de deslocamentos através dos territórios, impulsionando não só o desenvolvimento econômico, com a ocupação de novas áreas a serem exploradas, mas também possibilitou viagens pra todos os rincões do planeta.
Virou até festa, como disse o ministro da Economia, com empregadas domésticas indo passear na Disney.
A ideia de um mundo maior ou menor, dependendo do ponto de vista, se dá pela facilidade das viagens em função de uma enorme rede de transporte, mas, ao mesmo tempo, pela ideia de infinitude que se coloca, pois o desejo de conhecermos tantos lugares nunca será completamente aplacado, saciado, afinal não há mesmo como conhecer todo o planeta. Mas não falta vontade...
A esta altura já se sabe que o turismo foi uma das atividades mais afetadas pela pandemia e, provavelmente, uma das últimas a se recuperar, a despeito do cansaço psicológico em que todos estamos no atual momento, e nada como uma viagem para recuperar os ânimos.
Ah, mas como é bom viajar! E se não der pra ir para a Holanda, que se vá pra Holambra, a famosa e florida cidade do interior de São Paulo. Como não vai ser possível ir pra Veneza agora, que tal visitar Recife, a capital pernambucana, também conhecida como “Veneza brasileira”? Em vez de embarcar para os EUA, e ir ver o Capitólio em Washington, por que não conhecer a pequena Capitólio, em Minas Gerais?
O problema, contudo, é que para quem não é de São Paulo, Holambra também é um destino relativamente longe, não dando para ser visitada se não tiver parte do trajeto realizado por avião. E o mesmo se dá em relação ao Recife pra quem, por exemplo, vive nas demais regiões brasileiras, ou seja, só dá pra ir mesmo de avião. Mas, e aí, quem vai arriscar?
Pesquisas já estão indicando que daqui pra frente a maioria das pessoas fará viagens a lazer mais curtas, com meio de transporte próprio, ou seja, com carro particular.
Isso provocará uma transformação radical na lógica do turismo. Companhias áreas revisarão suas malhas, assim como as de ônibus interurbanos. Grandes hotéis já não farão tanto sentido, pois se imagina que os viajantes darão preferência para estruturas de hospedagem com poucas unidades habitacionais. E o que dizer dos parques temáticos?
Há pessoas que adoram viajar, mas sempre preferiram destinos, hospedagem e passeios alternativos, pouco atraentes para aqueles que preferem o turismo de massa, no qual se vêm excursões com dezenas, centenas de pessoas atrás de um guia turístico com um boné e uma bandeirinha de cores chamativas identificando-o no meio da multidão.
O risco, evidentemente, é de que os chamados destinos alternativos se tornem a bola da vez, recebendo hordas de turistas que extrapolarão a capacidade de carga de tais lugares, criando conflitos aonde antes o visitante encontrava tranquilidade e sossego.
Quem curte parque temático, adora barulho, agitação, correria, sai com pressa de um brinquedo e já entra na fila do próximo. Se tiver música alta, estridente, melhor ainda. E se ela vier de um palco, com alguém gritando, botando a galera pra rebolar, aí que a coisa fica mais animada!
Bem ao contrário daquelas pequenas cidades históricas, de uma vila litorânea com ruas sem pavimentação ou de um parque natural legalmente protegido. Quem viaja para esses lugares quer desfrutar da paisagem fazendo uma lenta caminhada, quer sentar num restaurante tradicional e comer comida caseira, quer visitar um ateliê de um artesão e conhecer a arte local e, principalmente, não quer pressa, pois isso ele encontra no seu dia a dia, lá aonde mora e trabalha.
Risco ou oportunidade?
É como aquela anedota do dono da empresa de sapatos, que mandou dois funcionários para visitar uma cidade onde todo mundo andava a pé. Um dos funcionários achou que ninguém ia querer comprar sapato, pois não havia esta tradição, o outro, ao contrário, viu nisso uma oportunidade de vender muito sapato.
Que os agentes de turismo saibam planejar com astúcia e criatividade como lidar com o novo normal, pois se eles querem trabalhar, a gente quer viajar!