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Economia

O futuro do trabalho após a pandemia e os desafios no Brasil

Relatório publicado pelo McKinsey Global Institute sugere que os formuladores de políticas públicas devem apoiar as empresas, expandindo e aprimorando a infraestrutura digital

Publicado em 22 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

22 mar 2021 às 02:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

Home office, modelo de trabalho foi adotado pela maior parte das empresas devido a pandemia
O trabalho remoto permanecerá para parte da mão de obra mais qualificada Crédito: Pixabay
Um relatório publicado no dia 18 de fevereiro pelo McKinsey Global Institute trouxe reflexões preocupantes sobre o futuro do trabalho após a pandemia da Covid-19. O relatório abordou as tendências em oito países, que representam 62% da economia global e quase a metade da população do planeta: China, França, Alemanha, Índia, Japão, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Muitas das tendências mapeadas já se manifestavam antes da pandemia.
Em síntese, “dada a concentração esperada de crescimento do emprego em ocupações de alta remuneração e declínios em ocupações de baixa remuneração, a escala e a natureza das transições da força de trabalho exigidas nos próximos anos serão desafiadoras”.
Automação por inteligência artificial, digitalização de processos e comércio digital são realidades que foram potencializadas desde a eclosão da pandemia. O trabalho remoto, por exemplo, permanecerá para parte da mão de obra mais qualificada. Governos e organizações precisam trabalhar juntos nessa transição para evitar que os trabalhadores menos qualificados fiquem pelo caminho.
O relatório mostrou que os trabalhadores em ocupações na faixa salarial mais baixa usam habilidades cognitivas básicas e habilidades físicas e manuais em 68% do tempo, enquanto na faixa salarial média o uso dessas habilidades ocupa 48% do tempo gasto. Nas categorias mais altas, essas habilidades são responsáveis por menos de 20% do tempo laboral. As dificuldades na transição, portanto, serão maiores para os trabalhadores menos qualificados.
Avaliando a recuperação das economias após a crise pandêmica, o relatório sugere que os formuladores de políticas públicas devem apoiar as empresas, expandindo e aprimorando a infraestrutura digital. A clássica receita keynesiana dos gastos públicos puxando os gastos privados funciona e é capaz de direcionar novas trajetórias de desenvolvimento tecnológico, econômico e social. O relatório sugere que os governos devem considerar a extensão de benefícios e proteções aos trabalhadores, inclusive para desenvolver suas habilidades e conhecimentos no meio da carreira.
De acordo com o McKinsey Global Institute, o setor privado não é capaz, sozinho, de promover a recuperação nas economias estudadas. Guardadas as devidas proporções, sem um vigoroso gasto público em infraestrutura no Brasil, a recuperação econômica será ilusória.
Os pibinhos entre 2017 e 2019 já mostravam a fragilidade da crença na pujança do capital privado como motor na recuperação brasileira após o tombo recessivo anterior. A política da “austeridade fiscal expansionista” não se sustenta como receita para a saída de recessões e crises econômicas. Ela serve para retirar direitos sociais e trabalhistas na onda regressiva das reformas neoliberais.
Restam poucas dúvidas de que a Emenda Constitucional 95/2016, a reforma trabalhista e a precarização da proteção ambiental são âncoras regressivas e instrumentos para gerar sobrevida ao modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, caracterizado estruturalmente pelo uso intensivo de mão de obra e recursos naturais “ilimitados”. Há problemas ambientais e sociais em seguirmos por esse conhecido caminho.
A literatura crítica nos diz que os países especializados em atividades “malthusianas” (oferta “ilimitada” de mão de obra e intensivas em recursos naturais) permanecerão pobres e com elevada concentração de renda, enquanto os países especializados em atividades “schumpeterianas” (inovações e retornos crescentes de escala) serão capazes de elevar o nível de seus salários e atingir padrões de vida maiores.
Quanto mais sofisticada for a estrutura produtiva de um país ou de uma região, mais ela demandará profissionais qualificados, com efeitos na distribuição funcional da renda, contribuindo para reduzir as desigualdades sociais.
Quanto menos desenvolvido for um país, maior a sua dependência da exportação de produtos tomadores de preços nos mercados globais. Essa dependência, por sua vez, está correlacionada com as desigualdades sociais extremas dentro desses países. No Brasil, o processo de desindustrialização precoce colocou o país em uma faixa perigosa de dependência da exportação de produtos básicos e semimanufaturados, ao mesmo tempo em que aumentou as importações de novos produtos intensivos em tecnologia.
Desde o final de 2014, o ajuste macroeconômico brasileiro buscou oferecer a perspectiva de uma rápida recuperação da “confiança” dos agentes econômicos “racionais” por meio de uma espécie de “austeridade expansionista” tão criticada por Krugman, Stiglitz e outros relevantes pensadores econômicos que consideram a importância dos multiplicadores fiscais. A demanda precisa estimular o uso das capacidades ociosas da economia e, portanto, o gasto público anticíclico é crucial na recuperação das crises.
Há ainda no Brasil a real necessidade de se reavaliar e reconceituar o que seria um novo modelo de desenvolvimento, mais inclusivo do ponto de vista social e ambientalmente sustentável. Imerso em uma desarticulação federativa crônica no combate à pandemia, o país possui enormes desafios presentes e futuros. Organizar efetivamente a campanha de vacinação nacional e reforçar as medidas sanitárias de isolamento social são tarefas necessárias no curtíssimo prazo. Pensar e planejar o futuro também representam desafios coletivos relevantes, pois eles dizem respeito à estabilidade democrática brasileira.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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