ASSINE
É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade. Escreve quinzenalmente, às segundas

Economia do Brasil: qual será a recuperação a curto ou médio prazo?

A continuidade da agenda regressiva das reformas, ancorada pela Emenda Constitucional 95/2016, não contribui para a recuperação brasileira

Publicado em 08/03/2021 às 02h00
Atualizado em 08/03/2021 às 02h04
Covid-19:  impactos na saúde e na economia
Situação da pandemia da Covid-19 no Brasil “é uma tragédia” e o momento é “muito duro para os brasileiros”, ponderou o diretor-executivo OMS, Michael Ryan. Crédito: Mateus Andre/user3802032/Freepik

Em entrevista concedida ao jornal "O Globo" no dia 26 de fevereiro, o renomado cientista Miguel Nicolelis alertou para o risco de “colapso nacional”. Segundo o cientista, “não é que todo canto vá colapsar, mas boa parte das capitais pode colapsar ao mesmo tempo, nunca estivemos perto disso”. A descoordenação federativa de ações e de medidas comuns já cobrou um alto preço em termos de vidas humanas e de desajustes nas cadeias de suprimentos.

A situação da pandemia da Covid-19 no Brasil “é uma tragédia” e o momento é “muito duro para os brasileiros”, ponderou, no dia 26 de fevereiro, o diretor-executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan. Conforme constou em uma matéria da "Folha de S.Paulo", assinada por Ana Estela de Sousa Pinto, Ryan afirmou que “aumentar o número de leitos é importante e necessário, mas não será suficiente se os casos continuarem subindo”. O desafio consiste em impedir a transmissão do vírus.

No dia 28 de fevereiro, a coluna Painel, da "Folha de S.Paulo", informou que os “governadores e secretários de Saúde têm pedido a Eduardo Pazuello uma medida única para o país frear o avanço da Covid-19”. A resposta à demanda das unidades federativas por uma coordenação federativa foi negativa. Aumentar temporariamente o rigor das medidas de isolamento social é algo necessário, ainda que na base de um projeto racional de recuperação encontra-se a organização da campanha nacional de imunização.

A continuidade da agenda regressiva das reformas, ancorada pela Emenda Constitucional 95/2016, não contribui para a recuperação brasileira. O aprofundamento da agenda ultraliberal precarizará e reduzirá os serviços públicos prestados à população. Eliminar os pisos constitucionais de aplicação de recursos públicos em educação e saúde tampouco ajuda a retomada e o desenvolvimento do país. O necessário retorno do auxílio emergencial federal não pode ser trocado por uma política de desmonte das áreas sociais mantidas pelo gasto público.

O Brasil possui recursos instalados e pode muito bem ativá-los para um momento pós-pandemia. A visão baseada em recursos oferece uma perspectiva estratégica para a retomada econômica. Como estamos no Espírito Santo, tomo a liberdade de falar um pouco sobre a capilaridade da presença do Instituto Federal em todas as regiões geográficas capixabas. Para o ano base de 2019, segundo a Plataforma Nilo Peçanha, o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) possuía 33.112 matrículas de estudantes e 22 unidades. Essa presença regionalizada possui potencial desenvolvimentista.

Estruturado a partir do tripé de ensino, pesquisa e extensão, o Ifes contribui para o desenvolvimento das regiões capixabas. Sua presença contribui na qualidade da formação cidadã do capital humano e também como fonte de demanda para os empreendimentos locais, devido à presença e aos gastos de servidores públicos. Situações similares ocorrem a partir da presença de outras organizações públicas no território, sejam elas estaduais ou federais.

Será preciso ocupar as pessoas dispostas a trabalhar após a pandemia. O investimento público em infraestrutura será crucial para que os gastos privados retornem com maior confiança nas perspectivas da economia. Um Estado-nação, que emite a sua própria moeda e é capaz de tributar nessa moeda em seu território, possui duas restrições básicas ao avanço do gasto público: o pleno emprego e a tolerância social à inflação. Os bancos centrais modernos estão atuando na política monetária em coordenação com a política fiscal, injetando dinheiro para aquecer as economias. A autonomia do Banco Central não parece seguir essa lógica no Brasil.

Mais recentemente, chamou a minha atenção um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que revelou a relação histórica entre as epidemias e os conflitos sociais. Segundo Barrett, Chen e Li, em artigo publicado no blog do FMI no dia 3 de fevereiro, “o estudo do FMI constatou que os países com epidemias mais graves e mais frequentes também registraram, em média, mais conflitos”.

“Em alguns casos”, afirmaram os pesquisadores do FMI, “os atuais regimes podem tirar proveito de uma emergência para consolidar o poder e reprimir dissidências”. O estudo concluiu que é possível que os conflitos sociais ressurjam após a pandemia recuar. Essas ameaças deverão ser maiores nos locais onde a crise tenha exposto problemas preexistentes, tais como a falta de confiança nas instituições, a má gestão pública, a pobreza e as desigualdades sociais.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.